domingo, 17 de junho de 2012

Destino e um santo

De fato, era atordoante. A rapidez dos fatos,
uma sucessão rápida de fracassos.
No mesmo instante era sim e não e sim
outra vez; sem saber jamais que fim
haverá de ter.

Inegável, arrependimento supremo, e
embora o Destino me fosse afável
e tentasse se perder nos nós do meu cabelo
num carinho que eu nunca quis,
pedi mais uma vez à qualquer santo que
confiasse e me ajudasse e então jogasse
os dados por mim, fazendo com o que
o Destino nada pudesse fazer para
reverter o que já havia sido feito.

Não se mexe no passado; nem Destino
e nem santo, nem quem pode, nem quem deve.
Passado é passado porque já passou;
é redundante, mas não há definição melhor.
Quem hoje não está mal, ontem estava na pior
e amanhã, poderá governar mais que o
santo e mais que o Destino, supremo sobre
tudo que acontece agora e aqui e lá e depois.

[E se ecoa o meu nome dentre essas paredes
que não podem conter nem o seu grito,
quem poderia segurar a força de um ser
louco para ser?]

Espero eu que haja um rio frio esperando
por mim num futuro não muito distante.
Num verão tão quente quanto o inverno é frio
pra mim já é o suficiente, se é que alguém me
entende quando faço analogias às estações.
Que posso esperar? Agitação molecular à níveis
invisíveis e intocáveis, embora infinitos.

[Você ainda não consegue conter a minha voz
e a minha força e o meu sonho e a minha vontade.]

Basta aguardar no Destino, sem santo,
que haja o verão quente, que haja meu rio frio,
que haja contenção de palavras, mas não de
significado. Que haja quem me diga "não" e ria
e então me permita.
Aguardar no Destino um dia qualquer em que
o passado volte, e a redundância se aceite
[pelo simples fato de ser]
pelo simples fato de não ser assim tão impossível,
tão incerta e tão redundante, e tão boba, e tão
humanamente errônea.

Vem, Destino, e prega nessas paredes o que falta
para que a minha voz seja contida
e o vapor do suspiro seja contido
e as garras sejam imunes à dor
e já não se possa fazer mais nada.
Porque será passado.

sábado, 2 de junho de 2012

Prólogo

Eu caí no desespero.

Finalmente entendi a sensação de afundar no abismo da loucura; foi um segundo. Um segundo longo demais, admito, mas foi apenas um segundo. A morte me pareceu mais fácil que a vida, eu resolveria meu problema e daria cabo de tudo. Puf.

No segundo seguinte, me peguei no flagra. Minhas mãos trêmulas, a boca entreaberta e os olhos se fechando. Uma gota de sanidade sobrevivera à inundação da loucura, e eu estava de volta. Boom.



Nadei em direção à praia, respirando água; oxigênio e nitrogênio não me davam o que eu precisava, e eu procurei por mais. Mais. Mais. Quase lá, e meus pulmões pararam, mas eu não deixei que parassem de fato. Eu ainda tinha um caminho a percorrer. Mais rápido. Mais. Mais. Havia um longo caminho, e minha força se foi. Os braços pararam, o pulmão travou e os lábios se fecharam. Os olhos, estáticos, imóveis, miravam a praia como se fosse Deus estendendo a mão pra mim. Deus? Isso, continue. Confie naquela força cósmica celeste divina que sempre lhe foi boa, ou assim lhe disseram. Nade. Há uma mão guiando o seu caminho. Meus pulmões voltaram e, se eu não estivesse à ponto de me afogar no mar que eram as sensações naquele momento - agora -, eu teria sorrido. Mas não havia tempo nem energia para sorrir. Esticar os lábios sobre os dentes... que diferença faria? Se fizesse alguma, eu estaria de fato viva, e não meio-viva, lutando pelo resto de respeito e fé que me foi dado. Sorrir. Ha, ha, ha. Faz-me rir, vida. Você me ensinara há pouco que não demonstrar e demonstrar não possuíam qualquer diferença, na situação em que eu estava. Na realidade, quanto menos eu dissesse, sorrisse e chorasse, melhor.

