domingo, 13 de agosto de 2017

Manual do relaxamento para momentos de crise existencial ou de ansiedade e talvez até de pânico

Primeiro, vá tomar um banho quente. Aqueça todos os seus membros pesados com a água corrente e se permita relaxar. Nem me diga, é quase impossível entrar num estado que não seja o de alerta total, mas você consegue. Respire fundo. Fundo mesmo. Sinta seu estômago inflar de ar, seus pulmões expandirem, sinta seu corpo recebendo oxigênio, sinta seu diafragma crescendo e diminuindo devagar. Sinta seu corpo... e não o odeie.
O segundo passo é lembrar que você é quem você é e não há nada nem ninguém que possa mudar isso. Você é a sua própria consciência, habitando esse corpo, pelo resto da sua vida. Respire fundo, sinta-se de novo. Mexa os dedos dos pés um por um, se puder.
Feche os olhos. Mergulhe nessa escuridão confortável, ouça apenas o som repetitivo da água batendo no azulejo. Abra a boca e puxe o ar. Sinta a umidade do chuveiro invadindo sua garganta e aquecendo você por dentro. Sinta seus ouvidos zumbindo e seu cabelo coçando. Sinta as juntas dos dedos das mãos comprimindo e tracionando quando você os mexe debaixo d´água. Passe as pontas dos dedos pelas suas unhas, depois passe as unhas pelos braços. Sinta suas mãos, molhadas e quentes, com calma. Isso tudo é você. Cada detalhe é você.
Depois, abra os olhos. Olhe para a sua barriga protuberante que te incomoda há anos, mas que você prefere manter, como uma velha amiga inconveniente, mas ainda sim, uma velha amiga (porque botá-la para fora e mantê-la lá daria muito trabalho). Olha para os pelos que você já não tira há algum tempo, e que cresceram bastante, e tudo bem. Olhe para as suas unhas dos pés, que estão precisando de um corte, e lembre-se de fazer isso mais tarde. Olhe para cada pedacinho de pele da sua cintura pra baixo, a vermelhidão que a água quente pode causar, as dobras dos seus joelhos. Concentre-se em você por um instante, e respire bem fundo outra vez.
Pegue seu sabonete e use-o para sentir seu corpo mais do que limpá-lo. Comece pelos seus pés, seus dedos, os vãos deles. Seus tornozelos, sua canela, sua panturrilha. Faça círculos nos seus joelhos com os dedos. Ensaboe suas coxas, uma de cada vez, na frente e depois atrás, com muita atenção. Passe a espuma pelas suas partes mais íntimas, e também nessa bela bunda que você tem. Antes de ensaboar sua amiga barriga, passe o sabonete pela sua lombar e perceba como massageá-la levemente te ajuda a relaxar. Sinta seus músculos.
Mova suas costas sob a água quente. Sinta suas omoplatas e movimente-as como puder, talvez fazendo movimentos circulares com os ombros. Faça uma boa quantidade de espuma e massageie esses ombros cansados, que carregam toneladas invisíveis. Desça até suas costas, o quanto alcançar. Passe as mãos pela nuca, massageie sua coluna. Tudo devagar. E lembre-se de respirar.
Esfregue seus braços, os cotovelos, todo seu antebraço, seus pulsos, seus dedos das mãos, um por um. Abra e feche as mãos algumas vezes, sinta todas as suas juntas. E não esqueça dos sovacos. 
A essa altura, você já deve estar se sentindo um pouco melhor. 
Lave seu peito, com carinho. Se forem seios, mais carinho ainda. Com quaisquer defeitos que você possa atribuir à eles - pequenos demais, grandes demais, com estrias demais, sensíveis demais -, são seus. Cuide deles. E depois, esfregue seu pescoço. É ele quem sustenta essa cabeça cheia de problemas e pensamentos, imagina só o trabalho que isso dá. Esfregue com delicadeza suas orelhas, sejam elas grandes, pequenas, de abano, com muitos piercings ou sem furo algum. 
Agora, ensaboe seu rosto. Seja gentil. É você, sempre será você, então é melhor cuidar do cartão de visita. Massageie as bolsas que você carrega debaixo desses olhos cansados. Sinta suas bochechas, sua testa, sinta suas têmporas. Massageie. Devagar e com muito cuidado. Esse é o seu rosto. Passe pelo queixo, pelo nariz, e por essa parte onde crescem os bigodes. Alise suas sobrancelhas, feche os olhos e deixe a água correr pela sua pele. Respire fundo.
Continue respirando fundo. 
O vapor está inflando seus pulmões.
Você está vivo.

As coisas não vão melhorar  magicamente depois desse banho. Seus problemas não vão desaparecer. As soluções não estarão esperando por você em cima da mesa, e não chegou nenhum cheque milionário no seu nome pelo correio. A única coisa que pode acontecer é você se permitir tomar uma distância para observar o que quer que esteja acontecendo. Respire. 
Oxigênio nos pulmões, espaço na cabeça. 
E segue o baile. 

quinta-feira, 20 de julho de 2017

game over

Te mandei mensagem na madrugada. Talvez já seja hora de eu entender que isso tem significados muito diferentes para você e para mim. Geralmente estou procurando uma foda de fim de noite; não quero bater papo, quero um sexo conhecido e carinhoso, que não me dê dor de cabeça no dia seguinte. Você... você quer tudo isso, mas também quer a mensagem de manhã, saber do meu dia, puxar assunto. Você quer me contar como estão as coisas, quer que eu veja o quanto você mudou, como está melhor; como está feliz, se dando bem no emprego novo, todo empolgado com mais um curso que começou nessas férias. E sinceramente, eu entendo. Às vezes (muitas vezes, admito) quero te ligar e te contar como estão as coisas, meus problemas, a forma como comecei a procurar saídas inexistentes em drogas e sexo, e como tudo que eu amava deixou de existir. Não tenho coisas boas pra te contar. Nenhuma. Talvez tenha um desenho novo que fiz e gostei e queria te mostrar.

Então, quando eu te mando aquela mensagem às três da manhã, já completamente bêbada e carente, você deveria me ignorar. Isso seria a coisa mais sensata a se fazer, te juro, porque não sou eu. A pessoa que você amava, não sou mais eu. A garota por quem você se apaixonou, de quem você cuidava, que te apoiava e te dava força, ela não existe mais. Eu a afoguei em conhaque e cerveja, a sufoquei com cigarros roubados, queimei seus restos numa fogueira alta junto com todas as nossas boas memórias. E se isso te deixa triste, há pouquíssimo para se fazer a respeito. Quando decidi acabar com ela, eu já sabia que nossas lembranças queimariam também. Nossos bons momentos, o carinho que supria por você. Tudo isso acabou.

É claro que ainda te quero bem. Quando você me conta da sua vida, eu só sei sorrir. Fico genuinamente feliz por tudo que você está conquistando, mas... já não sei mais o que dizer. É difícil ver meu mundo desabando enquanto você constrói castelos com seus entulhos. Tudo isso é difícil demais pra mim.

Quando eu te ligar às três da manhã de uma quinta-feira, não me atenda. Por favor, me ignore. Não me responda tão caloroso e rápido, tão disposto como você faz. Não me convide pro seu quarto, onde entramos na ponta dos pés para não acordar ninguém, e então fazemos um delicioso sexo silencioso, cheio de significados, cheio de palavras abafadas, sempre com aquele tom de amor que existe em nós desde a primeira vez. Por favor, não me cubra e me abrace forte do jeito que eu mais gosto, me aconchegando no conforto dos seus braços e me ninando. E quando meu despertador tocar, avisando que já está quase amanhecendo, não insista para que eu fique, porque está frio e você ama dormir sentindo meu cheiro. E depois, não me acorde com beijos quando o sol já raiou, só para me lembrar que embora você não queira, preciso ir embora. 

