quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Feliz aniversário

Feliz demais para descrever.
Já sinto saudade.

Eu? Assim? Feliz!? Há quanto tempo, hein, felicidade. Honestamente, você tem sido pouco justa com a minha pessoa. Eu merecia mais dessa sensação deliciosa de calor sob a pele, esse frio na barriga. É como se eu nunca tivesse passado por isso antes; uma sensação nova, inimaginável, algo inédito. É como me sinto agora.

- Muito prazer.
Com um aperto de mão, finalmente fomos devidamente apresentados. Um abraço logo em seguida, é claro. E sorrisos. Tantos sorrisos.
Naquela noite, passei por dois momentos que merecem destaque. Primeiro, tive o prazer de dizer "não" àquele que nunca me negou, mas também nunca me deu nada. Segundo, eu pude desfrutar daqueles momentos em que ninguém sabe direito o que está fazendo, embora ambos queiram a mesma coisa. Aquele esqueminha de adolescente de 12 anos, sabe? (Não que eu seja algum tipo de adulta, mas...)
Um olhar acompanhado de um sorriso, um abraço, mais um copo, risadas e mais risadas, e mais copos, e então um alerta na minha cabeça: onde ele está?! Saiu. Com alguém. Buscar um amigo, é o que dizem. Tudo bem. Ele é o anfitrião, não posso roubá-lo só pra mim. Mesmo porque não tenho motivos. Ou tenho? Ou queria ter? Ai, meu Deus.
Eu quero.

Quando o José e o Souza já eram história, as garrafas vazias espalhadas por ali, eu soube que precisava fazer alguma coisa. Ou ir embora, ou tomar uma atitude. Mas eu não estava com meus típicos picos de atitude e coragem de sempre - estava meio travada. Falta de prática, talvez. Ou só medo. Medo?, você pode pensar. Você? Medo de quê? Medo da rejeição que além de possível, era provável.
Mas não. E, para me garantir que meu medo era só uma bobagem da minha cabeça que pensa demais, foi você.

Você sorriu primeiro.

sábado, 25 de agosto de 2012

Manchas de 'talvez'

No papel, milhares de manchas coloridas. Misturas de azul e vermelho. Muito azul. Muito vermelho. Um pouco de verde nos cabelos; no desenho, o vento sopra com força, e o rosto desenhado demonstra tristeza. Talvez, imagino, seja um reflexo do interior de quem pinta. Talvez seja eu, num papel, com mais cor do que a realidade permite. Talvez seja apenas uma face do que está aqui, preso e adormecido, não?, questiono. O papel enrugado e molhado, afinal aquarela usa muita água. O papel sempre esteve molhado, e eu posso nem ter percebido as lágrimas. Ou talvez elas estejam ali, no azul, quando sopro o excesso de água sobre a tinta. Sobre mim mesma, até.

Um dos rostos desenhados está tranquilo. É uma garota, uma garota doce, um pouco triste, admito, mas em paz. Ela tem o cabelo jogado e colorido, como é de esperar, e solta fumaça pelos lábios grossos. Talvez a fumaça seja o meu jeito de representar tudo que quero dizer, mas que ninguém parece ouvir. Como fumaça. Não se pode prender, mal se pode ver. Só existe, sem atenção. Fumaça cor-de-rosa, porque é doce. É doce e delicado. E inútil.
A única coisa em comum entre todos os rostos é que os olhos sempre estão fechados. Sonhando, talvez. Dormindo durante um pequeno momento. Uma piscadela e pronto, meio segundo de sonho, a imaginação à mil. Meio segundo de paz. Talvez, se mantivermos os olhos fechados, como no desenho, por toda a eternidade, possamos sonhar para sempre.
A garota ainda solta pelos lábios grossos as palavras que nunca serão ouvidas. A fumaça delicada e ignorada.

Pássaros, com enormes asas abertas, espantam o que há de ruim. No laranja forte, no verde pacífico, na mistura de várias cores e tons - penas tão coloridas quanto as reais, sim? Escritos perdidos entre um desenho e outro, porque tenho poucas folhas para usar, então abomino o desperdício de espaço. Tudo deve ser preenchido, seja com palavras, seja com cores, seja com manchas, seja com lágrimas, seja com uma pincelada suja, a mistura de todas as cores que possuo.

