domingo, 25 de novembro de 2012

Perdido de mim?

Olho para o céu escuro
numa noite bastante nublada.
Minha vida está aqui, diante de mim,
sendo muito bem cantada
pela voz que, no momento,
está sendo dublada 
por mim.

Os fones de ouvido
gritam em minhas orelhas
palavras que zombam,
zunindo como abelhas
bem dentro do meu cérebro,
explodindo como fogos, em centelhas
de vida sem explicação.

Será que é assim tão tarde
pra eu te dizer que não dá?
Porque eu já nem tenho mais vontade
de te esperar. Sabe quem passou
por aqui hoje? A saudade.
E já se foi.

Já passou? É, passou.
O tempo passou assim.
Puf! Ainda estamos deitados 
olhando o céu sem fim,
enquanto seus dedos e os meus
trançam uma promessa pra mim.
Como passou?

Não sinto falta do que você dizia 
nem da voz que me acalmava.
É até engraçado, se eu parar pra pensar
em como eu deveria estar brava
por ter sido, assim, 
descaradamente trocada.
Mas não estou. Nem perto.

Talvez seja o momento.
Talvez daqui uns dias, daqui um tempo
eu perceba finalmente
quão grande foi o desalento.
Mas pra esconder essas coisas, o choro,
a fraqueza, bem, eu tenho talento.
Só não me faça cantar aquela música.


domingo, 4 de novembro de 2012

Ainda é cedo?

Quando penso que não tenho mais tempo, que talvez tenha perdido parte dele ou, quem sabe, desperdiçado muitas chances por motivos que não compreendo, me faço uma pergunta bastante simples: acabou?
À quantas chances tenho direito? Falhar uma vez me tira do jogo? E se eu quiser tentar outra vez? Por quanto tempo eu posso resistir e lutar antes de me render?
Quero outra chance, quero poder tentar outra vez. Mas não quero que dure para sempre. Essa história de ficar presa...
Estou me cansando de pedir desculpas e me cansando de sentir. Talvez eu seja obrigada a aceitar, de uma vez por todas, que realmente não fui feita para o romance. Digam o que quiserem - sobre amar, sobre amor, sobre ser amado. Talvez eu não queira nada disso. É doloroso, frustrante e tenso.  E essa sensação de responsabilidade me tira do sério. E aí, o que tá acontecendo aqui?, é o que tenho vontade de perguntar, mas não posso. Não devo, vai. Não tenho esse direito - não tenho direito nenhum. Não sobre ele. 
Sendo assim, é melhor desistir. Finalmente me render e parar de lutar. Quanto tempo? Nem me pergunte, porque só de pensar que realmente imaginei que dessa vez seria diferente, meu estômago me pune dando mil voltas. Eu sou tão estúpida quando quero.
Ainda é cedo para pedir desculpas e outra chance? Talvez eu lhe deva algumas desculpas, é verdade. Ou talvez você me deva um pedido desses. Sendo assim, é melhor ninguém dizer nada, e está tudo bem. Façamos esse acordo, o que você acha? 
Posso desistir dele e tentar outra vez com você. Posso me arrepender de fazer isso e voltar atrás com ele. Não posso?! 
Há duas semanas escrevi sobre querer amar. Agora não quero mais. Não quero mais me apaixonar, não quero mais você. Não assim, não distante, não sem saber de nada. Quero alguma outra coisa, algo que talvez você não esteja disposto a me ceder. Até imagino que seja a minha idade , sabia? O que ela sabe?, você se pergunta. Ela não sabe de nada, é a resposta que posso dar. Não sei de nada e nem quero saber. A vida sem saber é excelente, simples e descomplicada. 
A ignorância é uma benção. 
E eu a quero de volta.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Imagina que tempo feliz

Ah, bons tempos aqueles. Era agosto, comecinho de setembro. Eu dormia e acordava digitando incansavelmente no celular. Gostava de te dar bom-dia enquanto caminhava para a escola, às vezes com muito frio, às vezes assistindo o nascer do sol, mas nunca sozinha. Aliás, ainda não me sinto sozinha. Quero ligar pra você. Agora. Tem que ser hoje, melhor de madrugada. Quero saber como você está, mas não sei bem o que dizer. Talvez eu só fique em silêncio e te ouça falar, ou talvez fiquemos ambos em silêncio - mas até o seu silêncio pra mim já basta.