Sinceramente, já fui uma pessoa maravilhosa, por quem você poderia ter se apaixonado perdidamente - e de fato, se apaixonou. Mas hoje... hoje sou as cinzas dessa pessoa especial que fez tanto por você. Hoje só carrego marcas e mais marcas de dores que nunca prometi aguentar. Não tenho mais nada para oferecer à ninguém, especialmente à você. Tudo que eu fiz por você, você já fez por mim. Nesse jogo estamos quites. Talvez seja hora  de reiniciar.

sábado, 24 de junho de 2017

Inteira

Só me sinto metade.
E por isso essa busca incessante
por alguém que sem motivo
complete o que falta
e faça de mim o restante
de algo.

Não sou só metade.
Sou inteira, um completo,
ambas as partes de um inteiro.
É um crime se sentir incerto
num mundo de certezas
tão amplas.

Preciso me encontrar
como Cartola precisou,
como buscam todas as pessoas
embora nem todas admitam.
Encontrar em mim mesma
o pedaço que falta.

Chega dessa procura
que não é mais que uma mentira.
Chega de meias verdades,
meios amores cheios de maldade.
Se a alma se cansa
estou onde ela busca repouso.

[Tão jovens, tão lúcidos,
tão cientes de tudo que é pútrido
nesse mundo absurdo.
Precisamos fugir de nós
e talvez por isso
sejamos tão sós.]

Porque apesar de sermos inteiros
buscamos a fuga no outro,
a solução que está aqui dentro
a gente procura do lado errado,
a gente procura lá fora,
entre outras cascas mortas.

Que eu seja feliz,
que eu seja plena,
e que não demore a ver
que não preciso de ninguém
para me fazer sentir
inteira.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

um começo pra 2017

Olhando pro alto, eu mirava um céu tão estrelado quanto aqueles que se vê em fotografias, mas que não temos certeza se são reais. Você me fazia rir, falando sobre as luzes piscando no horizonte, as quais éramos criativos para explicar. Enquanto acariciava minhas pernas, sem me olhar nos olhos, contava sobre qualquer coisa que eu perguntasse. Me explicou suas gírias estranhas e seus trejeitos, foi sincero sobre suas ideias, me deixou entrar. Passava a mão na minha nuca e me beijava com uma suavidade curiosa. Ali, encostada no capô do carro, com toda sua altura e seu corpo quente encostado em mim, percebi que nada em você  me parecia novo. Curiosamente, me fez sentir em casa. Falar sobre como sinto saudade daquele horizonte montanhoso e ver você concordar que aquela é a melhor cidade do mundo me fez rir, como quase tudo que você dizia. Isso é tão bom. Senti muita falta de conversas sinceras e momentos plenos como aquele que você me proporcionou. 

Confesso, quando cheguei na frente da sua casa e te encontrei de camisa e short, todo calorento naquele frio noturno de uns quinze graus, me senti estranha. Estava ansiosa e meu estômago dava voltas e voltas porque, pra mim, aquilo era importante, e pra você... não parecia tanto. Sua companheira carinhosa pareceu feliz em me ver - aliás, bem mais que você. Claramente eu gosto mais dela, você já sabe disso. Fiquei concentrada em fazer carinho naquele pelo branco até que me sentisse segura pra te olhar nos olhos. Aliás, você provavelmente não faz de propósito, mas não me olha nos olhos. Talvez tenha medo, não sei dizer. Parece concentrado em se esconder. Tem seus motivos, tenho certeza. E quando te mandei vestir uma blusa e você, a contra gosto, foi, me senti a irmã mais velha que sou. E isso me lembrou dos poucos anos que separam nossas idades. Por que isso me parece tão relevante, quando na verdade não significa nada? Sei lá. Você pareceu não se importar com isso muito mais que eu. 

Não demorou um minuto pra começarmos a conversar porque, curiosamente, nós nos entendemos melhor pessoalmente. Me contou do outro dia em que nos vimos mas não nos encontramos, pois você estava em outro universo, e eu, não. Normal, é claro. Você costuma viajar muito nas noites dos finais de semana (e em outras também, suspeito). Te contei que te observei a noite toda, e você me surpreendeu ao dizer que também me viu. Curioso, porque me sinto invisível pra você, e não costumo me sentir assim com frequência. Tem algo em você que me subjuga, de alguma forma.

Depois, quando já não estávamos mais ali, mas sim no escuro, cercados apenas pelas árvores e a luz forte de um luar amarelado, também conversamos sobre encontros anteriores. E qual foi minha felicidade quando você elogiou meu vestido, justo naquela noite em que você era tudo que eu enxergava, mesmo entre tantas pessoas, mesmo entre tantas loucuras. 

Parece que eu tô apaixonada, né não? Mas não tô. É muito mais físico que isso.

Tem alguma coisa nesse teu rosto moreno que me deixa insana. Não adianta, eu não sei responder quando me pergunta o que foi que eu vi em você. Só sei que sinto como se fosse um imã gigante e delicioso, me puxando pro seu abraço macio e aquecido. Quando botei meus olhos em você, me senti uma predadora escolhendo o que abater pro café da manhã. Violento assim. Necessário assim. E foi por isso que insisti tanto pra esse encontro, que não me deixou decepcionada. Valeu cada segundo de áudio, cada momento em que tive certeza que você estava me dando os maiores bolos da vida. Seu beijo e suas mãos no meu corpo valeram cada segundo que esperei.

Tô escrevendo isso aqui pra te contar esses detalhes. Te contar que sua barba é macia e fez cócegas no meu rosto, e que suas unhas nas minhas costas me arrepiam até agora. Sua energia me tomou e me entreguei praquele seu jeito tão doce... que, devo dizer, me surpreendeu. Quem diria que alguém com um semblante tão arisco seria tão suave em todo seu toque, nos trejeitos, na voz. Que me beijaria com tanta vontade e que, mesmo a contra gosto, deixaria escapar que estava feliz por estar ali comigo - por aquele momento. Demorei pra acreditar que você também queria estar ali. Que aquele momento estava sendo tão delicioso pra você quanto pra mim. E qual a minha surpresa ao perceber que nossas conversas, intercaladas com nossos amassos, me faziam rir genuinamente. Você arrancou de mim um suspiro de alegria que há muito eu mesma não ouvia. Me fez esquecer meus problemas, minhas preocupações, esvaziou minha mente e a preencheu com carinho e riso. E tesão, acho bom dizer.

Agora já estou de volta à minha rotina. Dói voltar pra cá depois de passar uns dias em casa, é normal, mas dessa vez parece que eu tenho um motivo pra sobreviver e voltar. Tenho um riso pra encontrar, um amigo pra me receber, conversas bobas pra por em dia... e luzes no céu pra observar. 

Obrigada por esse sopro de vida, e venha logo. A gente tem uma cerveja pra dividir. 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

repeat

Para de ter esperança na gente. Para de sofrer. Eu te imploro. Por favor, faça isso por mim... eu preciso que você siga em frente. Faz parte do meu processo, entende? Eu preciso que você esteja bem pra eu poder ficar também. É difícil pra caralho, você acha que eu não sei? Você acha que eu também não estou, como você, em festas, tentando desesperadamente afogar esse último sopro dentro de mim, que se recusa a morrer?
Eu também tô passando por essa fase infernal, amor. 
Eu também choro quietinha quando não há bebida ou cigarro ou droga que me faça dormir, que me faça apagar.
Eu também sinto seu cheiro nos lugares e me pego te procurando.
Eu também tenho raiva e quero quebrar o celular na parede quando vejo você falando de outras pessoas.
Mas porra, a gente não existe mais! Por que está tão difícil seguir em frente?
Eu fico repetindo incessantemente pra mim mesma que estou bem, e quando me perguntam, eu digo que estou bem, e quando eu acordo e me olho derrotada no espelho, eu repito esse maldito mantra mentiroso de que eu tô bem quando a última coisa que eu tô é bem, e eu só quero gritar com a cara enfiada no travesseiro como eu fazia quando perdia a paciência com as suas piadas e

caralho

tô digitando freneticamente
como se isso consertasse alguma coisa.
Como se isso me trouxesse você de volta.
Ou o tempo.
Ou qualquer merda que me fizesse sentir melhor.