(Unfinished)

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Cinco laços

O vento sopra
e eu já não posso mais te ver
te levou embora
Se o sol se vai, começa a chover

Cinco laços
não há nada que possa
dizer ou fazer
que não me faça lembrar
e que eu possa esquecer

O verbo que te leva
é o mesmo que te trouxe aqui
Um capitão sem rumo
que encontrou em mim o seu navio
A âncora deixou a sua marca
mas pode ir em paz
alguém no passado me ensinou
a não correr atrás

O vento sopra
eu fecho a janela do meu quarto
(...)


domingo, 5 de agosto de 2012

À minha esquerda

O rapaz à minha esquerda segurava meus dedos com certo desespero. Amigos são pra isso; "aperte minha mão o quanto precisar, eu estou aqui". O outro, à minha direita, tinha olhos bonitos. E eu achei melhor avisá-lo do fato.
O rapaz à minha esquerda estava muito mais bêbado do que deveria, mas o que eu podia fazer? Já era muito bom que estivesse apenas bêbado. Mas ele continuava com aquele olhar perdido que tirava o meu rumo e também o meu sossego. Como se procurasse uma forma de fugir. E existem tantas...
Mas o rapaz à minha esquerda é muito mais forte do que eu julgara a princípio. Ele disse não, ele preferiu minhas mãos quentes e um pouco de grosseria. Eu queria poder abraçá-lo e garantir-lhe que, pela manhã, mal se lembraria de tudo e esta teria sido apenas mais uma noite, mas o amanhecer se aproximava de forma rápida, e eu não queria mentir. Nem poderia, na verdade. Ele saberia. Ele já sabia.

À minha direita, os olhos bonitos foram tomados pela vermelhidão típica, mas a conversa não perdeu o rumo. Havia algo de verde naquele olhar tranquilo. Talvez seja italiano, pensei. Muito branco e muito barulhento. Quando gritou com os amigos, tive certeza: italianíssimo.

Mas naquela mesa de bar, àquela hora da manhã, eu já não podia deixar de perceber que o rapaz à minha esquerda se fechava mais e mais contra sua própria vontade. Algumas risadas escapavam da boca cerrada, mas ele já piscava mais devagar e começava a se entregar. Não ao sono, não ao cansaço, não ao álcool corroendo suas veias. Começava a se entregar àquilo que lhe tomava as forças, algo sem nome, sem cor e sem cheiro, mas com uma força inacreditável. Eu apertei seus dedos, senti sua pulsação, tentava salvá-lo. Mas não podia. Não ali.
" Vamos?", convidei. "Tenho que ir embora em duas horas."
Ele sorriu. Não entendi esse sorriso.
Nunca entendo seus sorrisos.

Caminhamos pelos paralelepípedos à luz de postes elétricos, de mãos dadas por causa do frio, eu com a camisa dele.
Porque, apesar de tudo, ainda existe o cavalheirismo.

Conforme o caminho surgia e nosso destino chegava, eu ia criando uma consciência plena de que estávamos bem. Estava tudo bem. Nossos dedos entrelaçados eram muito raros, porque eram apenas dedos entrelaçados, sem entrelinhas. Estávamos em paz.
Mas é claro que quando a calmaria é grande...
Tinha que ser eu. Ele era bom demais e amigo demais e talvez até estivesse bêbado demais para perceber que eu resistia com força à tudo que me atirava naquela direção. Mas eu estava mais fraca, e num momento de loucura houve um deslize, um delírio, e acabou. Eu tinha feito.
Ele riu. Aquela risada que eu não decifrava, o sorriso que eu não entendia.
Usou um termo que eu não gosto para descrever erroneamente uma situação que eu havia causado. Tudo errado. Estava tudo errado. E, pra piorar tudo, ele deixou.
Por que ele deixou?

Na mesa do boteco eu anunciara à quem quisesse ouvir que havia um combinado. Um combinado que era nada mais que um limite. Algo que eu impusera. E agora, eu o quebrara.
Com ajuda.
Éramos dois idiotas.