Está chovendo lá fora. 
Estou preocupada com você.
Será que eu penso que a gente namora?
A culpa é sua por me beijar.
Quanto tempo até eu te ver?
Por que você teve que ir embora?
Estou implorando pra você voltar.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Dois meses

14 de outubro, 00h04

E agora?
Não sei o que estou fazendo. Não entendo o que estou sentindo. Será que é isso o nada? Essa sensação de vazio, de não se importar? Essa sinceridade, esse não querer, esse poder de dizer "sim" ou de dizer "não"? Se isso for ser livre, talvez eu queira continuar presa. Ou não. É que eu nunca fiz isso, eu nunca saí de dentro da minha gaiola. E eu repito como um papagaio velho, "nunca fiz isso", "não sei o que fazer" e "não sei o que dizer". Repito quantas vezes puder, pra ver se alguém me ouve, pra ver se alguém me entende. Pra ver se alguém me ajuda, me aponta um caminho, me dá uma luz. Só sorrisos e palavras mais doces do que costumo ouvir não me ajudam a escolher.
E agora?
Penso várias vezes em quanto tempo tenho para viver essas pequenas mentiras, fingindo que tudo está ótimo, que tudo está bem, que tudo está do jeito que eu quero. E acontece algo muito estranho: quanto mais se aproximam, mais me distancio. Mais quero a solidão, mais quero o nada. Esse nada tão querido que parece me abraçar e me acalmar, dizendo que sou jovem, dizendo que estou certa, dizendo que tenho tempo e que ninguém manda em mim.

Eu quero me apaixonar por você. Quero com todas as minhas forças que você me conquiste, me tire da dúvida, acabe com essa incerteza. Vem. Me ama. Me beija, me abraça, me desgasta, me enlouquece. Faz de mim o seu equilíbrio, faz de mim o seu coração, faz de mim as suas dores e as suas vontades. Eu quero ser sua, e quero que você seja meu. Quero ouvir a sua música quando você me ligar, quero ouvir a sua respiração no silêncio da madrugada, quero sentir os seus dedos no meu cabelo e seu corpo em choque quando tocar o meu. Quero a maciez dos seus lábios soprando meu ouvido, suspirando, sussurrando, murmurando com ternura e certo desespero qualquer frase que me faça rir de nós dois e da minha inexperiência. Eu quero você aqui. E quero agora, nesse instante de desespero, onde a dúvida me corrói com força. Tenho medo de me arrepender, preciso de um conselho. Seu. Preciso ouvir a sua voz; preciso me acalmar. 

Ai, ai. Ser tão jovem e tão inexperiente é realmente uma tristeza. Me atrapalha muito essa falta de informação, esse não saber. Eu estou apaixonada, e a negação sempre foi o caminho mais fácil. Mas será que eu sempre vou fugir? Fugir para sempre de mim mesma, de nós, de um futuro? Fugir de um "sim", de um "talvez", fugir de um "nós"? Um dia vou me sentir sozinha, e sei para quem vou correr, sei de que abraço vou  precisar, sei que sorriso vai me acalmar.



15 de outubro, 14h14

Estou disposta a lutar. Acredite em mim, confie em mim outra vez, por favor. Não faça isso comigo.
Eu não quero jogar todo esse tempo pro alto e esquecer.





quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Dó menor à sétima


Eu não acreditei
quando ouvi você contar pros seus amigos
o que a doida da sua namorada fez

Até esse momento a gente era
um rolo um pouco longo
durava mais de um mês

Nunca me passou pela cabeça
que eu fosse pra você
coisa mais que um borrão

Achei que a gente era
aquele amor "não sobe serra"
que não dura mais que um verão

E ouvindo você rindo
e contando que eu matei
a barata atrás da nossa cama

Eu comecei a rir
e me toquei de que
dando amor a gente também ganha

Tipo quando eu te faço carinho
bagunço seu cabelo
e você só reclama

Isso quando não vem
e me aperta, me morde de verdade
pra mostrar quem é que manda

("E eu só peço que os bons ventos
te tragam de volta algum dia
pra eu poder dizer
que talvez tenha sido um novo amanhecer
na minha vida")

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Quando eu descobri a nossa música

Aqui, eu já escrevi sobre amor. Já escrevi sobre sofrimento, aquele sofrimento adolescente, com dor no coração e traumas que, daqui há dois meses, eu nem lembro mais de onde vieram. Mas agora eu vou fazer algo que não me lembro de ter feito antes: vou escrever pra você. E vou fazer você ler.