Faz algum sentido? Morte e vida, numa relação tão descomplicada que me parece quase boba.
Algo do que eu disse... Nada, na verdade. Uma história sobre nadar até a praia e acreditar em algo para se salvar.

Não há fim para o primeiro ato, porque estou no prólogo.




terça-feira, 29 de maio de 2012

3

I

Bateu uma saudade. Foi forte, deu um tranco no meu ombro, me chacoalhou. Eu estava acomodada, mas agora não estou mais. Sinto falta de tardes passadas à beira-colina, sem dizer nada, só com seis cordas nos dedos. Uma risada e talvez um xingamento, dito baixo, sem ninguém se abalar. Já estávamos acostumados aos tratamentos rudes, porque quando há aquilo que havia, não há necessidade de nada mais.

II

Passei na frente daquela esquina e quase me emocionei. Foi lá que aprendi a misturar conhaque e limão, e tomar tudo num trago, só pra me sentir mais leve. Um showzinho no improviso, só pra tornar a noite um pouco mais alegre. O tempo todo os seus braços estavam ao redor dos meus ombros, como se me protegesse daquele monte de jaquetas de couro, coletes jeans e siglas de bandas de heavy metal. Eu nem tinha mais medo, porque afinal, eu provavelmente era mais macho que todos vocês juntos. Mesmo sendo uma garota. Só que ainda me lembro do cheiro de cigarro e dos escorregões naquele chão liso. As madrugadas atravessadas, rápidas como flechas. E um gosto de eternidade que ficava na boca.

III

Já são três meses, quase quatro. Eu ainda estou sentindo um aperto nos meus lábios; como se o último beijo jamais tivesse terminado. Nunca mais foi a mesma coisa. Um abraço no escuro, um adeus murmurado. Engraçado como, mesmo depois de tudo, eu, que sou eu, com esse jeito de sem-coração e essa frieza, essa mania de amiga-de-todo-mundo, essa falta de ligar pras coisas, ainda ficava sem jeito quando via o reflexo dos seus dentes brancos sob uma luz fraca qualquer. Será que eu consegui superar? Abstinência tem efeitos colaterais. Eu tive que descobrir sozinha. Não havia remédio que curasse o tédio e o vazio.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Sobre o nada simples

Se no lugar do meu coração houvesse agora uma pedra de gelo, honestamente eu não sentiria a diferença.

Esperei por tempo demais para que viesse alguém como ele e finalmente me dissesse tudo o que foi dito; quando aconteceu, eu já estava preparada para ouvir uma brincadeira, uma frase carregada de ironia líquida, tão quente que me queimaria até os neurônios. Mas ele foi doce. Tão doce, que me sufoquei.

Não gosto de ser bem-tratada. Isso é um fato sobre a minha personalidade e os meus sentimentos em relação às pessoas e à tudo. Se você for legal comigo, eu vou te ignorar. Ao contrário do que é descrito em tantas cartas desilusórias ("Nós, mulheres, não queremos ser tratadas como lixo. Trate-nos como as rainhas que somos."), um monte de blá blá blá... Bom, é assim comigo. Eu não gosto de ser bem-tratada.

Isso não significa que você precise cuspir na minha cara e me tratar como lixo. Não, pelo amor de Deus, NÃO. Só não seja doce. Nem amoroso. Nem carinhoso. Nem sorridente, nem apaixonado, nem me diga coisas bonitas. É legal, é delicioso, e é enjoativo. Eu prefiro que você me faça querer que você diga, e não dizer. Entende o que quero dizer? (?)

Me force a desejar. Não seja óbvio, por favor. Faça a gentileza de ser exatamente o que eu não espero que você seja. Vamos, surpreenda.
Acho que tem à ver com o modo como eu sempre tive o costume de ver o mundo. Nada previsível jamais me atraiu. Eu tenho uma mania chata de esperar as coisas e imaginar como elas são. Tenho uma brincadeira com a minha mãe: quando estamos assistindo filmes, divagamos sobre as possíveis próximas cenas, e geralmente acertamos. Quando erramos, é porque o filme é bom; foge do roteiro óbvio. Comecei a aplicar isso à minha vida: quando era óbvio, não me agradava, nem me atraía, e eu já não queria mais saber. Mas quando me surpreendia, eu simplesmente me encantava e corria atrás. Mas só enquanto me surpreendesse.
É difícil.