Resolvido o problema e enterrado ali, naquela esquina, seguimos caminho.
Havia uma garçonete. Alargadores, cabelo ruivo, chopp grátis.
E havia ele, meu companheiro de boteco. Eu o entregaria nas mãos de quem derramava chopp bar adentro. Sem remorso, sem dor. Apenas alívio. Ela era boa com as mãos.

Não se passaram dez minutos. Eu juro pelo que há de mais sagrado.
O deixei na porta do bar, nos braços da ruiva, com seu sorriso gentil e seu jeito de menina. E ele, sorridente - como sempre. Desejei boa noite e virei para o outro lado. Desci o quarteirão e, sem pensar duas vezes, entrei. Subi o elevador, com sua velocidade super sônica, e logo estava dentro do apartamento, procurando um lugar pra dormir. Haviam corpos demais pelo chão, poucos colchões - e de repente, o interfone. O porteiro anunciou o nome de quem devia estar em mãos que derrubam chopp. Mandei subir, sai do apartamento e fui esperar no elevador. Haviam dois motivos: 1) eu queria saber por que estava voltando tão cedo e 2) não podia deixá-lo fazer qualquer barulho.
Quando a porta do elevador abriu, ele veio de cabeça baixa, muito rápido. Ficou surpreso por me encontrar ali, esperando.
- O que você está fazendo aqui?
- Vim pra você não poder fazer barulho.

Ele tomou minha mão e seguimos corredor adentro.
Entramos no apartamento, e eu disse "Fique quieto."
Depois disso, ficou tudo escuro. E tenso. E embaçado.
Eu já não sentia. E eu lutava muito contra, enquanto meu corpo clamava; clamava pelo calor. Pelo toque. Pela proximidade.
Ouve uma explosão, e ele sorriu.
Ele sorriu, e eu finalmente entendi seu sorriso.


domingo, 29 de julho de 2012

50 segundos

Na boemia da noite que não acaba, na cerveja, no papo curto à beira bar. Encostada numa bancada de madeira cheirando à mato, com um sorriso sem sentimentos que só serve para atrair a atenção do garçom. É assim que me vêem; talvez.
Força na tampinha, o líquido derrete meu esôfago e eu me derreto em vontade. Às vezes, não sei, pode haver um motivo para tudo isso. Ou não.
A abstinência me tira o sono e, então, fujo para letrinhas sem toque num espaço comprimido. Nem há som. Nem há razão. Não há nada, na verdade. Só um monte de tentativas frustradas de fugir, talvez, para um lugar-comum longe de tudo e perto de mim.
E então, o aleatório. Um nome qualquer. Eu preciso de ouvidos.
Sempre fui a ouvinte, ou sempre tentei ser, mas hoje não há escapatória: alguém tem que me ouvir. Por favor (eu imploro, de joelhos, sem medo, me ouça!).

Pobre rapaz, não merecia ser ouvinte de tragédias de tão pouco nexo.
A verdade é que quando o desespero nos assola por completo e chegamos ao fundo do poço, não podemos fugir. Eu não posso. Minha única opção é vomitar o que estiver sendo lenta e dolorosamente digerido pela minha consciência tão pouco suscetível à falha de memória. Me lembro de tudo. E isso me fode.

No entanto, há uma escapatória. Ou eu pensei que havia. Porque eu abri minha consciência e dei à mim mesma o luxo de desabafar. Plena. Completa.
Pobre rapaz.

Mas o que realmente me assusta é a quantidade de vezes em que concordamos. Pontos cegos em conversas de boteco. Buracos mais fundos; um pouco de deus, um pouco de diabo. Tinha até destino e fé. E risadas.
Mas isso é uma história que ainda não tem fim.
Imagino que será encerrada com cevada.

terça-feira, 24 de julho de 2012

É exatamente o que eu preciso

É noite.
Há estrelas num céu
coberto por nuvens.
Há um brilho
que eu não posso enxergar.
E eu preciso tanto;
da luz nessa escuridão,
preciso encontrar,
preciso chegar lá.
Um passo no asfalto molhado.
Um passo em falso.
Um pensamento leve
e eu não penso.
Só deixo que esse algo
me leve pra longe
sem deixar rastros.

domingo, 22 de julho de 2012

S.O.S.