"'Meu querido'.

sinto muito por ter dito coisas que não deveriam ser ditas. Sinto também por machucar você machucando à mim mesma. De todas as bobagens que já fiz, essa é a que mais me dói, afinal, atingiu você. Eu sei, eu sei, talvez daqui há um mês já não seja você o meu querido, talvez você seja apenas uma lembrança boa - ou talvez, quem sabe, não tão boa. Mas não quero isso. Pela primeira vez em meses, quase um ano de uma dor reprimida... pela primeira vez em muito tempo, quero alguém. Quero ter um número decorado, um toque especial no celular; quero reconhecer a lanterna de um carro, quero saber o cheiro que ficou na minha blusa, quero esperar uma buzina, saber de quem é a mensagem que está lá, piscando, quando eu acordo. 
E sabe o que vai acontecer quando você for embora? Eu vou acordar às três da manhã (com despertador) só pra te ligar e te desejar uma boa noite de trabalho. Como eu fiz há um mês, há três semanas, há duas semanas atrás.
Eu acabei de sarar, sabe. E não te contei. Por que eu não te contei? Não achei que você quisesse saber. Não queria te bombardear com problemas que estou tentando esquecer. Por quê? Porque não quero que você sinta o que eu sinto com meus problemas. Você não me pertence. Assim como eu não te pertenço. O que nós somos? Somos dois espíritos livres, dois corpos sem dono, duas pessoas que nem o destino explica como se encontraram. Foi um acaso tão grande, mas tão grande, e tão tipicamente brasileiro: foi pelo futebol. Você, fanático pelo seu time como eu sou pelo meu; uma combinação perigosa, mas infalível. Você, com o seu jeito de moleque sem juízo, me deixou fascinada. Tão tranquilo, tão risonho, e tão bonito. 
Quando a gente se viu pela primeira vez, já éramos amigos de longa data. Foi meio irônico, não sei se só eu percebi. Você ali, comemorando um aniversário que eu só vou comemorar daqui há dez anos, e mesmo assim era pra mim que você sorria. Tão jovem! Não eu, você. Tão jovem, tão moleque, tão perdido e mesmo assim, encontrado. Não sei se dá pra entender o que eu vi em você, mas não foi só um monte de tatuagens ou um carro preto raspando no chão; eu vi em você o que quero que as pessoas vejam em mim: eu vi uma pessoa amada. Uma pessoa que todos querem bem, e que quer bem todo mundo. Parece até letra de música do Arnaldo Antunes. 
Eu vi em você uma loucura gostosa, um sorriso verdadeiro que eu não via há muito tempo. Ali só tinha verdades; falsidade e aparência, eu não vi nada disso. Eu só via uma molecada descomplicada que se amava muito. Amizades de anos, e anos, e anos... E eu ali, mais perdida do que eu mesma; conhecia algumas pessoas, mas e aí? Onde eu me encaixava naquilo tudo?
Você veio me socorrer. Eu me deixei seduzir, é verdade. Por que lutaria contra alguma coisa que de cara, só me fez bem? Eu dei tanta risada e troquei gente muito importante, troquei uma festa que ficou marcada, troquei danças e bebidas por você. Porque você tinha muito mais pra oferecer, e eu ia ficar pra ver. Eu não podia sair antes do fim do espetáculo.

A culpa é toda sua.

Foi você que me ligou a primeira vez, que me mandou mensagem, que sorriu, que veio. A culpa é toda sua.
E eu tenho tanto a agradecer por você ter feito tudo isso!

Tem uma coisa que você não sabe sobre mim: tenho tendências depressivas constantes. Alguns amigos podem confirmar essa informação: sou uma pessoa triste e desacreditada. Do amor, da vida, da felicidade. Pra mim, é tudo conversa fiada. Ou era. Eu nem sei mais. E eu só não sei porque você tá aqui, na minha vida. Seja culpa do acaso, seja culpa do destino, seja culpa de ninguém: obrigada. 

Existe mais uma coisa; nós temos um detalhe importante em comum. Dallas Green e sua voz inconfundível.

Aqui eu deixo meu pedido de desculpas por ter dito alguma coisa que eu não deveria ter dito; honestamente, querido, desculpe. Prometo que tento não te deixar chateado nunca mais. 

E obrigada por me ajudar, me ligar e salvar a minha noite. A sua voz alivia a dor desse braço lesionado muito mais do que os anti-inflamatórios."

domingo, 16 de setembro de 2012

Os clichês são honestos

Primeiro: eu me chamo de impulsiva, sim. Se não, eu não teria passado madrugadas em bares, nem ido à viagens, nem conhecido gente. O impulso me trouxe onde estou.

Segundo: isso no meu coração não é um buraco. Buracos foram feitos para serem tapados, cobertos, escondidos, preenchidos. Não. Você - infeliz infame, alma desgraçada, homem sem caráter, falho e desonesto - não conseguiu me machucar. Você não fez nada em mim. Nem cócegas. O que deixou aqui foi aquele clichê honesto, uma cicatriz. Eu estaca cutucando a casquinha, mantendo a ferida aberta, mas agora você mesmo costurou e fez um curativo. Clichê e meloso, mas foi o que houve de fato.