Porque eu quero que esteja em constante mudança. Em constante mudança. Em constante mudança.
Não pode ser o mesmo, nunca.

(Sem fim, porque isso não tem fim.)

domingo, 27 de maio de 2012

XVI

É falta de tempo, de coragem,
de vontade, de motivo.
É olhar para dentro
e não ver nem sombra de luz,
daquela luz que possuía
as minhas entranhas tão escuras.

E enquanto observo
o mundo com essa cara de paisagem,
olho para o centro
e toco meu córtex com uma
delicadeza sensível.
Um papel cheio de rasuras.

Mais uma vez, eu procuro
nas minhas memórias por uma passagem
que justifique com decência
o por quê de o tempo passar
com uma pressa incompreensível,
uma vontade de chegar ao fim.

Afundo, e devagar, sem pressa
vou chegando ao fundo do que me parece
um cálice de gosto amargo,
prendendo meu corpo àquilo de que
estou tentando fugir há tanto tempo.
Fugindo de tudo, fugindo de mim.


sexta-feira, 11 de maio de 2012

Sorry for the weakness

I miss you.

So, I watched you go. You have never told me that some day, I'd be alone. Why? Why you didn't warned me? I'd... I would... I would try to get prepared; for the loneliness. For the fear. For the dark side of a broken heart. You left me with a kiss and the last try. Away. You are away from me. So far away.
I never thought you would still remembering me after all this time. I had time to think about it, and do you know what I realized? You have never lied. Not even once.
You've never said you love me. You've never said you wanted me to be yours. You've never hugged me truly. You've never...
I mean, the only thing you've done to me was give me scars and pain. You've hurted me deep, but whatever, now you're away, it doesn't really matter a thing.

(Unfinished.)

terça-feira, 1 de maio de 2012

220

E lá vem elas.
Malditas borboletas.

Nem as vejo chegando. Parece que quando tenho certeza de que a janela está fechada e a porta totalmente chaveada, com direito a correntinha e olho-mágico, elas já passaram pela minha segurança mal-armada e pousaram direto no meu estômago. Um looping pra cada toque do celular, um piscar rápido de olhos à cada buzina. É a tensão e a emoção de uma nova chance... jogada no lixo. Por que as coisas sempre começam tão mal?

Num dia é um sorriso, e é um som tão bom de se ouvir, nada mais além de um "filho-da-puta" amigável atirado através do ar. No outro dia, posso cortar a tensão sexual com uma faca de cozinha ou até uma tesoura cega. É palpável e assustadora. Fico diminuta perto do tamanho da minha inexperiência; sou assim tão infantil?!

Então, preocupações tão maiores tomam minha atenção, e sequer desvio o olhar do meu caminho por demais estreito e por demais curto. O objetivo está ali, mas não quero alcançá-lo. No entanto, ele vem. Eu o encaro com a força que tirei de dentro do meu pobre coraçãozinho recém-degelado. Não dói. Não me machuca. Não me custa. Só me gusta. Estou pronta, e então passou, como um tiro. Estou à salvo.

Mas o caminho para casa me deixa com muito mais medo do que eu poderia imaginar. Enquanto eu pensava estar salva, aquelas borboletas, malditas borboletas, acordaram do sono leve demais e começaram a voar. Alçaram um voo raso e ameaçador ao meu redor. (Estou em perigo estou em perigo estou em perigo). (Outra vez).

Um jogo de cor sobre cor.
Estou perdida outra vez.


Não consigo descrever como quero vomitar ao pensar na minha falta de tato. Sou uma verdadeira criança. É muito pior do que eu podia ter imaginado.

sábado, 21 de abril de 2012

Qualquer coisa velha na gaveta


Existe um outro sorriso
que me ajuda a não definhar,
a te esquecer um pouco,
a não enlouquecer.