SINAL VERMELHO!
As coisas saíram de controle.

Eu pensei que esperar você voltar seria fácil. Eu simplesmente veria o tempo passar, e então, como mágica, dezembro chegaria, e com ele viria você - e seu perfume que eu ainda não consegui identificar. Mas, como eu já deveria saber, nada foi como eu esperei que fosse. Eu me desapaixonei outra vez por (ou de) você. Passou. De novo.
Não é a primeira vez que a distância destrói um sentimento pulsante dentro de mim, mas é com certeza a mais suave. Eu nem senti quando o tempo puxou o fio que segurava minhas feridas lambidas e cuidadas e a distância o cortou, mostrando que eu estava cicatrizada e já não precisava de fiozinhos de memórias segurando coisa alguma. Interessante, não? Eu mal posso explicar, na realidade. Minhas palavras... bem, parece que estou enferrujada.
Na verdade, eu só tinha que te contar.
Não me compre um copo de dose.

Eu já não sou assim tão louca quanto eu era, sabe; passou. Passou a loucura, passou o tempo, passou você.
Estou pronta pra outra.

E que demore.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

So tired

I read young people talking about love without feeling it. I read old people talking about our time without knowing it. I read mothers and fathers talking about their son's bad behavior without reason. I read about hypocrites talking about drugs, about sex, about alcohol, about everything without trying it.
I'm getting tired of reading false and hypocrite people talking about what they don't understand. About things they've never felt. About a world they don't know. Stop trying to be politically correct if you're not. Stop pretending judge people when you act like them.
Stop making this world worse and start thinking again about your opinions - your real opinions. Don't let media make your thoughts. Think with your own mind. Judge what you think is right or wrong.
What YOU think.
Please. I'm so tired of all this hypocrisy and falsity. And, sure, I'm tired of this empty space people call heart, today.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Sorriso e Serenidade

Elas são muito diferentes.

Uma é a fogo, ardendo, brilhando, mas presa dentro de um casulo no qual ela nunca quis entrar, e só agora está descobrindo como sair. A outra é água, calma, tranquila, pacificadora. Mas tem muita força, muita vontade e muito poder. Elas não são reveses, são complementos, são as metades de um todo cheio de segredos. Separadas elas perdem força, mas não são dependentes. São apenas complementos. Como um par de dados, talvez. Onde um fortalece o outro, mas não há necessidade.
Com o tempo, aprende-se a diferenciar. Não só o rosto ou o corpo ou o cabelo ou o sorriso. Aprende-se a diferenciar as ideias; a forma como o Fogo joga o cabelo para o lado, ou como a Água baixa a cabeça quando quer escapar.

Elas são muito diferentes.

Até no toque do abraço, ou no cheiro, ou no franzir do cenho podemos ver que são tão diferentes como todo mundo. E às vezes são essas diferenças que fazem com que sejam tão iguais. Não é fácil de entender, mas é assim. E quando as confundem, e elas sorriem, por dentro clamam por um pedido de desculpas, alguém que diga: “Como você pode confundi-las? São completamente diferentes”, porque elas sabem que não são iguais. Jamais serão.

Elas são muito diferentes.

domingo, 17 de junho de 2012

Destino e um santo

De fato, era atordoante. A rapidez dos fatos,
uma sucessão rápida de fracassos.
No mesmo instante era sim e não e sim
outra vez; sem saber jamais que fim
haverá de ter.

Inegável, arrependimento supremo, e
embora o Destino me fosse afável
e tentasse se perder nos nós do meu cabelo
num carinho que eu nunca quis,
pedi mais uma vez à qualquer santo que
confiasse e me ajudasse e então jogasse
os dados por mim, fazendo com o que
o Destino nada pudesse fazer para
reverter o que já havia sido feito.

Não se mexe no passado; nem Destino
e nem santo, nem quem pode, nem quem deve.
Passado é passado porque já passou;
é redundante, mas não há definição melhor.
Quem hoje não está mal, ontem estava na pior
e amanhã, poderá governar mais que o
santo e mais que o Destino, supremo sobre
tudo que acontece agora e aqui e lá e depois.

