domingo, 30 de junho de 2019

esvair-se

o problema não é você
como não é ele
e nunca foi ninguém.

o problema sou eu
e o tamanho da ausência dentro de mim.

o problema é que meu medo
me engole por completo
antes mesmo de eu perceber
o que acionou o gatilho.

o problema é que
ao menor vislumbre de abandono
me arrependo
me culpo
e me pergunto
o que há de tão errado comigo?

porque há em mim
o peso de uma existência
cercada de talvezes 
e poucos motivos;
inúmeras tristezas e dores
que nunca deveriam ter 
me habitado.

tão condicionada 
pela aceitação de terceiros
de estranhos
de completos desconhecidos
ou rápidos alguéns.

e por quê?

quando houver essa resposta
haverá mais tempo
e menos pânico
para que eu seja melhor companhia
e não apenas tempestade
destruindo relações
deixando maus entendidos
e depois

e s v a i n d o.

sábado, 29 de junho de 2019

mirror

I look in the mirror
my everyday mirror
but there's someone else
in the reflection.
I'm walking down
the street I walk
everyday
but there is
someone else
on the shadow.
Who's that person
taking my place?
And why am I
fading away...

14.06.2018

domingo, 23 de junho de 2019

vazia

ser vazia é um sentimento que preenche
entope as veias, abarrota os quartos
vaza pelas frestas e invade todo resto

ser vazia é um sentimento imenso
ocupa todos os meus pensamentos
invalida minhas conquistas
fere meus momentos de paz

ser vazia é um sentimento complicado
emaranhando todas as minhas certezas
perpetuando minhas dúvidas

[e de tempos em tempos
vem e me arranca um pouco das entranhas.]

ser vazia é um sentimento que corrói
e muito em breve não terá restado nada de mim
senão qualquer lembrança
de alguém que tentou não pular da janela
tentou não beber veneno nem usar uma faca

a lembrança de uma tentativa
a lembrança de um imenso vazio
preenchido com tanto de si
que se foi.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

stone-hard

fragile as crystal glass
pretending to be stone-hard.

how much did it mean to you

how much did it hurt you

how deep has your sorrow penetrated

why can't you come back to the surface

why would you keep diving

why ain't you resisting

how does it feel
to perceive your bones sinking

how does it taste
the salty flavor of your tears

how vast is the solitude
you surrendered to

how long did it take for you
to realize
you are going to be alone
forever?


sexta-feira, 7 de junho de 2019

Novo

23 de maio de 2019

É engraçado como tenho pensado muito em você nos últimos dias. E apesar das minhas constantes reclamações no Twitter, sua ausência virtual me fez lidar com uma ridiculamente previsível rejeição. Antes de você saber que teria que me dar um fora, eu já estava preparada para ele. O problema foi que você não me deu o fora; ontem você me perguntou quando eu volto pra Curitiba, porque, pelo que entendi - e tentei ser absolutamente cética quanto à finalidade da sua pergunta - você quer me ver de novo.
Quão debilitada emocionalmente devo estar para ter dificuldade em aceitar que alguém, neste planeta, se interessaria em me ver outra vez?
Você e seu cabelo brilhante que quase me fez perguntar qual a marca do seu shampoo. Com essa dificuldade estranha em entender o que eu digo, mesmo que eu use níveis baixíssimos de sarcasmo, para evitar que você perceba o quão doida eu sou. Estou tentando ao máximo postergar essa descoberta, porque depois dela, de fato, ninguém volta.