Não quero você de volta, cacete. Eu não quero ficar bêbada e brigar com você por motivos tão imbecis que no outro dia era até difícil pedir desculpas. Eu não quero mais ficar me culpando por qualquer coisa e tentar jogar a culpa em você pra não me sentir tão mal. Meu, isso é tudo tão insuportável. Completamente insuportável. Eu não aguento mais nada disso, sinceramente.
Mas as coisas das quais eu tenho saudade não tem nada a ver com isso. Elas são quase outra história. Quase outras pessoas num outro relacionamento. Inacreditável. 

Eu só queria ser abraçada por um amor tão verdadeiro quanto o seu.

De coração. Será que alguém no mundo vai me amar outra vez?
Eu tenho tanto, tanto medo, amor. Meu deus, eu tô aterrorizada por esse vislumbre catastrófico onde eu sou rejeitada por todas as almas ao meu alcance. Feia demais, burra demais, gorda demais? Feliz demais, confiante demais, profunda demais? Me envolvo demais? Eu não sei ser rasa, e você bem sabe disso. Eu só sei mergulhar de cabeça. E todo mundo tem medo disso, amor. Medo de mim. É isso, no fim das contas? 

Eu assusto as pessoas?

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

delete

Noite dessas eu tive saudade. É verdade sim, e queira ou não queira, eu sempre fui muito honesta com as minhas próprias verdades. Senti saudade, mas sabe, não foi de você. Eu tive saudade de quem nós éramos quando estávamos juntos. Nenhum de nós era real, sabemos disso. Aquele não era você, aquela não era eu. Eram nossas versões moldadas, construídas para atender nossas necessidades enquanto casal, e isso também nunca foi saudável. Éramos uma farsa, mesmo que para nós mesmos. No entanto, aquelas farsas formaram parte do que vivemos, e isso não pode ser simplesmente ignorado, não é mesmo? 

A saudade que senti foi das noites que passamos abraçados, sob vários cobertores, quentes e próximos, em silêncio, ou com murmúrios de conversas pouco produtivas. Isso não é uma crítica. Falar bobagem é muito saudável. Nós falávamos pouca coisa séria, e nosso relacionamento foi construído sob uma ótica pouco justa onde você era quase obrigado a me ouvir, sem ter nada a dizer sobre quase nenhum assunto que eu queria abordar, mas isso, nesse ponto da história, é irrelevante. Passamos várias noites resmungando bobagens divertidas, algumas pervertidas, trocando carícias e carinhos, sentindo o sabor um do outro, e isso formou as minhas melhores memórias.Você nunca foi bom em discutir política, mas seu abraço me encaixava com uma perfeição milimétrica. Nunca pude te dar suporte em exatas na escola, mas você adorava quando eu lavava e massageava seu cabelo no banho. Nunca conseguimos ir muito longe falando sobre feminismo e observando machismos diários, mas você me fazia massagens maravilhosas com óleos e cremes no corpo todo.  É claro que eu sempre me incomodei com a falta de argumentação lógica quando finalmente conversávamos sobre política, mas você me abraçando quando pedia pra dormir de conchinha me ajudava a deixar isso pra lá.

Quanta merda.

Eu ainda te odeio. Odeio tudo que você me fez, odeio como as coisas acabaram, odeio não poder recuar e odeio não querer, também. Odeio a forma como não nos desapegamos das pessoas com essa facilidade que demonstramos redes sociais afora. Eu odeio não conseguir simplesmente apagar você de perto de mim, odeio ter que te ver e sentir uma coisa queimando por dentro. 

Eu não amo mais você. É fato. Eu realmente não vou voltar atrás, nem poderia. Eu não desejo reviver nada disso que descrevi nessas palavras pobres, mas cheias de significado. Não tenho a menor intenção de te ligar de madrugada, ou te mandar mensagem; eu sequer espero mais aquele pedido de desculpa, mais uma das suas promessas não cumpridas. Mas eu também não desejo apagar as memórias. Nenhuma delas. Nem as noites desperdiçadas com brigas imbecis, nem as viagens, ou os finais de semana passados passeando pelo shopping, no cinema, dividindo pipoca (com manteiga); eu não desejo apagar aquela noite na praia, rolando na areia, nem a da hamburgueria, com aquelas caipirinhas coloridas, o camarão e o amor.

Talvez eu não queira mais apagar você do passado. Só do meu futuro.

domingo, 9 de outubro de 2016

quarto limpo

Curitiba, 29 de setembro de 2016.

Faz cinco dias que eu me arrependi de ter feito a escolha errada. E desde então, só penso em como o que aconteceu só aconteceu porque, na verdade, eu não pensei em mim. No desespero, no medo do abandono, corri para o primeiro que me sorriu de canto e abriu os braços. Apavorada pela ameaça da solidão, como um parafuso velho, espanei. Não aguentei a pressão de ser apenas eu. Sem mais. Sem soma. Eu, sozinha, não deveria ser pouco. Eu, sozinha, deveria ser suficiente para mim mesma. Eu, sozinha, deveria ocupar todo o espaço dentro de mim e transbordar. Mas quem é que tem tanta plenitude de si? Nunca tive.

Foi bom. Foi horrível, o arrependimento me surrou como um chicote e a humilhação veio a galope, mas de que serviriam as tristezas da vida, se não para nos ensinar? Delicioso clichê, discurso de mãe e pai, e por isso mesmo, verdade. Quando percebi, o desespero de entender o que havia acontecido me levou aos mais profundos silêncios. Sem resposta, sem porquês. O que aconteceu? Bárbara, o que aconteceu?! Como você pode? E a cobrança que vem de dentro pode ser dolorosa, mas ela faz jus. Não vai embora sem receber o que veio para buscar. 

Quatro dias depois, eu finalmente explodi. 
Sozinha. Em silêncio. Numa madrugada tão aleatória quanto minhas escolhas, eu explodi. E a explosão sujou tudo por dentro; espirrou dúvidas escarlate pelas paredes empoeiradas do meu quartinho de consciência. Mas, depois daquela bagunça toda, eu me levantei e comecei a recolher os móveis derrubados. Passei um bom pano pelas paredes manchadas, troquei os lençóis, tirei o lixo, desinfetei os cantos imundos e fiz as pazes com a proprietária.

Confesso, eu ainda tenho medo de cruzar comigo mesma pelos corredores, mas não fujo mais. Não foi a cura milagrosa de um problema que se arrasta ao meu lado já há alguns anos, infelizmente, mas talvez eu finalmente esteja começando a entender que as coisas que acontecem lá fora são reflexo de como estão aqui dentro.

Seguimos. Dessa vez, vou me esforçar pra manter o quarto limpo. Tirar o lixo de vez em quando vai me ajudar a não precisar quebrar os móveis outra vez. Aprender a não juntar entulho também. Tem tanta coisa que a gente tem que mandar embora, mas prefere jogar num canto e deixar por lá, até juntar tanto lodo e sujeira, até infectar todo o resto. Até tornar o ar insalubre. Agora, não mais. Chega de lixo, chega de culpa.