[E se ecoa o meu nome dentre essas paredes
que não podem conter nem o seu grito,
quem poderia segurar a força de um ser
louco para ser?]

Espero eu que haja um rio frio esperando
por mim num futuro não muito distante.
Num verão tão quente quanto o inverno é frio
pra mim já é o suficiente, se é que alguém me
entende quando faço analogias às estações.
Que posso esperar? Agitação molecular à níveis
invisíveis e intocáveis, embora infinitos.

[Você ainda não consegue conter a minha voz
e a minha força e o meu sonho e a minha vontade.]

Basta aguardar no Destino, sem santo,
que haja o verão quente, que haja meu rio frio,
que haja contenção de palavras, mas não de
significado. Que haja quem me diga "não" e ria
e então me permita.
Aguardar no Destino um dia qualquer em que
o passado volte, e a redundância se aceite
[pelo simples fato de ser]
pelo simples fato de não ser assim tão impossível,
tão incerta e tão redundante, e tão boba, e tão
humanamente errônea.

Vem, Destino, e prega nessas paredes o que falta
para que a minha voz seja contida
e o vapor do suspiro seja contido
e as garras sejam imunes à dor
e já não se possa fazer mais nada.
Porque será passado.

sábado, 2 de junho de 2012

Prólogo

Eu caí no desespero.

Finalmente entendi a sensação de afundar no abismo da loucura; foi um segundo. Um segundo longo demais, admito, mas foi apenas um segundo. A morte me pareceu mais fácil que a vida, eu resolveria meu problema e daria cabo de tudo. Puf.

No segundo seguinte, me peguei no flagra. Minhas mãos trêmulas, a boca entreaberta e os olhos se fechando. Uma gota de sanidade sobrevivera à inundação da loucura, e eu estava de volta. Boom.



Nadei em direção à praia, respirando água; oxigênio e nitrogênio não me davam o que eu precisava, e eu procurei por mais. Mais. Mais. Quase lá, e meus pulmões pararam, mas eu não deixei que parassem de fato. Eu ainda tinha um caminho a percorrer. Mais rápido. Mais. Mais. Havia um longo caminho, e minha força se foi. Os braços pararam, o pulmão travou e os lábios se fecharam. Os olhos, estáticos, imóveis, miravam a praia como se fosse Deus estendendo a mão pra mim. Deus? Isso, continue. Confie naquela força cósmica celeste divina que sempre lhe foi boa, ou assim lhe disseram. Nade. Há uma mão guiando o seu caminho. Meus pulmões voltaram e, se eu não estivesse à ponto de me afogar no mar que eram as sensações naquele momento - agora -, eu teria sorrido. Mas não havia tempo nem energia para sorrir. Esticar os lábios sobre os dentes... que diferença faria? Se fizesse alguma, eu estaria de fato viva, e não meio-viva, lutando pelo resto de respeito e fé que me foi dado. Sorrir. Ha, ha, ha. Faz-me rir, vida. Você me ensinara há pouco que não demonstrar e demonstrar não possuíam qualquer diferença, na situação em que eu estava. Na realidade, quanto menos eu dissesse, sorrisse e chorasse, melhor.

Faz algum sentido? Morte e vida, numa relação tão descomplicada que me parece quase boba.
Algo do que eu disse... Nada, na verdade. Uma história sobre nadar até a praia e acreditar em algo para se salvar.

Não há fim para o primeiro ato, porque estou no prólogo.




terça-feira, 29 de maio de 2012

3

I

Bateu uma saudade. Foi forte, deu um tranco no meu ombro, me chacoalhou. Eu estava acomodada, mas agora não estou mais. Sinto falta de tardes passadas à beira-colina, sem dizer nada, só com seis cordas nos dedos. Uma risada e talvez um xingamento, dito baixo, sem ninguém se abalar. Já estávamos acostumados aos tratamentos rudes, porque quando há aquilo que havia, não há necessidade de nada mais.