Terceiro: eu, com toda minha indelicadeza e toda minha falta de tato, até eu sou capaz de sentir. Então meça suas palavras comigo, porque além de vingativa, eu sou boa de memória.

Quarto: desculpe pelas frases vindas direto das páginas facebookianas como "Mulheres Malvadas", mas elas são indiscutivelmente verdadeiras. E apropriadas. Por ora.

domingo, 9 de setembro de 2012

Dia #2

Meu café frio descansa na caneca, enfeitando minha mesa.
Ouço uma música que na verdade, nada me traz de bom, senão o sentimento de abandono.
Daqui, da minha cama, vejo uma pilha de papéis. E livros. Eu deveria estar estudando.
O cálculo básico é simples: ele viajou mais de mil quilômetros para me dar um bronca.
Sinto a culpa corroer minhas entranhas como um veneno.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Feliz aniversário

Feliz demais para descrever.
Já sinto saudade.

Eu? Assim? Feliz!? Há quanto tempo, hein, felicidade. Honestamente, você tem sido pouco justa com a minha pessoa. Eu merecia mais dessa sensação deliciosa de calor sob a pele, esse frio na barriga. É como se eu nunca tivesse passado por isso antes; uma sensação nova, inimaginável, algo inédito. É como me sinto agora.

- Muito prazer.
Com um aperto de mão, finalmente fomos devidamente apresentados. Um abraço logo em seguida, é claro. E sorrisos. Tantos sorrisos.
Naquela noite, passei por dois momentos que merecem destaque. Primeiro, tive o prazer de dizer "não" àquele que nunca me negou, mas também nunca me deu nada. Segundo, eu pude desfrutar daqueles momentos em que ninguém sabe direito o que está fazendo, embora ambos queiram a mesma coisa. Aquele esqueminha de adolescente de 12 anos, sabe? (Não que eu seja algum tipo de adulta, mas...)
Um olhar acompanhado de um sorriso, um abraço, mais um copo, risadas e mais risadas, e mais copos, e então um alerta na minha cabeça: onde ele está?! Saiu. Com alguém. Buscar um amigo, é o que dizem. Tudo bem. Ele é o anfitrião, não posso roubá-lo só pra mim. Mesmo porque não tenho motivos. Ou tenho? Ou queria ter? Ai, meu Deus.
Eu quero.

Quando o José e o Souza já eram história, as garrafas vazias espalhadas por ali, eu soube que precisava fazer alguma coisa. Ou ir embora, ou tomar uma atitude. Mas eu não estava com meus típicos picos de atitude e coragem de sempre - estava meio travada. Falta de prática, talvez. Ou só medo. Medo?, você pode pensar. Você? Medo de quê? Medo da rejeição que além de possível, era provável.
Mas não. E, para me garantir que meu medo era só uma bobagem da minha cabeça que pensa demais, foi você.

Você sorriu primeiro.

sábado, 25 de agosto de 2012

Manchas de 'talvez'

No papel, milhares de manchas coloridas. Misturas de azul e vermelho. Muito azul. Muito vermelho. Um pouco de verde nos cabelos; no desenho, o vento sopra com força, e o rosto desenhado demonstra tristeza. Talvez, imagino, seja um reflexo do interior de quem pinta. Talvez seja eu, num papel, com mais cor do que a realidade permite. Talvez seja apenas uma face do que está aqui, preso e adormecido, não?, questiono. O papel enrugado e molhado, afinal aquarela usa muita água. O papel sempre esteve molhado, e eu posso nem ter percebido as lágrimas. Ou talvez elas estejam ali, no azul, quando sopro o excesso de água sobre a tinta. Sobre mim mesma, até.

Um dos rostos desenhados está tranquilo. É uma garota, uma garota doce, um pouco triste, admito, mas em paz. Ela tem o cabelo jogado e colorido, como é de esperar, e solta fumaça pelos lábios grossos. Talvez a fumaça seja o meu jeito de representar tudo que quero dizer, mas que ninguém parece ouvir. Como fumaça. Não se pode prender, mal se pode ver. Só existe, sem atenção. Fumaça cor-de-rosa, porque é doce. É doce e delicado. E inútil.
A única coisa em comum entre todos os rostos é que os olhos sempre estão fechados. Sonhando, talvez. Dormindo durante um pequeno momento. Uma piscadela e pronto, meio segundo de sonho, a imaginação à mil. Meio segundo de paz. Talvez, se mantivermos os olhos fechados, como no desenho, por toda a eternidade, possamos sonhar para sempre.
A garota ainda solta pelos lábios grossos as palavras que nunca serão ouvidas. A fumaça delicada e ignorada.