Não é nada perto do teu,
que também me faz sorrir,
que me faz sonhar
e que eu não consigo esquecer.

Mas é muito, uma vez
que de você, não posso
ter nada
graças à distância.

É bom pra mim.
É suave, é bonito,
me deixa vidrada,
como o seu fazia.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Um dia esses dias virão

Feche a porta e apague a luz, que minhas memórias querem dormir em paz. Estão cansadas de serem frequentemente lembradas, usadas como ponto de encontro entre uma festa e outra. "E aquela noite em que estávamos na sua casa, se lembra?". E lá vai a minha cabeça, procurar nos confins dos dias de glória já esquecidos um momento específico, uma lembrança boa, um sorriso, um beijo já esquecido, amassos numa cadeira ou num sofá qualquer. Um dia ou uma noite em que estávamos por demais bêbado ou cansados para nos lembrarmos de um ou outro sinal, notado talvez por um ou dois de nós. Bons tempos aqueles em que eu tinha tudo guardado comigo; mas hoje são tantas noites e tantos momentos, tantas risadas e piadas, que desculpe, não vou me lembrar daquela sobre a galinha que pulou uma cerca.
Posso, daqui uns vinte anos, enviar-lhe uma carta dizendo "Querida amiga, achei justo lhe dizer que numa noite dessas, sonhei com aquela festa na minha casa - e se você não se lembra, posso ajudar dizendo que foi aquela em que estávamos rindo da menina que bebeu muito conhaque", e assim por diante. Posso, talvez em uma década ou duas, telefonar no meio da noite, numa terça-feira, lá pelas três e pouco da manhã, apenas para dizer que, finalmente, me lembrei de como era a voz daquele personagem dos vídeos que nos faziam rir tanto... Eu espero que esses dias cheguem de fato, e que, então, eu me lembre de ter previsto tudo isso. Essas recordações, esses momentos em que percebemos que a vida já passou, e que nos orgulhamos da nossa juventude.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Veio

Veio para acordar o que estava calmo.
Para me ver debater
entre dois travesseiros,
mexer com o que estava quieto
há algum tempo.
Veio para ser outra vez o meu tormento.
Tornar-se outra vez necessário;
tornar-me outra vez dependente.
Despertou a saudade.
Do teu corpo quente,
do teu sorriso branco,
do teu hálito morno.
Dos beijos com que você
pagava o meu suborno.
Veio para reavivar
um sentimento que já estava morto.

domingo, 25 de março de 2012

Ela não queria batatas no forno

Está com 27 anos.
Ela sempre se imaginou morando em um apartamento pequeno, talvez uma cobertura barata, de paredes velhas, tijolinho à vista, com janelas imensas de vidro; um espaço de uns 200 metros quadrados sem divisórias. Uma banheira antiga, uma cama de mola, umas cadeiras e vários quadros grandes nas paredes. De preferência fora do Brasil. Não precisava ser New York nem Paris; ela aceitava uma cidade pequena, com poucos prédios, um jornaleco onde trabalhar e ruas tranquilas por onde pudesse passar de madrugada, sozinha, sem temer a próxima esquina. Imaginava-se solteira, com talvez um amante de quintas-feiras. Seria amiga do dono do café, que saberia de cor o seu pedido, um cappuccino açucarado e talvez até um biscoito de baunilha para acompanhar.