II

Passei na frente daquela esquina e quase me emocionei. Foi lá que aprendi a misturar conhaque e limão, e tomar tudo num trago, só pra me sentir mais leve. Um showzinho no improviso, só pra tornar a noite um pouco mais alegre. O tempo todo os seus braços estavam ao redor dos meus ombros, como se me protegesse daquele monte de jaquetas de couro, coletes jeans e siglas de bandas de heavy metal. Eu nem tinha mais medo, porque afinal, eu provavelmente era mais macho que todos vocês juntos. Mesmo sendo uma garota. Só que ainda me lembro do cheiro de cigarro e dos escorregões naquele chão liso. As madrugadas atravessadas, rápidas como flechas. E um gosto de eternidade que ficava na boca.

III

Já são três meses, quase quatro. Eu ainda estou sentindo um aperto nos meus lábios; como se o último beijo jamais tivesse terminado. Nunca mais foi a mesma coisa. Um abraço no escuro, um adeus murmurado. Engraçado como, mesmo depois de tudo, eu, que sou eu, com esse jeito de sem-coração e essa frieza, essa mania de amiga-de-todo-mundo, essa falta de ligar pras coisas, ainda ficava sem jeito quando via o reflexo dos seus dentes brancos sob uma luz fraca qualquer. Será que eu consegui superar? Abstinência tem efeitos colaterais. Eu tive que descobrir sozinha. Não havia remédio que curasse o tédio e o vazio.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Sobre o nada simples

Se no lugar do meu coração houvesse agora uma pedra de gelo, honestamente eu não sentiria a diferença.

Esperei por tempo demais para que viesse alguém como ele e finalmente me dissesse tudo o que foi dito; quando aconteceu, eu já estava preparada para ouvir uma brincadeira, uma frase carregada de ironia líquida, tão quente que me queimaria até os neurônios. Mas ele foi doce. Tão doce, que me sufoquei.

Não gosto de ser bem-tratada. Isso é um fato sobre a minha personalidade e os meus sentimentos em relação às pessoas e à tudo. Se você for legal comigo, eu vou te ignorar. Ao contrário do que é descrito em tantas cartas desilusórias ("Nós, mulheres, não queremos ser tratadas como lixo. Trate-nos como as rainhas que somos."), um monte de blá blá blá... Bom, é assim comigo. Eu não gosto de ser bem-tratada.

Isso não significa que você precise cuspir na minha cara e me tratar como lixo. Não, pelo amor de Deus, NÃO. Só não seja doce. Nem amoroso. Nem carinhoso. Nem sorridente, nem apaixonado, nem me diga coisas bonitas. É legal, é delicioso, e é enjoativo. Eu prefiro que você me faça querer que você diga, e não dizer. Entende o que quero dizer? (?)

Me force a desejar. Não seja óbvio, por favor. Faça a gentileza de ser exatamente o que eu não espero que você seja. Vamos, surpreenda.
Acho que tem à ver com o modo como eu sempre tive o costume de ver o mundo. Nada previsível jamais me atraiu. Eu tenho uma mania chata de esperar as coisas e imaginar como elas são. Tenho uma brincadeira com a minha mãe: quando estamos assistindo filmes, divagamos sobre as possíveis próximas cenas, e geralmente acertamos. Quando erramos, é porque o filme é bom; foge do roteiro óbvio. Comecei a aplicar isso à minha vida: quando era óbvio, não me agradava, nem me atraía, e eu já não queria mais saber. Mas quando me surpreendia, eu simplesmente me encantava e corria atrás. Mas só enquanto me surpreendesse.
É difícil.

Porque eu quero que esteja em constante mudança. Em constante mudança. Em constante mudança.
Não pode ser o mesmo, nunca.

(Sem fim, porque isso não tem fim.)

domingo, 27 de maio de 2012

XVI

É falta de tempo, de coragem,
de vontade, de motivo.
É olhar para dentro
e não ver nem sombra de luz,
daquela luz que possuía
as minhas entranhas tão escuras.

E enquanto observo
o mundo com essa cara de paisagem,
olho para o centro
e toco meu córtex com uma
delicadeza sensível.
Um papel cheio de rasuras.