Quando te convidei para voltar, três dias depois de ter conhecido meu quarto ameaçadoramente bagunçado pela primeira vez, jurei que você não aceitaria. Você sequer se manifestou, pra ser sincera com minhas memórias. Demorou para me responder e eu achei que estava apenas tentando achar uma maneira de escapar daquela proposta sem ser um completo imbecil comigo. Teria apostado nisso. Mas, para meu deleite, você não só aceitou o convite, como se aventurou nos terminais até minha casa e chegou, cansado e disposto ao mesmo tempo, com uma troca de roupas na mochila, me pedindo para usar meu chuveiro. Me faltam palavras para descrever o quanto me deliciei com aquele momento de medíocre intimidade, supérflua e profunda ao mesmo tempo, nas mesmas proporções. Foi um daqueles momentos em que não temos outra opção, senão confiar num completo estranho. E que completo estranho você se saiu naquela noite, onde estávamos sozinhos no meu apartamento; um momento raro que deve, de fato, ser aproveitado. Não vou mentir: por mim, você teria chegado na sexta e ido embora na manhã de segunda, sem a menor pressa. Mas nossa aventura durou apenas uma noite, e na manhã seguinte você fugiu de volta pro seu quarto compartilhado no centro da cidade, enquanto me dei o prazer de passar uma hora inteira apenas sentindo o sol através da janela, queimando minha pele, pensando na noite em claro que havíamos acabado de passar juntos. Soo apaixonada, eu sei, e talvez estivesse, mas não por você. Me pego apaixonada por esses momentos raros de cumplicidade absoluta que tenho com completos estranhos. Ou, neste caso, um estranho, mas não mais por completo. Entende?

Valorizo muito esses momentos. Já passei por poucas e boas com todo tipo de homem por essa cidade. Já transei em camas muito, muito caras, em bairros nobres, dentro de pequenas mansões, como também passei noites dormindo em sofás muito, muito velhos, em apartamentos abarrotados no centro, divididos entre sabe Deus quantas pessoas. Beijei bocas que sabiam o que estavam fazendo, e outras que não tinham a menor ideia de como proceder. 
Assisti a estreia de um filme do meu diretor favorito com um qualquer com quem hoje não só perdi contato como também evito retomar.  
Beijei bocas que pagaram a conta cara, mas que não sabiam usar a língua. 
Outras que me convidaram para jantar, e eram melhores contando histórias do que tentando me convencer a passar a noite. "Não, obrigada, eu até tomaria mais um gim-tônica, mas preciso urgentemente voltar para casa porque... bem... porque eu quero". Era um gim caro, que ele trouxe de uma viagem que fez para a Ásia, e eu nunca mais vou tomar nada daquele calibre, mas a vida é assim. Se pelo menos ele fosse dez centímetros mais alto e soubesse beijar... eu aceitaria apenas um desses dois itens. Bom, pelo menos um. 

O que quero dizer é que já me meti em todo tipo de sexo casual, ou quase-sexo casual, e você com certeza está no topo da lista. Por enquanto está empatado, numericamente, com um outro, por quem admito ter tido uma quedinha um pouco mais acentuada, e com quem troquei mensagens extremamente gráficas, mas que não mora mais aqui, e portanto é um contato arquivado, até segunda ordem. 
Você, bem, não troca mensagens tão sexuais, e pra ser sincera, mal responde meu "bom-dia", mas eu sinto que não é por mal. Dá pra perceber pelo seu tom. Dá pra perceber pela forma como você reage quando eu ameaço começar uma troca de mensagens explícitas. Ah, claro que dá. Quando você escreveu "Quando você volta?", eu percebi que as brincadeiras ainda nem tinham começado. E eu gostei. É estranho pra mim, porque geralmente não me dou o luxo de me sentir dominada, mas com você é uma descoberta. Gosto de permitir que você me diga o que fazer. E sim, como você mesmo percebeu, não é algo que eu faça com frequência. A única pessoa que eu obedeço é a minha mãe, pelo amor de Deus. Mas quando você me disse, por cima de mim, que eu não poderia te beijar enquanto aquilo não acabasse, senti uma mistura de ódio e submissão tão forte que sequer tive o ímpeto de responder. Que bizarro. E o pior foi eu ter gostado

07 de junho de 2019

Mal nos falamos nos últimos dias. Não vou entrar em detalhes, mas te convidei pra sair, pra tomar uma cerveja, para vir até em casa, e você não topou. Disse que queria sair comigo de novo, mas não naquele dia. E desde então, meu interesse foi diminuindo em velocidade automobilística. Não há maneira de eu me manter interessada quando conversar com você é tão difícil. Tive dias ruins, e você até tentou se dispor, mas sinceramente, nem poderia. Somos meio conhecidos com um interesse em comum que não inclui me acalmar durante uma crise de ansiedade. Essa mensagem, portanto, é apenas para que eu me lembre. Lembre-me de que tentei, de fato, e que inclusive acabei de te enviar uma mensagem, sabe-se lá a troco de quê - mas mandei. Mas não espero resposta. Honestamente, nem quero. Foi um ponto final. 