Pássaros, com enormes asas abertas, espantam o que há de ruim. No laranja forte, no verde pacífico, na mistura de várias cores e tons - penas tão coloridas quanto as reais, sim? Escritos perdidos entre um desenho e outro, porque tenho poucas folhas para usar, então abomino o desperdício de espaço. Tudo deve ser preenchido, seja com palavras, seja com cores, seja com manchas, seja com lágrimas, seja com uma pincelada suja, a mistura de todas as cores que possuo.

(Unfinished)

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Cinco laços

O vento sopra
e eu já não posso mais te ver
te levou embora
Se o sol se vai, começa a chover

Cinco laços
não há nada que possa
dizer ou fazer
que não me faça lembrar
e que eu possa esquecer

O verbo que te leva
é o mesmo que te trouxe aqui
Um capitão sem rumo
que encontrou em mim o seu navio
A âncora deixou a sua marca
mas pode ir em paz
alguém no passado me ensinou
a não correr atrás

O vento sopra
eu fecho a janela do meu quarto
(...)


domingo, 5 de agosto de 2012

À minha esquerda

O rapaz à minha esquerda segurava meus dedos com certo desespero. Amigos são pra isso; "aperte minha mão o quanto precisar, eu estou aqui". O outro, à minha direita, tinha olhos bonitos. E eu achei melhor avisá-lo do fato.
O rapaz à minha esquerda estava muito mais bêbado do que deveria, mas o que eu podia fazer? Já era muito bom que estivesse apenas bêbado. Mas ele continuava com aquele olhar perdido que tirava o meu rumo e também o meu sossego. Como se procurasse uma forma de fugir. E existem tantas...
Mas o rapaz à minha esquerda é muito mais forte do que eu julgara a princípio. Ele disse não, ele preferiu minhas mãos quentes e um pouco de grosseria. Eu queria poder abraçá-lo e garantir-lhe que, pela manhã, mal se lembraria de tudo e esta teria sido apenas mais uma noite, mas o amanhecer se aproximava de forma rápida, e eu não queria mentir. Nem poderia, na verdade. Ele saberia. Ele já sabia.

À minha direita, os olhos bonitos foram tomados pela vermelhidão típica, mas a conversa não perdeu o rumo. Havia algo de verde naquele olhar tranquilo. Talvez seja italiano, pensei. Muito branco e muito barulhento. Quando gritou com os amigos, tive certeza: italianíssimo.

Mas naquela mesa de bar, àquela hora da manhã, eu já não podia deixar de perceber que o rapaz à minha esquerda se fechava mais e mais contra sua própria vontade. Algumas risadas escapavam da boca cerrada, mas ele já piscava mais devagar e começava a se entregar. Não ao sono, não ao cansaço, não ao álcool corroendo suas veias. Começava a se entregar àquilo que lhe tomava as forças, algo sem nome, sem cor e sem cheiro, mas com uma força inacreditável. Eu apertei seus dedos, senti sua pulsação, tentava salvá-lo. Mas não podia. Não ali.
" Vamos?", convidei. "Tenho que ir embora em duas horas."
Ele sorriu. Não entendi esse sorriso.
Nunca entendo seus sorrisos.

Caminhamos pelos paralelepípedos à luz de postes elétricos, de mãos dadas por causa do frio, eu com a camisa dele.
Porque, apesar de tudo, ainda existe o cavalheirismo.

Conforme o caminho surgia e nosso destino chegava, eu ia criando uma consciência plena de que estávamos bem. Estava tudo bem. Nossos dedos entrelaçados eram muito raros, porque eram apenas dedos entrelaçados, sem entrelinhas. Estávamos em paz.
Mas é claro que quando a calmaria é grande...
Tinha que ser eu. Ele era bom demais e amigo demais e talvez até estivesse bêbado demais para perceber que eu resistia com força à tudo que me atirava naquela direção. Mas eu estava mais fraca, e num momento de loucura houve um deslize, um delírio, e acabou. Eu tinha feito.
Ele riu. Aquela risada que eu não decifrava, o sorriso que eu não entendia.
Usou um termo que eu não gosto para descrever erroneamente uma situação que eu havia causado. Tudo errado. Estava tudo errado. E, pra piorar tudo, ele deixou.
Por que ele deixou?