Mais uma vez, eu procuro
nas minhas memórias por uma passagem
que justifique com decência
o por quê de o tempo passar
com uma pressa incompreensível,
uma vontade de chegar ao fim.

Afundo, e devagar, sem pressa
vou chegando ao fundo do que me parece
um cálice de gosto amargo,
prendendo meu corpo àquilo de que
estou tentando fugir há tanto tempo.
Fugindo de tudo, fugindo de mim.


sexta-feira, 11 de maio de 2012

Sorry for the weakness

I miss you.

So, I watched you go. You have never told me that some day, I'd be alone. Why? Why you didn't warned me? I'd... I would... I would try to get prepared; for the loneliness. For the fear. For the dark side of a broken heart. You left me with a kiss and the last try. Away. You are away from me. So far away.
I never thought you would still remembering me after all this time. I had time to think about it, and do you know what I realized? You have never lied. Not even once.
You've never said you love me. You've never said you wanted me to be yours. You've never hugged me truly. You've never...
I mean, the only thing you've done to me was give me scars and pain. You've hurted me deep, but whatever, now you're away, it doesn't really matter a thing.

(Unfinished.)

terça-feira, 1 de maio de 2012

220

E lá vem elas.
Malditas borboletas.

Nem as vejo chegando. Parece que quando tenho certeza de que a janela está fechada e a porta totalmente chaveada, com direito a correntinha e olho-mágico, elas já passaram pela minha segurança mal-armada e pousaram direto no meu estômago. Um looping pra cada toque do celular, um piscar rápido de olhos à cada buzina. É a tensão e a emoção de uma nova chance... jogada no lixo. Por que as coisas sempre começam tão mal?

Num dia é um sorriso, e é um som tão bom de se ouvir, nada mais além de um "filho-da-puta" amigável atirado através do ar. No outro dia, posso cortar a tensão sexual com uma faca de cozinha ou até uma tesoura cega. É palpável e assustadora. Fico diminuta perto do tamanho da minha inexperiência; sou assim tão infantil?!

Então, preocupações tão maiores tomam minha atenção, e sequer desvio o olhar do meu caminho por demais estreito e por demais curto. O objetivo está ali, mas não quero alcançá-lo. No entanto, ele vem. Eu o encaro com a força que tirei de dentro do meu pobre coraçãozinho recém-degelado. Não dói. Não me machuca. Não me custa. Só me gusta. Estou pronta, e então passou, como um tiro. Estou à salvo.

Mas o caminho para casa me deixa com muito mais medo do que eu poderia imaginar. Enquanto eu pensava estar salva, aquelas borboletas, malditas borboletas, acordaram do sono leve demais e começaram a voar. Alçaram um voo raso e ameaçador ao meu redor. (Estou em perigo estou em perigo estou em perigo). (Outra vez).

Um jogo de cor sobre cor.
Estou perdida outra vez.


Não consigo descrever como quero vomitar ao pensar na minha falta de tato. Sou uma verdadeira criança. É muito pior do que eu podia ter imaginado.

sábado, 21 de abril de 2012

Qualquer coisa velha na gaveta


Existe um outro sorriso
que me ajuda a não definhar,
a te esquecer um pouco,
a não enlouquecer.

Não é nada perto do teu,
que também me faz sorrir,
que me faz sonhar
e que eu não consigo esquecer.

Mas é muito, uma vez
que de você, não posso
ter nada
graças à distância.

É bom pra mim.
É suave, é bonito,
me deixa vidrada,
como o seu fazia.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Um dia esses dias virão