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Mais ou menos nove bons motivos

Todos os dias
logo pela manhã
me pergunto incisivamente
por quais motivos
ainda não pulei
da janela do meu apartamento.

Geralmente concluo
mais ou menos nove
- bons - motivos.

Primeiro:
minha mãe ficaria triste,
e eu não vim pra este mundo
para fazer minha mãe se sentir assim.
Segundo:
meus irmãos sentiriam minha falta.
Terceiro:
meus cachorros sentiriam minha falta.
Quarto:
meus amigos ficariam tristes,
e eu não vim pra este mundo
para fazer meus amigos se sentirem assim.
Quinto:
meus avós ficariam muito tristes,
e eles estão velhinhos demais para
ficarem muito tristes,
especialmente por minha causa.
Sexto:
ainda não me resolvi com meu pai,
e isso o assombraria para sempre.
Sétimo:
eu ainda não fiz um projeto do qual
sinta um grande orgulho.
Oitavo:
muita gente precisa de mim,
e apesar de ser o motivo
de todo meu estresse,
eu jamais abandonaria
meu trabalho pela metade.
Nove:
...

Como eu disse,
mais ou menos
nove bons motivos
todos os dias.

Em algumas manhãs incluo
meus próprios desgostos
e frustrações,
como, por exemplo,
nunca ter deixado
marca alguma no mundo.

Às vezes decido
tirar meu pai dessa lista;
mas esses são dias
em que acordo chateada.
A culpa é mais minha
do que dele.

Num geral
tento me lembrar
de quem me ama
e quem eu amo,
e me lembro
que não quero magoá-los,
não quero abandoná-los,
e que por pior
que seja o sentimento
de existir,
na maioria das vezes
encontro boas razões
para me levantar,
olhar pela janela
e não me jogar dela.

Alguns dias
são mais difíceis que outros,
nem sempre eu consigo,
e aprendi
que tudo bem.

terça-feira, 9 de abril de 2019

Unbalanced

Quando eu finalmente deixo
as lágrimas correrem pelo meu rosto
já é tarde demais.
O cansaço já me corroeu,
a dor já é lancinante
e eu já gritei com algum inocente
desavisado que cruzou meu caminho.

Quando eu finalmente permito
que a tristeza transborde meus olhos,
já é tarde demais.
Minha carne já se tornou chumbo
e até minha sombra é capaz de dizer
que não sobrou nada de mim
além do que está podre.

Quando eu admito
que talvez minha velha amiga
não tenha ido embora
como eu ingenuamente acreditei,
já é tarde demais.
Ela já cravou as garras no meu peito
e arrancou minhas entranhas
sem piedade.

Quando eu me lembro
que a depressão não se cura,
que preciso estar sempre atenta
e cuidando de mim mesma,
já é tarde demais.
Engoli uma barra de chocolate
sem vontade
e agora me sinto pior
por ceder à compulsividade.

Metade de mim chora,
metade de mim grita.
Não há equilíbrio
entre o que sente ódio
e o que precisa de carinho.
Preciso ser cuidada mas
por favor
não me toque.