O quarto vai ficar limpo.

domingo, 25 de setembro de 2016

preciso falar sobre mim

não se trata de tristeza 
ou amor ou qualquer outra
forma bonita de dor.
não é sobre nós, ou sobre você 
como lhe faço parecer,
mas sobre mim,
esse poço sem fim,
sem fundo, no escuro,
esse caminho tenso e profuso
sem luz no fim do túnel.

sobre uma cabeça cheia demais,
sobre perturbações mentais,
sobre não ser capaz,
sobre querer perdoar os rivais,
pressionada pelos pais 
a buscar uma felicidade em, talvez,
alguém mais. um outro rapaz.

não é sobre os outros
mas sobre mim mesma, sozinha,
uma culpa exclusivamente minha
que eu não entendo, eu não controlo;
eu fujo de tudo e de todos,
eu quero colo,
carinho, socorro, quero alguém
que me salve do meu próprio poço.

hoje não vou beber nunca mais

Nunca mais eu vou beber.
Não é a primeira vez que digo isso. Dessa vez eu também não vou levar essa promessa tão à sério. Nenhum de nós vai. Nem eu, no auge dos meus vinte anos, nem o meu irmão de dezesseis, que sofre muito menos do que eu com a maldita ressaca, nem minha mãe, de quarenta e poucos, que já não aguenta mais as dores de cabeça e o cansaço que o álcool manda entregar no dia seguinte. Todos nós já fizemos essa promessa, e num primeiro instante, nós estávamos falando sério. Muito sério.
Eu acabei de receber esse pacote ressaca e estou usufruindo tudo que vem no kit. A dorzinha no fundo da cabeça, o estômago fragilizado, o corpo totalmente abalado depois de uma noite que, não me orgulho em dizer, foi parcialmente apagada da minha memória.

Beirut - Elephant Gun (5:45) 

Me lembro dos momentos mágicos que passei dentro do carro, gritando minhas músicas favoritas e bagunçando meu cabelo, aproveitando um momento realmente único com alguém inesperado. Quem é que ouve essa banda? Eu. E você. Você, que não usa cinto de segurança, e que me deu a valiosíssima liberdade de mexer no som e simplesmente não deixar as músicas chegarem até o final. Você, que pagou a conta e me fez lembrar como é maravilhoso não ter que se preocupar nem tomar nenhuma atitude por um tempo; como é bom simplesmente estar, e simplesmente receber. Talvez você nem imagine o que fez por mim nessa noite que terminou tão, tão confusa, mas que foi completamente inesquecível, e que me marcou de várias formas diferentes - e, ouso dizer, únicas.

Ozzy Osbourne - I Just Want You (4:56)

A cada parada no posto, uma esvaziada na bexiga (que já estava no nada confortável estado de torneira aberta), uma cerveja nova e mais uma volta. Não tínhamos porque parar. Eu tenho certeza que você estava tão confortável quanto eu, a vinte quilômetros por hora, rindo, rindo muito, porque como seria possível? Você também adora essa música? Põe de novo. Mas espera aí, o que mais você tem aqui? E quando eu percebi... eu estava apaixonada. Mas não por você. Eu me apaixonei de novo por mim. Pelo estado de liberdade em que eu me encontrei. E eu me amei ainda mais. Eu enxerguei que companhias maravilhosas eu poderia ter, e como eu mereço tudo isso. A boa música, a cerveja, a atenção, o cuidado, o passeio, a ansiedade do novo. E eu me quis. Me vi feliz, me vi nova. E foi bom.

Foo Fighters - Everlong (4:11)

Não vou dizer que me arrependo do que aconteceu depois de termos decidido pausar nossa música tão harmônica para ouvir outras vozes, mas talvez nós devêssemos ter prolongado aquilo tudo. Foi bom demais e não vai se repetir, porque eu conheço minha vida e não tenho a honra de viver um momento como aquele duas vezes. Além disso, o que vamos fazer, exatamente? Tivemos nosso maravilhoso primeiro contato, e ele foi tudo que me prometeram.

Como você bem sabe, eu tenho ansiedade. E ansiedade nos torna bombas-relógio. Ansiedade faz com que qualquer coisa seja imensa. Que desperdício de tempo precioso descrever ansiedade pra você! Por favor. Você sabe. Mas o que você talvez não saiba é como a insegurança e a ansiedade e o meu relacionamento (que nós discutimos) me fizeram uma pessoa completamente desequilibrada emocionalmente. Ainda estou esperando você responder o que quer que eu tenha escrito pra você. Na verdade, estou cogitando te mandar isso tudo, pra facilitar. Você vai ler coisas boas sobre si mesmo e eu vou aliviar essa minha vontade de te procurar pra pedir desculpas. Desculpas que, me disseram, eu não preciso pedir. Mas eu sinto que devo. O que quer que eu tenha feito (e não que eu precise me justificar) foi por pura infantilidade. E eu não sinto nenhum peso nisso. Não tenho tido a chance de ser infantil ou de fazer aquelas bobagens de adolescente sobre as quais nós conversamos. Aquelas que a gente riu e concluiu que não podemos mais fazer, porque depois de um tempo, somos condicionados ao comportamento social. 
[Você diz coisas assim e eu acho isso o máximo.]

The Killers - When You Were Young (3:40)

Estou me dando a oportunidade de ser infantil, e de ser meio boba, e de ter tesão e vontade e deixar pra lá. Tudo ao mesmo tempo agora. Um pouco disso, com certeza sobre você.

O que quer que tenha dentro de mim agora, foi você que acordou. 


sexta-feira, 10 de junho de 2016

Oi mãe,

como estão as coisas aí? Estou pensando em você.
São 10h18min de terça-feira, 07 de junho de 2016. Estou numa aula estranha, com um professor falando sobre custo de obra; não quero prestar atenção. Eu deveria, sei que você não ia gostar de saber que não estou ouvindo o que esse senhor está dizendo aqui na frente da sala... mas não consigo. Estou preocupada com coisas que tenho que fazer hoje. Tenho que tirar cópia de uns documentos e enviá-los para São Paulo, para poder ver você. Espero que tudo dê certo. Espero que tudo chegue no tempo certo, pra eu poder ver você. Porque eu só quero ver você. Muito.
Te fiz uma carta bonita e uns desenhos coloridos, quero entregá-los pra você em mãos. Não sei como vai ser na hora de dizer tchau, mas eu vou arriscar. É tão difícil...
Como eu te escrevi numa outra carta (eu te escrevo muitas cartas), estou tentando encontrar a minha lição. Todos nós temos uma lição pra tirar disso tudo, nós duas acreditamos nisso. Estou procurando a minha, para cumprir logo o meu propósito nessa situação doida. Pra você poder voltar.
Deus não quer ver a gente sofrendo, mãe. Eu tenho certeza que não. Mas Ele ensina a gente de maneiras estranhas... God acts in misterious ways...
Você me contou que leu minha música, que leu tudo que eu te escrevi. Quero poder cantá-la pra você. No fim, fiquei feliz porque você me contou, muito rapidamente (mais do que eu gostaria) que conheceu uma moça da South Africa, como você disse. Fiquei feliz, eu confesso. Sei que não é a situação ideal, sei que na verdade isso tudo é uma merda, mas eu posso ficar feliz com essas pequenas coisas? Ou devo me conter, não me sentir culpada? Só penso nisso, mãe. Se a maneira como eu sinto sobre as coisas está certa.
Eu estou infeliz porque você está aí. Mesmo. Eu não acho que você seja culpada, eu sei que você não é. Eu não quero você aí. Eu não quero. Eu quero você em casa, me esperando quando eu for pra lá, pra ficar deitada na sua cama com as crianças, pra gente passear de carro, tomar sorvete, assistir filme, fazer almoço; pra você me emprestar um carro e me ensinar a estacionar. Pra você estar lá. Comigo. Com as crianças.
Não foi você. Você não fez isso, não foi sua culpa. Talvez tenha sido sua culpa chegar onde chegou... talvez... mas você não queria nada disso. Ninguém queria.
Isso está sendo bom para limpar a nossa casa. A nossa família. Para separa o joio do trigo, com certeza, para mostrar as verdadeiras faces das pessoas que estão ao nosso redor. É foda, mãe, mas é assim que funciona. Nem sempre é fácil. Aliás, nunca é.
Eu estou indo te ver, mamãe. Fiz tudo que pude, consegui remarcar provas, pegar caronas, enviar documentos, fiz tudo rápido, fiz tudo certo pra poder te ver. Porque ficar sem te ver quando estou aqui é uma coisa, mas saber que não posso te ver em casa é outra...