Feche a porta e apague a luz, que minhas memórias querem dormir em paz. Estão cansadas de serem frequentemente lembradas, usadas como ponto de encontro entre uma festa e outra. "E aquela noite em que estávamos na sua casa, se lembra?". E lá vai a minha cabeça, procurar nos confins dos dias de glória já esquecidos um momento específico, uma lembrança boa, um sorriso, um beijo já esquecido, amassos numa cadeira ou num sofá qualquer. Um dia ou uma noite em que estávamos por demais bêbado ou cansados para nos lembrarmos de um ou outro sinal, notado talvez por um ou dois de nós. Bons tempos aqueles em que eu tinha tudo guardado comigo; mas hoje são tantas noites e tantos momentos, tantas risadas e piadas, que desculpe, não vou me lembrar daquela sobre a galinha que pulou uma cerca.
Posso, daqui uns vinte anos, enviar-lhe uma carta dizendo "Querida amiga, achei justo lhe dizer que numa noite dessas, sonhei com aquela festa na minha casa - e se você não se lembra, posso ajudar dizendo que foi aquela em que estávamos rindo da menina que bebeu muito conhaque", e assim por diante. Posso, talvez em uma década ou duas, telefonar no meio da noite, numa terça-feira, lá pelas três e pouco da manhã, apenas para dizer que, finalmente, me lembrei de como era a voz daquele personagem dos vídeos que nos faziam rir tanto... Eu espero que esses dias cheguem de fato, e que, então, eu me lembre de ter previsto tudo isso. Essas recordações, esses momentos em que percebemos que a vida já passou, e que nos orgulhamos da nossa juventude.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Veio

Veio para acordar o que estava calmo.
Para me ver debater
entre dois travesseiros,
mexer com o que estava quieto
há algum tempo.
Veio para ser outra vez o meu tormento.
Tornar-se outra vez necessário;
tornar-me outra vez dependente.
Despertou a saudade.
Do teu corpo quente,
do teu sorriso branco,
do teu hálito morno.
Dos beijos com que você
pagava o meu suborno.
Veio para reavivar
um sentimento que já estava morto.

domingo, 25 de março de 2012

Ela não queria batatas no forno

Está com 27 anos.
Ela sempre se imaginou morando em um apartamento pequeno, talvez uma cobertura barata, de paredes velhas, tijolinho à vista, com janelas imensas de vidro; um espaço de uns 200 metros quadrados sem divisórias. Uma banheira antiga, uma cama de mola, umas cadeiras e vários quadros grandes nas paredes. De preferência fora do Brasil. Não precisava ser New York nem Paris; ela aceitava uma cidade pequena, com poucos prédios, um jornaleco onde trabalhar e ruas tranquilas por onde pudesse passar de madrugada, sozinha, sem temer a próxima esquina. Imaginava-se solteira, com talvez um amante de quintas-feiras. Seria amiga do dono do café, que saberia de cor o seu pedido, um cappuccino açucarado e talvez até um biscoito de baunilha para acompanhar.

Mas ela se encontrava no segundo andar de sua semi-mansão, luxuosa, vista para o mar. O filho mais velho batia em qualquer coisa de metal no quarto ao lado, enquanto o mais novo gritava por comida, lá na cozinha. Ela estava cansada, mas ninguém entendia, afinal, o que uma dona-de-casa faz que a deixa tão cansada? Olhou para o relógio: 18h02. Ele ia chegar à qualquer momento, e não havia terminado de assar as batatas. Se as malditas batatas não estivessem prontas, sabe-se lá Deus o que ele ia quebrar dessa vez; ela torcia para que não fosse outro osso. Aumentou a temperatura do forno no mesmo instante em que ouviu o porteiro eletrônico sussurrar em sua voz metálica que o portão havia sido aberto. Tarde demais. 18h04. Não havia mais tempo. Colocou as panelas na mesa, espalhou os talheres e gritou para os meninos descerem. 18h06. Devia ter ido direto para o quarto, tirar os sapatos de $2.000 que tanto gostava. 18h07. As batatas continuam no forno. "Mulher!", ele grita, e o coraçãozinho frágil dela pula para a garganta. "Mulher", não, por favor. Mal sinal. "Está surda? Suba!". Ela esconde o desespero entre os cabelos curtos cacheados, arranca o avental de linho numa puxada e sobe as escadas. Não sabe o que é pior: demorar para chegar, ou chegar. Ele está com o blazer na mão, um sorriso irônico no rosto. "Feche a porta". Ela nem se vira: estica a mão e fecha a porta de madeira maciça, pronta para mais uma sessão rápida de sofrimento.
As batatas ainda estão no forno, e ela só queria estar num apartamento de 200m², com janelas grandes de vidro e uns quadros pelas paredes.