Mas ela se encontrava no segundo andar de sua semi-mansão, luxuosa, vista para o mar. O filho mais velho batia em qualquer coisa de metal no quarto ao lado, enquanto o mais novo gritava por comida, lá na cozinha. Ela estava cansada, mas ninguém entendia, afinal, o que uma dona-de-casa faz que a deixa tão cansada? Olhou para o relógio: 18h02. Ele ia chegar à qualquer momento, e não havia terminado de assar as batatas. Se as malditas batatas não estivessem prontas, sabe-se lá Deus o que ele ia quebrar dessa vez; ela torcia para que não fosse outro osso. Aumentou a temperatura do forno no mesmo instante em que ouviu o porteiro eletrônico sussurrar em sua voz metálica que o portão havia sido aberto. Tarde demais. 18h04. Não havia mais tempo. Colocou as panelas na mesa, espalhou os talheres e gritou para os meninos descerem. 18h06. Devia ter ido direto para o quarto, tirar os sapatos de $2.000 que tanto gostava. 18h07. As batatas continuam no forno. "Mulher!", ele grita, e o coraçãozinho frágil dela pula para a garganta. "Mulher", não, por favor. Mal sinal. "Está surda? Suba!". Ela esconde o desespero entre os cabelos curtos cacheados, arranca o avental de linho numa puxada e sobe as escadas. Não sabe o que é pior: demorar para chegar, ou chegar. Ele está com o blazer na mão, um sorriso irônico no rosto. "Feche a porta". Ela nem se vira: estica a mão e fecha a porta de madeira maciça, pronta para mais uma sessão rápida de sofrimento.
As batatas ainda estão no forno, e ela só queria estar num apartamento de 200m², com janelas grandes de vidro e uns quadros pelas paredes.

sábado, 24 de março de 2012

TAE

Sempre fugiu ao meu entendimento a incapacidade que certas pessoas (sem indiretas) têm de prolongar o próprio sofrimento. Elas mantêm seus pensamentos e sentimentos direcionados para aquilo que as machucou, independente de ter sido ontem ou há três anos atrás. Isso não fazia qualquer sentido pra mim. Quando algo nos machuca, nós fugimos disso, escondemos as cicatrizes sob mangas longas e procuramos novas quinas para batermos o cotovelo. Ou seria isso o correto, o natural. É o que o nosso corpo faz contra qualquer choque, seja mecânico ou psicológico.
Então, quando eu me vi na situação que eu sempre julguei inteiramente insana, tive três reações instantâneas: rir de mim mesma, chorar pela minha falta de senso comum e procurar uma saída. E foi procurando a saída que eu finalmente entendi que as pessoas não prolongam suas dores; elas simplesmente não sabem como deixá-las para trás. Sendo assim, criei o que eu mesma chamo de TAE - Tratamento Anti-Ele.
Você ignora. Você ignora. Você ignora. Mas não é só não responder as mensagens, não. Você não lê as atualizações do Facebook. Você não fala com ele por msn. Você não atende ligações. Você não conversa sobre ele, não desabafa sobre ele, não pensa nele. Você chora quietinha de saudade e não conta pra ninguém; e engole a humildade. Não engole o orgulho, não. Engole a humildade. Você pensa em si mesma como alguém que simplesmente não tem tempo nem paciência pra gastar com, pfff, ele.
Na verdade, é desgastante. Mentir primeiramente para si mesma, depois para quem está ao seu redor, e depois para ele. E não é tentar enganar, é mentir. Fingir. Com o tempo, a mentira vai virando a realidade, e o que antes você só queria que fosse verdade, se torna real. Com o tempo, as coisas mudam de figura, as cicatrizes finalmente secam e o seu coraçãozinho machucado volta a bater.

Você está pronta para um novo começo.





segunda-feira, 12 de março de 2012

Cheiro de chuva é coisa de interior

- Está sentindo esse cheiro?
- Que... que cheiro!?
- Esse cheiro de chuva. Você não tá sentindo?
- Cheiro de chuva? E desde quando chuva tem cheiro?
- Lá na minha cidade tem.
- Lá vem ela...
- E aqui também, mas aqui fica cheirando a asfalto. Lá cheira terra.
- Ah, menina, você é muito caipira.
- Pelo amor de Deus, use o seu olfato. Sente esse cheiro.
- Não tem cheiro nenhum.
- Você não sabe sentir cheiro, rapaz?
- Cheiro de terra? E eu lá vou querer sentir cheiro de mato?
- Quando você for comigo pra minha cidade, você vai entender.
- Nunca vou entender.
- É o melhor cheiro do mundo.
- E desde quando qualquer coisa relacionada a chuva é boa?
- Chuva é ótima.
- Nem sei como está chovendo, tava um sol horrível agora há pouco...
- Meu Deus, que cheiro bom.
- Para de falar desse cheiro de interior.
- O cheiro é de terra. De chuva, na verdade.
- Nem você sabe.
Olham através da janela da sala de aula. Estão no quarto andar. Ela sorri para as ruas asfaltadas e observam o cinza se tornar preto debaixo dos pneus dos carros.
- Sempre que chove, alaga algum lugar.
- Não é bem assim.
- É sim. Chuva só traz coisas ruins para as cidades.
- Ouve o que você tá falando, cara.
- É sim. Devia chover só no sítio.
- E como é que nós íamos nos refrescar? Olha esse calor infernal! Agradeço pela chuva, valeu São Pedro.
- Você é muito do sítio, mesmo.
- E você é muito urbano, não dá valor.
Um minuto de silêncio, enquanto ele via ela sorrir de novo, os olhos piscando pesado, a alegria guardadinha no coração cheio de saudade de casa.
- Lá... você saia na chuva?
- Sempre que podia.