Na mesa do boteco eu anunciara à quem quisesse ouvir que havia um combinado. Um combinado que era nada mais que um limite. Algo que eu impusera. E agora, eu o quebrara.
Com ajuda.
Éramos dois idiotas.

Resolvido o problema e enterrado ali, naquela esquina, seguimos caminho.
Havia uma garçonete. Alargadores, cabelo ruivo, chopp grátis.
E havia ele, meu companheiro de boteco. Eu o entregaria nas mãos de quem derramava chopp bar adentro. Sem remorso, sem dor. Apenas alívio. Ela era boa com as mãos.

Não se passaram dez minutos. Eu juro pelo que há de mais sagrado.
O deixei na porta do bar, nos braços da ruiva, com seu sorriso gentil e seu jeito de menina. E ele, sorridente - como sempre. Desejei boa noite e virei para o outro lado. Desci o quarteirão e, sem pensar duas vezes, entrei. Subi o elevador, com sua velocidade super sônica, e logo estava dentro do apartamento, procurando um lugar pra dormir. Haviam corpos demais pelo chão, poucos colchões - e de repente, o interfone. O porteiro anunciou o nome de quem devia estar em mãos que derrubam chopp. Mandei subir, sai do apartamento e fui esperar no elevador. Haviam dois motivos: 1) eu queria saber por que estava voltando tão cedo e 2) não podia deixá-lo fazer qualquer barulho.
Quando a porta do elevador abriu, ele veio de cabeça baixa, muito rápido. Ficou surpreso por me encontrar ali, esperando.
- O que você está fazendo aqui?
- Vim pra você não poder fazer barulho.

Ele tomou minha mão e seguimos corredor adentro.
Entramos no apartamento, e eu disse "Fique quieto."
Depois disso, ficou tudo escuro. E tenso. E embaçado.
Eu já não sentia. E eu lutava muito contra, enquanto meu corpo clamava; clamava pelo calor. Pelo toque. Pela proximidade.
Ouve uma explosão, e ele sorriu.
Ele sorriu, e eu finalmente entendi seu sorriso.


domingo, 29 de julho de 2012

50 segundos

Na boemia da noite que não acaba, na cerveja, no papo curto à beira bar. Encostada numa bancada de madeira cheirando à mato, com um sorriso sem sentimentos que só serve para atrair a atenção do garçom. É assim que me vêem; talvez.
Força na tampinha, o líquido derrete meu esôfago e eu me derreto em vontade. Às vezes, não sei, pode haver um motivo para tudo isso. Ou não.
A abstinência me tira o sono e, então, fujo para letrinhas sem toque num espaço comprimido. Nem há som. Nem há razão. Não há nada, na verdade. Só um monte de tentativas frustradas de fugir, talvez, para um lugar-comum longe de tudo e perto de mim.
E então, o aleatório. Um nome qualquer. Eu preciso de ouvidos.
Sempre fui a ouvinte, ou sempre tentei ser, mas hoje não há escapatória: alguém tem que me ouvir. Por favor (eu imploro, de joelhos, sem medo, me ouça!).

Pobre rapaz, não merecia ser ouvinte de tragédias de tão pouco nexo.
A verdade é que quando o desespero nos assola por completo e chegamos ao fundo do poço, não podemos fugir. Eu não posso. Minha única opção é vomitar o que estiver sendo lenta e dolorosamente digerido pela minha consciência tão pouco suscetível à falha de memória. Me lembro de tudo. E isso me fode.

No entanto, há uma escapatória. Ou eu pensei que havia. Porque eu abri minha consciência e dei à mim mesma o luxo de desabafar. Plena. Completa.
Pobre rapaz.

Mas o que realmente me assusta é a quantidade de vezes em que concordamos. Pontos cegos em conversas de boteco. Buracos mais fundos; um pouco de deus, um pouco de diabo. Tinha até destino e fé. E risadas.
Mas isso é uma história que ainda não tem fim.
Imagino que será encerrada com cevada.

terça-feira, 24 de julho de 2012

É exatamente o que eu preciso

É noite.
Há estrelas num céu
coberto por nuvens.
Há um brilho
que eu não posso enxergar.
E eu preciso tanto;
da luz nessa escuridão,
preciso encontrar,
preciso chegar lá.
Um passo no asfalto molhado.
Um passo em falso.
Um pensamento leve
e eu não penso.
Só deixo que esse algo
me leve pra longe
sem deixar rastros.

domingo, 22 de julho de 2012

S.O.S.

SINAL VERMELHO!
As coisas saíram de controle.