Sexta-feira, 10/06/2016 - 20h44min

Oi mãe,

mudança de planos. Não vou te ver. O Augusto quebrou o pé, e eu não quero ir sem ele. Que merda. Mas eu enviei minhas cartas por uma carona e espero que você as receba logo. Enviei também dois desenhos, bem coloridos, pra te deixar feliz. Um deles somos nós, mãe. Juntas. Como eu gostaria de estar agora. [É agora que eu começo a chorar.] Estou toda maquiada, vou borrar meu rímel e o delineador que você me deu. Não ligo mais. Não ligo de ficar toda borrada, eu choro o tempo todo. Todas as vezes que eu penso em você e acabo pensando em algo legal que eu queria te dizer, eu choro. Eu choro compulsivamente, eu choro como o Pietro chora quando a Helena bate nele. Não é bom. Me mata um pouco por dentro.
Às vezes eu acho que isso nunca vai passar. Que as coisas só vão piorar. Desculpa, mãe. De verdade, me perdoa por pensar coisas tão horríveis, por não acreditar na justiça do homem nem na justiça de Deus, mas eu me pego pensando nisso, sim. Nessa situação toda durando muito tempo. Em não ter você por perto por muito tempo. 
Cinco anos. Em cinco anos, eu terei me formado na faculdade. O Pietro vai ser um mocinho, e a Helena vai finalmente ser grande. O Augusto vai ter 21 anos, e eu, 25. Você vai ter 47. Quarenta e sete anos.
Sabe por que isso não pode acontecer? Porque você tem que poder ir na minha formatura. E a gente vai ter que comemorar nossos aniversários juntas em 2018, porque teremos idades muito legais. Sabe mãe, daqui dois anos eu vou ter a idade que você tinha quando eu nasci. Então você vai ter exatamente o dobro da minha idade; não é legal? 22 e 44. Eu estou ansiosa pra isso acontecer. Mas você vai ter que estar aqui, pra gente viajar pra São Paulo. Ou quem sabe, pra finalmente irmos pra Paris, juntas, só você e eu.
Me dói pensar nessas coisas, mamãe. A dor é física, eu juro que é.
Eu te amo tanto que me machuca.

[respira, Bárbara. respira.]

Eu não sei mais qual seria a sua reação me vendo aqui. Se você ia me julgar ou se ia me ajudar. Porque sempre foi ótimo tomar umas broncas suas, mãe. As únicas broncas que eu ouço, as únicas que eu aceito. Cê tinha que me fazer tão parecida com você?

Às vezes eu abro seu Instagram e vejo suas fotos. E choro. Quietinha no meu canto, cheia de dor no coração, eu choro. Eu choro pela saudade, eu choro pelos momentos em que eu não consigo olhar além do horizonte. Eu choro por você, eu choro por não ter poder, eu choro por estar triste, eu choro por mim.

Eu vejo nossas fotos juntas e me pergunto por que não existe um jeito de mergulhar naquele momento de novo. E de novo. Eu me lembro de dias tão específicos... das festas. Me lembro perfeitamente de estar me arrumando na sua penteadeira e de não deixar você me maquiar. Não era por mal, mãe, nunca foi. Era só bobeira minha, medo de ficar muito emperequetada, medo de alguma coisa boba dentro de mim. Não era você. Você me deixava linda, você sempre me deixou linda. Quando arrumava meu cabelo ou quando escolhia minha roupa. Você me fez ser linda. Principalmente aqui dentro, mamãe. Se eu tô de pé hoje, é por sua causa.

Por ora é isso. Consegui parar de chorar. Lembrar de você é a dor mais maravilhosa do mundo. Mal posso esperar pra poder ter você em casa outra vez. Eu realmente mal posso esperar... estou cambaleando pra conseguir.

Eu te amo com todas as minhas forças; com a minha alma e o meu coração.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

a primeira morte de 2016

Lindo tudo isso que você me disse, no final. Lindas palavras de autores desconhecidos que você escolheu pra usar no seu Tumblr, me fazendo sentir quase culpada. Compartilhando aquelas fotos de casal que você nunca quis tirar comigo. Caso você já tenha se esquecido, de uns tempos pra cá, tirar foto comigo era sempre um incomodo, você se lembra? Fazia cara feia, se escondia e reclamava. Eu tinha que pedir antes, avisar no começo da noite que queria registrar o momento. Fui perdendo o tesão. De uns tempos pra cá, começou a beber mais e falar mais alto. Não só comigo, mas com todo mundo. De uns tempos pra cá, esqueceu que eu ainda não gostava do cigarro, e não ligava mais de fumar bastante perto de mim... e eu nem vou falar da maconha. Você me disse que agora largou de verdade; espero que sim, e que não tivesse sido só pra me deixar "mais calma". Você começou a se incomodar por eu não querer que você bebesse tanto, e quando me dizia que não ia abusar, abusava. E eu ficava lá, tentando lembrar do por quê de ainda me submeter a um estresse tão grande.
As coisas foram ficando difíceis. Você não passou na faculdade, como me prometeu que ia. Você me disse que estava se esforçando. Não culpe a escola, eu avisei você sobre tudo aquilo. Eu estava lá, eu me dispus a te ajudar se quisesse, eu queria te ajudar. Eu queria. Mas você achou que as coisas iam se resolver sozinhas, sei lá porquê. Tomara que essa próxima tentativa dê certo e você consiga.
Mas é óbvio que não foi só a faculdade. Imagina, isso foi o mínimo do mínimo, eu fiquei triste com você e já havia refeito meus planos pra poder me adaptar à nova vida que você ia ter. Eu fiz isso, eu te cobrei, eu me preocupei... até você cansar. Cansar porque eu fui chata mesmo, estando tão em cima de você sobre tudo isso. Desculpa se eu só queria que tudo desse certo e que você entendesse que a coisa é mais complicada do que parece. Mas só precisou pedir uma vez pra quebrar minhas pernas.
Como eu disse, não é só a faculdade. Era aquela sensação ruim que eu tinha de que você estava acomodado nessa vida quadrada que a gente leva nessa cidade. Ou pior, de que você estava acomodado na vida que eu fui te dando. E eu gostava de te dar os mimos que eu dava, fosse um presente ou fosse a entrada na balada, pagar a conta, a cerveja, o show, a viagem... e sabe, não é o dinheiro. Meu, realmente não é o dinheiro. É o "obrigado". Agradecer, de verdade, e saber o que aquilo significa.
Acho que no fim, era tudo sobre significados.
Você dizer "não" para uma cerveja significava muito pra mim.
Você dizer "não" para uma foto comigo significava muito pra mim.
Você ir quando eu dizia que você podia ir, sem saber o quanto eu queria que você dissesse "não" e ficasse... aquilo significava muito pra mim.
Eu ter que pedir pra você fumar menos, beber menos, falar mais baixo, tudo isso significava muito pra mim.
Isso tudo significou o fim, você entende? Você ir sem mim pra qualquer lugar quando eu não ia sem você pra lugar algum. Quando eu fazia tudo pra que você estivesse o tempo todo comigo. Quando eu te arranjava ingresso, te arranjava onde ficar, como ir e como vir, te arranjava o que estivesse ao meu alcance, e nunca te cobrei nada. Eu nunca te cobrei nada. Talvez eu devesse ter cobrado. Talvez eu devesse ter te dito que queria sim que você ficasse comigo, em casa, até a Helena dormir, ao invés de ir na casa do Rodrigo. Talvez eu devesse ter pedido pra você me pagar aquele jantar que prometeu na praia. Talvez eu devesse ter feito tanta coisa... talvez não adiantasse nada. Talvez eu só ficasse de chata, como você me chamava com muita frequência. E eu ali, dando o meu melhor, pra você me dizer que eu era implicante. Não sei não, pretinho... não foi o grand finale que me destruiu. Foram os detalhes.
Fui eu, tentando convencer todo mundo de que você era não só uma boa pessoa, mas uma boa pessoa pra mim. Que me tratava bem sim, que me respeitava sim, que estava ali comigo sim, que me amava sim, que mudou sim. Quantas vezes repetindo com orgulho que você fumava menos cigarro e menos maconha por mim, que me ouvia quando eu dizia pra maneirar na bebida. Quantas vezes prevendo ansiosa um futuro onde estudávamos na mesma faculdade, você trabalhava e tudo seguia em perfeita harmonia. Um futuro onde ninguém poderia fazer nada a não ser engolir cada palavra amarga dita sobre você, onde eu estaria firme do seu lado, comemorando a vida.
Uma pena esse dia ter demorado pra chegar.
Na verdade, ele vai chegar. Só não vai ter eu. Mas você vai alcançar a faculdade, o emprego e a vida bacana que você sempre quis ter lá. Vai se divertir muito, vai aproveitar, vai estudar, vai conhecer alguém e pronto, passou. Eu vou passar. Eu passei.