Ainda está chovendo quando eles descem as escadas, e quando chegam no ponto. Ele entra no ônibus, mas ela continua a pé. Ele pensa em chamar, em dizer de novo que ela é louca, mas sabe o quando importa ter um pedacinho de casa por perto. O pedacinho dele acabava de dobrar a esquina.

sábado, 10 de março de 2012

Tão pouco europeu

Era tão francês; até o modo como mexia o seu café. Nos seus dentes francamente brancos, o reflexo de alguns dias ruins. Porque, sabe, as coisas ruins marcam a gente. O mais engraçado é que nem sempre fora tão francês, tão clichê, tão listado. Era bem americano, com seus McDonalds e sua mania de CDs e gordura saturada. Mas nem agora, francês, gostava de chuva; preferiria inteiramente um dia no shopping à um dia num café. Tão pouco europeu.

Só que nas marcas dos dedos, eu via que era mais másculo do que o francês permitia, mais delicado que o alemão aceitava, menos gordo do que o americano seria, tão bonito quanto qualquer grego nascia. Nos olhares escuros lançados, que não reluziam à luz forte do meio-dia, haviam sorriso tortos, de canto de boca, chorando. Mascava chiclete e carregava um livro. Conquistou.

Passava o dia à tinta e papel, porque era escritor por fora, e carregava sua Polaroid antiga, comprada à preço caro, porque era fotógrafo imediatista por dentro. Não queria para amanhã, queria para ontem, porque nem o hoje era rápido suficiente. Para um fotógrafo nato, aguentava pouco a tensão da darkroom. Imediatismo? Não era francês. (Tão pouco europeu.)

Só que conquistava mulherzinhas de pouca índole; aquelas que procuravam um romance nada original que seria contado em rodas de vinho barato, às nove da noite, em alguma reunião semanal de amigas antigas. Além de mainstream, pouco europeu. Mas ele?, ele não ligava, porque para cada romancezinho, criava uma personagenzinha, que conquistaria milhares de leitorezinhos e lhe traria um dinheiro nada 'zinho'.
Ligava demais para a casa em que vivia e a comida que comia.

Tão pouco europeu.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Previsão concretizada



Oi, gente!
Faz tempo que eu não faço um post, né? Só textos e textos e textos de amor, saudade, viadagem pura, etc.
Agora eu voltei um pouco pra contar uma coisa MUUUUITO legal que aconteceu, e que eu achei digno de compartilhar com vocês.

Eu estava em uma loja aqui em Apiaí, esperando na fila pra pagar (oh lord), quando encontrei uma revista e comecei a dar uma olhada. Era uma revista antiga do Inverno 2011, mas mesmo assim, achei interessante dar uma olhada. E qual não foi a minha surpresa quando, de repente, uma página sobre sapatos da moda 2011 mostrava um modelo que eu apostei como tendência aqui, no BdA! Nesse post aqui, que eu falei sobre as possíveis tendências de inverno (mas que foi bem pouco visto), eu disse que um oxford de salto, da marca Werner - marca nacional, lá do Rio Grande do Sul - seria uma mega tendência... e não era ele, justo ele, que estava na revista? A foto é a mesma!, e eu vou mostrá-la aqui pra vocês (a foto foi tirada com o celular, então não liguem):