Eu pensei que esperar você voltar seria fácil. Eu simplesmente veria o tempo passar, e então, como mágica, dezembro chegaria, e com ele viria você - e seu perfume que eu ainda não consegui identificar. Mas, como eu já deveria saber, nada foi como eu esperei que fosse. Eu me desapaixonei outra vez por (ou de) você. Passou. De novo.
Não é a primeira vez que a distância destrói um sentimento pulsante dentro de mim, mas é com certeza a mais suave. Eu nem senti quando o tempo puxou o fio que segurava minhas feridas lambidas e cuidadas e a distância o cortou, mostrando que eu estava cicatrizada e já não precisava de fiozinhos de memórias segurando coisa alguma. Interessante, não? Eu mal posso explicar, na realidade. Minhas palavras... bem, parece que estou enferrujada.
Na verdade, eu só tinha que te contar.
Não me compre um copo de dose.

Eu já não sou assim tão louca quanto eu era, sabe; passou. Passou a loucura, passou o tempo, passou você.
Estou pronta pra outra.

E que demore.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

So tired

I read young people talking about love without feeling it. I read old people talking about our time without knowing it. I read mothers and fathers talking about their son's bad behavior without reason. I read about hypocrites talking about drugs, about sex, about alcohol, about everything without trying it.
I'm getting tired of reading false and hypocrite people talking about what they don't understand. About things they've never felt. About a world they don't know. Stop trying to be politically correct if you're not. Stop pretending judge people when you act like them.
Stop making this world worse and start thinking again about your opinions - your real opinions. Don't let media make your thoughts. Think with your own mind. Judge what you think is right or wrong.
What YOU think.
Please. I'm so tired of all this hypocrisy and falsity. And, sure, I'm tired of this empty space people call heart, today.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Sorriso e Serenidade

Elas são muito diferentes.

Uma é a fogo, ardendo, brilhando, mas presa dentro de um casulo no qual ela nunca quis entrar, e só agora está descobrindo como sair. A outra é água, calma, tranquila, pacificadora. Mas tem muita força, muita vontade e muito poder. Elas não são reveses, são complementos, são as metades de um todo cheio de segredos. Separadas elas perdem força, mas não são dependentes. São apenas complementos. Como um par de dados, talvez. Onde um fortalece o outro, mas não há necessidade.
Com o tempo, aprende-se a diferenciar. Não só o rosto ou o corpo ou o cabelo ou o sorriso. Aprende-se a diferenciar as ideias; a forma como o Fogo joga o cabelo para o lado, ou como a Água baixa a cabeça quando quer escapar.

Elas são muito diferentes.

Até no toque do abraço, ou no cheiro, ou no franzir do cenho podemos ver que são tão diferentes como todo mundo. E às vezes são essas diferenças que fazem com que sejam tão iguais. Não é fácil de entender, mas é assim. E quando as confundem, e elas sorriem, por dentro clamam por um pedido de desculpas, alguém que diga: “Como você pode confundi-las? São completamente diferentes”, porque elas sabem que não são iguais. Jamais serão.

Elas são muito diferentes.

domingo, 17 de junho de 2012

Destino e um santo

De fato, era atordoante. A rapidez dos fatos,
uma sucessão rápida de fracassos.
No mesmo instante era sim e não e sim
outra vez; sem saber jamais que fim
haverá de ter.

Inegável, arrependimento supremo, e
embora o Destino me fosse afável
e tentasse se perder nos nós do meu cabelo
num carinho que eu nunca quis,
pedi mais uma vez à qualquer santo que
confiasse e me ajudasse e então jogasse
os dados por mim, fazendo com o que
o Destino nada pudesse fazer para
reverter o que já havia sido feito.

Não se mexe no passado; nem Destino
e nem santo, nem quem pode, nem quem deve.
Passado é passado porque já passou;
é redundante, mas não há definição melhor.
Quem hoje não está mal, ontem estava na pior
e amanhã, poderá governar mais que o
santo e mais que o Destino, supremo sobre
tudo que acontece agora e aqui e lá e depois.

[E se ecoa o meu nome dentre essas paredes
que não podem conter nem o seu grito,
quem poderia segurar a força de um ser
louco para ser?]

Espero eu que haja um rio frio esperando
por mim num futuro não muito distante.
Num verão tão quente quanto o inverno é frio
pra mim já é o suficiente, se é que alguém me
entende quando faço analogias às estações.
Que posso esperar? Agitação molecular à níveis
invisíveis e intocáveis, embora infinitos.

[Você ainda não consegue conter a minha voz
e a minha força e o meu sonho e a minha vontade.]