Eu começo reclamando de você e acabo te lambendo. Que diabo, não? É, eu ainda não aprendi com os erros, mas vou aprender na marra. Colocar em prática todos os meus discursos sobre não namorar alguém que não te faz bem, que não te dá valor, que não te ama e que não faria por você o que você faz por ele. Não que você me odeie e nunca tenha me amado, veja bem... a questão é mais sobre como eu me sentia sobre tudo isso. Você me amava, claro que sim. Mas faltou um pouquinho, falhou um pouco nos detalhes. Em coisas pequenas, tão pequenas, e que estavam ao seu alcance.

Quer mesmo saber o que houve? Nem eu sei. Não sei o que aconteceu nessa sexta-feira, quando tudo acabou de vez. Eu estava com você, e de repente eu queria que você estivesse longe, longe de mim, e que fosse embora. Me deixa passar mal sozinha, me deixa deitada aqui, me deixa. Só me deixa. E daí de repente eu estava lá dentro, nervosa, sem você, meus amigos bravos, meu irmão irado, e eu sem saber direito o que tinha acontecido. Não sei mesmo. Não sei de quem foi a culpa, porque eu te chamei de idiota também, mas você gritou comigo. Não me deixou em paz, como eu pedi. Era sério, e você devia ter acreditado e me deixado sozinha. Você não era meu namorado, de qualquer forma...

Eu choro lendo minhas próprias palavras. Você ainda está aí pra mim, e eu pra você, mas dessa vez, eu não vou me esquecer. Eu não vou deixar passar, eu não vou lembrar só dos bons momentos. Não. Eu vou deixar claro que foi tudo sua culpa. Foi sim!, foi sim, cacete. Eu te avisei, porra. Eu te avisei sobre tudo! Sobre mim, sobre você, sobre a cerveja, sobre a faculdade, sobre a mudança, sobre o combinado da viagem, sobre as brigas, sobre os problemas, sobre os limites, sobre as minhas vontades, sobre o que eu esperava. Eu te dei todos os avisos, faltava eu escrever na tua testa: "você está me perdendo". Talvez nem assim você percebesse. Eu passei dois anos me culpando pelas coisas ruins que aconteciam. Agora acabou. Agora eu não quero mais saber. A culpa foi sua. Se nós estamos separados hoje, a culpa é sua. Se eu não consegui aguentar a porra da pressão que eu recebia de todo mundo, a culpa é... minha? Seria tão mais fácil se eu não precisasse sofrer pressão nenhuma. Se você andasse na linha, sem tombar de vez em quando. Por quê? Você sabe me dizer? Você consegue entender? Você compreende o tamanho da merda que você fez no fim de tudo? Que ainda me ferve o sangue, me aperta o coração? Seu idiota. Meu idiota. Meu amor. Você nos separou.
Você jogou tudo no lixo quando pediu desculpas pra pessoa errada.
Quando não teve coragem de encarar a cagada que você já tinha feito.
Quando essa porra toda me atingiu, você tinha que ter consertado... e não consertou.
Você não se consertou. Você só tava remendado. Eu tava te remendando.
Acabou. Eu não vou viver com um trapo remendado. Eu quero você quando estiver consertado.
Se isso nunca acontecer, então eu não te quero nunca mais.


quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Acredite se quiser

Eu não deixei de te amar.
Não acordei uma bela manhã
curada de qualquer sintoma,
sem angústia, sem medo, sem dor
e muito menos
sem amor. 

Eu não acordei no dia seguinte
sem sentir saudade de você
ou do seu abraço. do seu cheiro
ou da pequena sobra de espaço
do outro lado da cama.
Não. Eu acordei exatamente 
como fui dormir:
inchada. Vermelha. Molhada.
E, claro, ranhenta. 

Passou um dia, dois, três,
passou uma semana, duas,
eu continuei calada, muda
porque gritar não resolveria.
O problema era briga antiga,
nada dessas bobagens novas
para as quais nós nem ligávamos mais.

Mas não é sobre isso 
este pequeno acerto de contas,
descrito tão sem controle 
numa urgência saudosa.
Não, não, eu só vim aqui pra você saber
que eu não me livrei de você.
E se você acredita nisso 
fácil assim, fico feliz. Vai ser melhor
pra você e pra mim. 

Só não apague meu número,
nem as lembranças, nem a saudade
porque eu ainda não tô pronta
pra ser esquecida de verdade. 

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

meu amor está escrito

Todo mundo sabe quem eu sou,
quem você é, quem nós somos.
Todo mundo vê nossos sorrisos,
nossas brigas, o meu choro.
Mas ninguém vê os arranhões,
as mordidas, os chupões,
(bem, estes últimos, talvez...).
Ninguém vê o seu olhar doce
quando me cobre à noite,
me beija, doce, e vem se acomodar
no meu pescoço.
Ninguém vê seu carinho no meu corpo,
sua barba no meu rosto,
seu riso quando sussurro
que te amo tanto, tanto...

Nem todo mundo sabe quem você é.
Eles não vêem seu sorriso como eu,
nem suas pernas de jogador,
seu corpo sedutor, nem sentem
o seu beijo, enlouquecedor...
Falar de você, amor, me dá
calafrios, vontades e arrepios.
Vontade de viajar todos esses quilômetros
pra pular no seu colo até você
dizer pra eu parar, mas então
não me deixar [sair].

Não tenho escrito tantas
cartas de amor, porque amor,
meu amor está escrito no céu.
No meu sorriso ao ver o seu,
no meu corpo encontrando o teu,
nas noites dormindo no aconchego
do teu peito.
No teu respeito.
No teu suspiro,
no meu desejo.
No gemido baixo, sufocado
em meu ouvido.
No alcance do prazer desinibido,
na libido,
na madrugada, me protegendo do frio.


Feliz aniversário de namoro,
ao meu anjo protetor,
cheio de erros, defeitos, eu
e você e nós, imperfeitos,
mas deus, como podemos ter
nos encontrado desse jeito?
Falar assim me dá vontade
do teu beijo...


terça-feira, 8 de setembro de 2015

online

Ligue qualquer tela hoje
e eu prometo que não vai dormir à noite.
Conecte-se ao mundo virtual,
online, ao países inexistentes
dentro dessas caixinhas abre-e-fecha
com teclados mudos
e eu prometo que não vai dormir nunca mais.