Então é isso, eu só queria mostrar pra você porque fiquei muito feliz com essa coincidência incrível.
Logo menos eu faço mais posts, ou mais textos.
=)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Agora está apenas no passado

Há tempos que as coisas mudaram, mas quando você fecha os olhos para aquilo que não está como você quer, ninguém pode te fazer enxergar nada. Você tem que querer ver.
É, as coisas não estavam bem. Apenas um deles sofria, apenas um deles sentia, apenas um engolia o choro e sorria pra depois poder explodir. Não se tem certeza se era realmente apenas um, ou se ambos estavam sofrendo, e um fingia melhor que o outro. Só tenho certeza sobre uma coisa: havia mais dor que prazer; havia mais tensão que compreensão; havia mais raiva que amor.

Não é de hoje; é de dias atrás.
Como você não me ouve,
nem percebeu que o meus sorriso
ficou para trás.
Parece que não me enxerga,
nem à mim, e nem ao mal
que você me faz.

Assim como o tempo, que leva para longe o que já nos trouxe dor, a memória vai apagando aquilo que não nos agrada mais... E devagarzinho, como um sopro de vento no verão, rápido e curto, vamos demolindo a dor, vamos limpando a sujeira que o passado não conseguiu levar. E as coisas vão passando, e melhorando, e se apagando, e melhorando, e sumindo, e rezamos para que não voltem mais. E só podemos rezar para que não saiam do passado, e que lá permaneçam.

Só podemos desejar que a dor fique em seu devido lugar, e que não nos atormente mais.




quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

As coisas mudam para alguns

Eu estou deitada, agora. E como na maioria das noites, me lembro daquelas que passamos juntos. Você ainda se lembra? Dos sonhos que contávamos, dos beijos, dos abraços, dos momentos de ternura entre um fôlego e outro... Quando eu dizia que você era único, e você só duvidava. Era verdade, sabia? Você foi único. O único. Que me alcançou, que conseguiu tocar meu coração, minha alma, minha essência. Não vou me esquecer de você, mesmo sabendo que depois de muitos rostos, você se esquecerá do meu. Se esquecerá de mim. E na verdade, não é um problema; o primeiro, a primeira, é sempre importante... Mas eu fui só mais uma, que diferença fiz? Nenhuma. Não me importo, na verdade. Sei que entre tantas experiências, entre tantas garotas, entre tantos momentos, entre tantos amassos e tantas conversas, eu fui nada. Eu fui um pequeno espaço de tempo, uma pausa longa demais entre um sexo e outro. Porque eu me entreguei, mas nunca por completo. Eu sabia que você não se lembraria, ou que não seria para você nem um terço do que seria para mim. Afinal, quem faz 10 vezes faz 11, mas nem todos que fazem 1 fazem 2. O que quero dizer é que você foi muito especial pra mim. Muito mais do que eu fui pra você. E apesar de eu estar dizendo, de ser eu a única culpada, e de tudo isso ter acontecido e chegado onde chegou por atitude e passos e força minha, não me arrependo. Na verdade, penso que nem você. Ou talvez sim. Na verdade, talvez sim; só tempo desperdiçado, uma garota entre tantas. "Nem é mulher ainda" você vai pensar, ao olhar para mim e se lembrar de tudo o que aconteceu. E eu vou tentando esquecer. Tentando apagar. Tentando me acostumar com a ideia de você e sua nova namorada vindo pra cá, tentando imaginar a sua reação ao me ver de novo, tentando imaginar como as coisas vão ser daqui pra frente. Porque eu não faço ideia. Não tenho nem imaginação suficiente para isso. Você vai estar completamente diferente ou exatamente igual? Que medo. Medo de você não ver mais em mim o que viu naquela primeira noite. E então? Por isso eu quero apagá-lo já da minha cabeça; poupar a mim mesma da humilhação de tentar fazer você ver em mim o que quer que tenha visto naquela noite mais uma vez. Não quero me humilhar. Não quero esfregar meu rosto nos teus pés, implorando por atenção, carinho e amor. Não. Você vai estar com a vida pronta, andando, nova, com gente nova e caminhos novos. Eu vou tentar me manter fora do seu caminho, da sua vida. Quando você voltar, serei tão invisível que você sequer vai notar que não me viu; não que eu pense que você sentirá saudades. Isso é coisa minha, eu que sinto. Mulheres. Mulheres (ou garotinhas como eu) sentem saudades de paixonites duradouras de um verão ou dois. Nada sério. Vou esquecer, para que assim, quando você voltar, eu possa te dizer tudo isso rindo, como se fosse uma daquelas piadas compridas das quais gargalhamos ao ouvir o desfecho cômico e inesperado. "Ela acabou por superar o cara". É esse o desfecho cômico da minha piada longa.