Basta aguardar no Destino, sem santo,
que haja o verão quente, que haja meu rio frio,
que haja contenção de palavras, mas não de
significado. Que haja quem me diga "não" e ria
e então me permita.
Aguardar no Destino um dia qualquer em que
o passado volte, e a redundância se aceite
[pelo simples fato de ser]
pelo simples fato de não ser assim tão impossível,
tão incerta e tão redundante, e tão boba, e tão
humanamente errônea.

Vem, Destino, e prega nessas paredes o que falta
para que a minha voz seja contida
e o vapor do suspiro seja contido
e as garras sejam imunes à dor
e já não se possa fazer mais nada.
Porque será passado.

sábado, 2 de junho de 2012

Prólogo

Eu caí no desespero.

Finalmente entendi a sensação de afundar no abismo da loucura; foi um segundo. Um segundo longo demais, admito, mas foi apenas um segundo. A morte me pareceu mais fácil que a vida, eu resolveria meu problema e daria cabo de tudo. Puf.

No segundo seguinte, me peguei no flagra. Minhas mãos trêmulas, a boca entreaberta e os olhos se fechando. Uma gota de sanidade sobrevivera à inundação da loucura, e eu estava de volta. Boom.



Nadei em direção à praia, respirando água; oxigênio e nitrogênio não me davam o que eu precisava, e eu procurei por mais. Mais. Mais. Quase lá, e meus pulmões pararam, mas eu não deixei que parassem de fato. Eu ainda tinha um caminho a percorrer. Mais rápido. Mais. Mais. Havia um longo caminho, e minha força se foi. Os braços pararam, o pulmão travou e os lábios se fecharam. Os olhos, estáticos, imóveis, miravam a praia como se fosse Deus estendendo a mão pra mim. Deus? Isso, continue. Confie naquela força cósmica celeste divina que sempre lhe foi boa, ou assim lhe disseram. Nade. Há uma mão guiando o seu caminho. Meus pulmões voltaram e, se eu não estivesse à ponto de me afogar no mar que eram as sensações naquele momento - agora -, eu teria sorrido. Mas não havia tempo nem energia para sorrir. Esticar os lábios sobre os dentes... que diferença faria? Se fizesse alguma, eu estaria de fato viva, e não meio-viva, lutando pelo resto de respeito e fé que me foi dado. Sorrir. Ha, ha, ha. Faz-me rir, vida. Você me ensinara há pouco que não demonstrar e demonstrar não possuíam qualquer diferença, na situação em que eu estava. Na realidade, quanto menos eu dissesse, sorrisse e chorasse, melhor.

Faz algum sentido? Morte e vida, numa relação tão descomplicada que me parece quase boba.
Algo do que eu disse... Nada, na verdade. Uma história sobre nadar até a praia e acreditar em algo para se salvar.

Não há fim para o primeiro ato, porque estou no prólogo.




terça-feira, 29 de maio de 2012

3

I

Bateu uma saudade. Foi forte, deu um tranco no meu ombro, me chacoalhou. Eu estava acomodada, mas agora não estou mais. Sinto falta de tardes passadas à beira-colina, sem dizer nada, só com seis cordas nos dedos. Uma risada e talvez um xingamento, dito baixo, sem ninguém se abalar. Já estávamos acostumados aos tratamentos rudes, porque quando há aquilo que havia, não há necessidade de nada mais.

II

Passei na frente daquela esquina e quase me emocionei. Foi lá que aprendi a misturar conhaque e limão, e tomar tudo num trago, só pra me sentir mais leve. Um showzinho no improviso, só pra tornar a noite um pouco mais alegre. O tempo todo os seus braços estavam ao redor dos meus ombros, como se me protegesse daquele monte de jaquetas de couro, coletes jeans e siglas de bandas de heavy metal. Eu nem tinha mais medo, porque afinal, eu provavelmente era mais macho que todos vocês juntos. Mesmo sendo uma garota. Só que ainda me lembro do cheiro de cigarro e dos escorregões naquele chão liso. As madrugadas atravessadas, rápidas como flechas. E um gosto de eternidade que ficava na boca.

III

Já são três meses, quase quatro. Eu ainda estou sentindo um aperto nos meus lábios; como se o último beijo jamais tivesse terminado. Nunca mais foi a mesma coisa. Um abraço no escuro, um adeus murmurado. Engraçado como, mesmo depois de tudo, eu, que sou eu, com esse jeito de sem-coração e essa frieza, essa mania de amiga-de-todo-mundo, essa falta de ligar pras coisas, ainda ficava sem jeito quando via o reflexo dos seus dentes brancos sob uma luz fraca qualquer. Será que eu consegui superar? Abstinência tem efeitos colaterais. Eu tive que descobrir sozinha. Não havia remédio que curasse o tédio e o vazio.