Ligue sua televisão,
sem emoção, buscando ilusão,
comoção, Iraque, explosão, decapitação,
Síria, Afeganistão, Oriente Médio,
tão distante quanto buracos negros
e eu prometo que você não vai compreender.

Olhe nos olhos inanimados de crianças,
órfãs, sozinhas, machucadas, dilaceradas,
estupradas, abandonadas, solitárias,
sendo encaminhadas como mercadorias
como restos sem valia, como pesos mortos
e eu prometo que não vai sentir dor.

Tão distantes esses humanos
que nem parecem ter a mesma carne,
o mesmo sangue, as mesmas vísceras,
dores, vontades, mágoas antigas,
crenças, saudades, fome, malícias
que você.

Olhe para esses rostos na sua tela de TV.

Nem eu, nem você, nem eles,
ninguém sabe o porquê. Ninguém consegue,
ninguém quer saber.
Mas busque a solução para essa dor
que mesmo distante, te alcança
e eu prometo que nunca mais
vai ter paz de espírito.

Porque a solução seria nada, nem alívio
nem fim; seria mais um, você,
caminhando com eles,
tentando se salvar sem saber
que não há salvação no fim do caminho.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

+18

Engraçado como a gente nunca está preparado para ter responsabilidades, mas parece que aos dezoito anos, saindo de casa, é pior. Ninguém nunca está pronto para preparar o próprio jantar, ou ser responsável pelas próprias roupas. Parece que não estamos psicologicamente preparados para nos preocuparmos com o dinheiro do aluguel no fim do mês, muito embora a gente saiba que a mamãe e o papai, que ainda nos bancam, depositarão o dito cujo. Estamos frágeis e até mesmo comprar pão, presunto e queijo no mercado que fica na esquina de casa parece exigir um certo nível de maturidade maior do que o nosso. Pegar o ônibus para faculdade, então, é uma tarefa para a qual precisamos de auxílio especializado.
Não que não sejamos capazes. Não, não. Mas tudo parece muito difícil.
No fim, nos vemos realizando "grandes" tarefas domésticas, como preparar um bom almoço no domingo, mesmo não tendo um forno na cozinha ridícula do apartamento de 10m². Uma faxina, manter o banheiro limpo, os lençóis trocados, tirar o lixo, fazer compras, pagar contas. Começamos a nos ver com um com pouco mais de respeito - respeito próprio. Talvez, afinal, sejamos capazes de cuidarmos dos nossos respectivos narizes.
E quando isso acontece, quando esse respeito cresce e as responsabilidades se tornam rotina, nós passamos a acreditar mais, a ter mais certeza de que o mundo é hostil sim, mas não vai nos engolir. Vai nos abraçar. 

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Outra noite para nós dois

          De repente, abri os olhos. Estava deitada de lado na minha cama, coberta até a cintura pelo meu edredom de sempre, um braço debaixo do travesseiro fofo, e o outro apoiado no meu próprio corpo. Há uma mão junto à minha, nossos dedos entrelaçados com força. Olho pela janela meio aberta, e reparo que as estrelas estão muito brilhantes. Isso me diz duas coisas: é madrugada, e eu dormi de lentes de contato. De novo.
          Respiro fundo, e o ar gélido que entra pela janela invade meus pulmões; me arrepio. É aí que você repara que estou desperta... e me puxa para mais perto. Minhas costas nuas encostam no seu peito, e reparo que você está quente. Como consegue? Sinto minha pele gelada contra a sua e rio baixo. "Que foi?", você sussurra, e eu me viro para você. Meu cabelo está em todo lugar, e você o afasta do meu rosto; em seguida, faz um carinho nas minhas bochechas rosadas de frio, e me beija. O gosto é de sono. Eu sorrio e você sorri de volta, sem muitas palavras, sem muito movimento. Sua mão escorrega para o meu pescoço e recebo mais alguns beijos. É um "bom-dia" com pelo menos quatro horas de antecedência. Você já deveria ter ido embora, mas não consegui deixar. Mais um deslize, e você me puxa pela cintura para mais perto. Mais perto. Mais perto ainda. Minhas pernas entrelaçadas com as suas, nossas mãos agarradas, meu corpo frio ("Parece uma vampira") tocando cada parte do seu corpo aquecido ("Você é quente [risadas]").
          Começa então aquela implicância que você tem com esse meu hábito de rir de tudo, e de coisa alguma, sem motivo aparente. Aquela velha pergunta, "Do que você tá rindo?", e eu sempre dizendo que não é nada, não, ou que não sei. E é verdade, eu nem sempre sei qual é o motivo do meu riso. Talvez seja só uma fresta que deixa escapar o quanto me sinto feliz. Um filete de alegria sem sentido, que abre a oportunidade para começarmos conversas sem fim. Te digo as minhas bobagens, mesmo morrendo de vergonha de todas elas. E você acha lindo quando eu venço essa minha timidez só para te dizer coisas que você já sabe.
          Visto meu roupão e me levanto, deixando você em alerta. No entanto, você relaxa quando eu sorrio e me dirijo ao banheiro, sem acender qualquer luz. Lá, apenas a lâmpada do espelho é acesa, e eu molho meu rosto; as marcas da maquiagem que não tirei, o restinho de um batom que você mesmo consumiu. Meu cabelo, bagunçado, é um furacão cor de fogo, e eu nem me atrevo a arrumá-lo - sei que você não liga, ouso até dizer que me prefere descabelada. Mordo os lábios, ajeito os cílios, sorrio para mim mesma (felicidade, estúpida felicidade...) e depois de balançar um pouco meu cabelo comprido, apago a luz. Volto para meu lugar na cama de casal que geralmente ocupo sozinha, com oceanos de espaço para todos os lados. No entanto, com você ali, deitado do meu lado, as mãos passeando pela minha barriga descoberta, sorrindo para mim no escuro, sinto como se tudo tivesse sido feito sob medida: os lençóis, o edredom, a cama, o tamanho dos nossos corpos, nossos beijos, os travesseiros, seus dedos, as cortinas e tudo mais.
          Seus dedos continuam passeando por mim, e eu rio, um pouco desesperada, quando você ameaça me fazer cócegas. Eu digo "Não" inúmeras vezes, mas você ignora meus pedidos e começa a beliscar minha pele branca demais; me remexo e de repente estamos travando uma pequena luta; eu tentando me defender de você e seus dedos maldosos, você tentando me fazer chorar. Não posso gritar, não podemos acordar o resto da casa silenciosa, e meu único golpe certeiro é aproveitar um milésimo de segundo em que você falha e não protege o rosto; me jogo sobre seu pescoço e calo seu riso com um beijo. No mesmo instante, o clima leve pesa, nos achatando na cama, os lábios inseparáveis, as respirações se acelerando depressa, mãos procurando não se sabe bem o quê. Me deito e te puxo para um abraço, nossos corpos colados, eu desesperada pelo seu beijo, as mãos dançando pelas suas costas. Você enrosca os dedos no meu cabelo enquanto a outra mão cava espaço no colchão para laçar minha cintura. Me puxa para mais perto. Mais perto. Mais. Mais. Desafiamos as leis da física, uma proximidade inimaginável, insuficiente. Ainda estou te beijando, e não vou parar. Os olhos fechados com força, gemidos entrecortados, risos quando minha pele gelada encontra a sua, tão quente, e um lugar novo. Como conseguimos rir tanto? Não sei, e não faço questão de entender. 
          Me vejo de olhos abertos, encarando seus olhos castanhos com uma intensidade que às vezes me assusta. Quero entrar em você, mergulhar em você. E sinto você fazendo o mesmo comigo. Não se explica esse tipo de coisa, não há palavras para descrever. É forte, e basta.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Descrição

Deitou-se no lado da cama
que tecnicamente era dele.
Mordeu os dedos, nervosa,
porque conhecia sua fama.