(Não me lembrava de ter escrito isso.)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Querido amor não-correspondido,

tenho ótimas notícias. Para você, e mais ainda, para mim! Estou começando a tentar esquecê-lo, sabia? Encontrei por essas ruas mal iluminadas um sorriso que, embora nem de longe me ilumine, acenda, inflame ou encante tanto quanto o seu, me faz sorrir também. Estou mais feliz do que infeliz, agora, e isso é muito bom. Significa que o meu coração já está deixando o seu peso de lado... que estou começando a tentar. Tentar te esquecer, ou te superar. Tentar trocar o disco, virar a página, pular o capítulo. Não é uma ótima notícia? Se você ao menos fosse louco por mim como sou louca por você... Juro que nada disso aconteceria. Eu seria forte, como tenho sido. Você nem sabe, mas tenho lutado por nós, contra a distância e a falta que você me faz; uma luta árdua, mas que mostrou seus resultados; eu fiquei firme ao seu lado. Não beijei outros lábios desde que você se foi. Não quis ninguém, nem em sonho, nem em pensamento, nem por um instante. Só você.
Sabe, Amor Não-Correspondido, nós podíamos ter sido um casal e tanto. Mas existem tantas coisas difíceis, não é? Tantas pessoas e opiniões, e palpites e fofocas, e coisas fulas e tolas e inúteis que acabaram com qualquer possibilidade; ou talvez tenhamos sido apenas nós mesmos, presos à medos antigos e vergonhas imbecis, coisas que nos impediram de sermos felizes juntos. Pense nisso, por um momento, só um instante; olhe para aquela possibilidade intocada, os momentos que teríamos passado juntos. Imagine como as coisas teriam sido diferentes. Imagine como seriam diferentes agora.
Mas tudo bem, não é? Estamos bem, agora. Estou te esquecendo, ou começando, ou tentando começar. Um dia, você será apenas uma boa lembrança, uma lembrança marcante, uma cicatriz linda que ficou tatuada no meu passado. Um dia, me lembrarei de você com carinho e talvez alguma raiva, por não ter feito tudo dar certo.
Mas haverá carinho, acima do ódio.

Com amor,
seu nunca descoberto amor.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Existe uma história

Eu só sei contar a nossa história.

Conto a todo momento, para quem quiser ouvir. Sobre o quanto nos odiávamos, e o modo como você sempre me deixava sem saber o que fazer. Eu nunca sabia o seu humor, e você dizia que não sabia o meu. Eram duas tempestades indo ao encontro uma da outra... E como tempestades, ambos possuíam momento de calmaria. Uma calmaria extrema e delicada, doce como açúcar, leve como algodão; podia durar cinco minutos ou duas semanas. Não sabíamos lidar um com o outro. Eu era extremamente arrogante e prepotente; você era sedutor e mandão. Eram duas forças incompletas, falhas. Precisávamos um do outro, embora jamais fossemos admitir. E agora, agora que você está longe, agora que sou apenas uma tempestade solitária e caótica, percebo a falta que o seu desespero e a sua própria arrogância me fazem. Vejo que tudo me faz pensar em você, no que você me dizia, nas nossas brincadeiras, nas conversas sérias, nos conselhos, nas confissões. Fica difícil, cada dia mais difícil, conviver com a sua ausência...


E ver que o tempo todo, eu me lembro de você.

(Desabafo).