Aquietou-se e, manhosa,
chegou-se perto do rapaz.
Ele abriu os braços para ela
e a acolheu, medrosa.

Passou então os braços
ao redor do corpo dele.
Encarou-o sem desviar os olhos,
analisando todos os seus traços.

Ele, envergonhado, tímido,
viu-se perdido em seus cabelos.
Ela sorria sem parar, tão linda
e fazia aquecer sua libido.

Beijou-a então, docemente,
apenas lábios castos, devagar.
A fez gemer baixinho, contida,
e por fim a apertou, delicadamente.

Mãos perderam-se nos caminhos
que também chamamos de corpos.
Tudo leve, dedos deslizando,
entre toques, afagos e carinhos.

Pelo vidro muito embaçado
viram a noite tornar-se manhã.
Entre abraços, riam,
sem que nada fosse engraçado.

E mesmo quando foi dia
não puderam dizer adeus.
Ela não o deixava ir embora
pois de dentro para fora, a aquecia.

No pôr-do-sol, ainda deitados,
continuavam ali, inseparáveis.
Às vezes é o que se precisa:
uma tarde de amantes, namorados.

E se perguntarem se é "só" físico,
responderão que não.
Que sexo também é conversa,
que amor também é tesão.

sábado, 17 de maio de 2014

São certezas

Talvez tenha chegado a hora de eu admitir que existe uma porção de coisa boa entre nós dois. 
Que os nossos beijos talvez sejam a coisa mais linda que eu já encontrei em outro alguém, e que esse outro alguém divida tão bem comigo. Talvez, e só talvez, eu esteja chegando naquele ponto em que não te ver se torna um problema, e te ver nunca é demais. Talvez eu esteja deixando minhas paredes altas serem demolidas pouco a pouco, abrindo espaço para a construção das nossas cercas baixas, que servem agora não para proteger, mas para dizer onde acaba a importância dos outros e onde começa um lugar só nosso. Talvez, amor, eu esteja aprendendo o que você está tentando me ensinar há tanto tempo... sobre nós, sobre mim. Sobre amar e sobre permitir que você me ame. Talvez exista até um tantinho de "para sempre" nesse nosso comecinho. Talvez isso que liga a gente seja realmente algo vivo, algo pulsante, e talvez isso nunca saia de nós dois. Talvez eu esteja apaixonada como você diz que estou. Talvez até seja recíproco. Talvez eu tenha aprendido a ser sua, de uma vez por todas, sem olhar para os lados, sem piscar, sem desviar meus olhos verde-escuros dos seus olhos castanhos, que nunca me canso de observar. Talvez, depois de todos esses meses, eu finalmente tenha entendido que te amar é bem mais fácil que te odiar, e que brigar com você me machuca mais do que as dores que tenho no joelho. Talvez nós dois sejamos, no fim das contas, os opostos que se atraem. Talvez o fato de quase brigarmos assistindo futebol porque torcemos para times diferentes seja, sim, uma coisa boa. É quando percebemos que, ora, somos totalmente diferentes, e mesmo assim as coisas estão caminhando. Talvez eu seja realmente chata e complicada, te forçando a me entender de um jeito ou de outro, a aguentar minhas crises e minhas rabugices, meu espírito de velha e minhas reclamações da mesma forma que suporto seu mau humor e seu estresse. Talvez eu goste de quando você fica fazendo caretas pra mim, me fazendo rir, embora eu deteste quando me faz cócegas e eu imploro que pare, perdida nas minhas próprias gargalhadas. Talvez eu aprenda a perder de você no truco sem fechar a cara. Talvez eu compreenda, algum dia, porque você me serve menos vodca e mais energético, ou porque prefere passar frio a me ver tremer. Talvez um dia eu consiga entender porque você me ama.

Talvez, e aqui tenho muitas dúvidas, eu até seja capaz de deixar você pagar a conta.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Sobre todas as formas de violência

Se eu disser que sinto falta do tempo em que caminhava com segurança pelas ruas de qualquer cidade, é mentira. É mentira, porque nunca vivi tempos assim. Sempre vivi com medo. Moro numa cidade pequena, interiorana, onde vejo apenas pela televisão crimes que me tiram o sono à noite. Não moro em São Paulo nem no Rio de Janeiro, mas tenho medo das favelas. Por quê? Porque foi isso que me ensinaram. Também me ensinaram a temer quem caminha muito próximo a mim nas calçadas largas dos grandes centros, a desviar de um grupo de homens, a olhar torto para qualquer um que me encarar por algum tempo e nunca tirar o celular do bolso enquanto ando à noite. O quanto disso é certo ou errado é irrelevante. Note qual é a lição implícita nos comportamentos que me foram ensinados: tenha medo do próximo.

Segurança pública, no Brasil, é lenda. Não importa que te digam “Pode ir tranquilo”, você não vai. Ou não deveria. Ser assaltado, ter seu celular (que você parcelou em 12 vezes no cartão, porque é absurdamente caro) roubado, ou perder o troco do ônibus, essas coisas têm conserto.
Mas e se o cara que te parou para roubar seu celular resolver que não é só isso que ele vai levar de você?
Seja você um homem ou uma mulher, o medo existe. Você teme pela sua integridade física; você pode ser violentado, você pode ser violentada. Você pode ser espancado ou espancada. Você pode ser assaltado ou assaltada, roubado ou roubada, estuprado ou estuprada, assassinado ou assassinada. Estamos sujeitos a essas situações por que...? Não sei o porquê, não sei o motivo. Nem sei como foi que chegamos nesse estágio de insegurança. Não sei quando foi que se tornou mais comum se tornar um bandido que arranjar um emprego. Sempre foi assim? Também não sei. A única coisa que eu sei é que é difícil demais viver assim. Estamos chegando a um nível insuportável. E o que mais me assusta não é levarem o meu dinheiro... é levarem a minha integridade física. Não tenho medo de entregar meu celular, tenho medo de entregar a minha dignidade, a minha posição de cidadã. Tenho medo da agressão. De todas as agressões.

Nenhuma forma de violência é justificável.
Não bata com uma lâmpada num gay pela orientação sexual dele.
Não espanque um negro porque ele cometeu um crime.
Não estupre uma mulher porque ela está mostrando o corpo.

Não é concebível uma conversa em que alguém diga “Aquela mulher mereceu ser estuprada, você viu como ela se insinuou, com aquelas roupas?”, assim como não existe “Aquele menino mereceu ser preso ao poste e espancado, ele roubou!”, ou “Aquele gay mereceu ser surrado até morrer, ele namora outro homem!”.
Não cabe a você julgar o próximo, muito menos puni-lo. Não cabe a você decidir o que será feito com a vida de outra pessoa.

Sinto que estamos numa bomba-relógio, crescente e pulsante. Governantes relapsos, polícia submissa e impotente, um povo enfurecido... e os olhos do mundo virados para nós. Alguma coisa vai acontecer. Não se sabe ao certo o que, nem quando. Mas vai.


A hora de gritar é agora.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Um pedido de desculpas

Quem sou eu pra merecer o seu amor?
Um poço de defeitos, tanta coisa errada junta.
Quem sou eu pra você me amar assim?
Tão louca e inconstante que me assusta.

Sabe como é, eu desconfio de tudo.
Te entrego meu coração, meu eu completo,
mas não sei receber o que você quer me dar;
duvido mesmo daquilo que eu sei ser certo.

Juro que é uma luta eterna o que eu vivo,
tentando te salvar das complicações que sou.
Te poupar do que pode acontecer
enquanto me decido: pra que lado eu vou?

Mas mesmo louca, mesmo meio sem rumo,
no final de tudo, tenho só uma certeza:
eu só quero te levar comigo, te ter do meu lado,
não importa o que aconteça.