Dou uma risada para disfarçar
minha pressa em ir embora,
em ficar sozinha,
em poder chorar em paz.
Finjo que ninguém me olha
e se pergunta:
"Como ela consegue?"
Mal sabem eles que a resposta
é negativa.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Conversas que só existem na minha cabeça pt. I

- Oi!
- Ah, oi!
- Como você tá hoje?
- Um pouco apressada.
- Você tá sempre apressada.
- É. Acho que você tem razão.
- Queria conversar.
- Tenho uma reunião agora, mas - não - na verdade tenho cinco minutos. Quer tomar um café?
- Ahn, acho que sim. Claro.
- Ok,é que eu preciso de um. Aí podemos conversar.
Descem ao térreo, ela compra um café com leite. Sentam-se aleatoriamente.
- Ok, o que você precisa?
- Não entendi.
- Você disse que queria conversar. Como posso te ajudar?
- Não preciso de nada, só quero saber como você tá.
Choque.
- Ah.
- Que foi?
- Ninguém me pergunta como eu tô.
- Mas você tá sempre falando com um monte de gente.
- É, é verdade. Mas tô sempre resolvendo algum problema.
- Dá pra ver.
Ela sorri.
- E então?
- Então o quê?
- Como você tá?
- Correndo.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

1, 2, 3

X

Estão juntos há 45 anos. Na hora do almoço, ele prepara a refeição; fez as compras de manhã, depois da caminhada matinal que praticam juntos já há algum tempo. Ela se ocupa em manter a casa limpa, as roupas lavadas e o chão com o mínimo de farelos possível. Contrata uma diarista para faxinar o sobrado de tempos em tempos, já não tem disposição nem vontade suficiente para esfregar o chão e as privadas. Lá pelas duas da tarde, ela pede para ir à costureira, buscar uma blusa que mandou fazer para o neto mais velho, que vem da capital passar o próximo feriado na casa da mãe. O marido, deitado, começa seu ritual de ir ao banheiro, pentear-se e reclamar um pouco para, então, poderem sair. Ela poderia ir a pé, mas está muito sol. Não dirige há mais de dez anos, e sabe qual seria a resposta se pedisse as chaves do carro. Ele é carrancudo, mas ela sabe como funciona. Ela tenta manter o bom humor em todas as situações. Seu choro é raro e leve, suas tristezas são todas passadas, e já não se sensibiliza com tanta facilidade. Eu, como espectadora, diria que morreu um pouco por dentro. Não saberia que resposta dar se lhe perguntassem se ainda ama o marido. "O amor acaba?", perguntei uma vez. "O que é acabar o amor?", respondeu, "é desistir? É deixar de tentar? Ou ir embora... por que as coisas mudam?"


XI

Estou mais uma vez esperando para conhecer um novo homem. Sentada na mesa de um dos milhares de bares adorados pela classe média dessa cidade, onde a cerveja é cara e a comida é gordurosa, com mesas bambas de madeira na calçada, para que tenhamos essa sensação falsa de sermos parte da cidade por algumas horas. (Depois voltamos para casa em nossos carros, para dentro de nossos condomínios seguros e absolutos, onde ninguém entra.) Ele para na porta baixa do bar e varre todas as mesas com os olhos, procurando alguém que corresponda àquelas fotografias postadas em uma rede social. Seus olhos batem nos meus e automaticamente, aceno. Abro um sorriso tão amargo que até aquela cerveja vagabunda pareceria doce. O cidadão não tem mais de um metro e setenta e cinco de altura, e isso já me deixa menos agoniada, dada a minha estatura e essa necessidade estúpida de que o homem da vez seja no mínimo da minha altura (necessidade essa da qual ainda não consegui me livrar). Mas mesmo sua estatura felizmente não tão mediana é incapaz de me animar. Ele não está mais animado do que eu, que à princípio devo parecer uma fraude se comparada à minha própria propaganda virtual. Ele se aproxima, eu me levanto, o cumprimento com um beijo no rosto. Nos sentamos, ele pede um chopp, eu o acompanho. "E então", ele suspira, sorrindo com cuidado, "É a primeira vez que faço isso". Sorrio com empatia, sentindo sua dor. Ele parece tão humilhado quanto eu, quando paro para pensar que agora preciso de aplicativos de celular para conhecer alguém. "É, eu já estive onde você está", rio, "Espero ser uma boa primeira experiência. A minha foi péssima". Ele pede que eu conte, e começo a descrever a fatídica noite onde me encontrei com um rapaz cuja idade e altura não correspondiam às suas mentiras virtuais. Ele ri das minhas piadas e eu sinto que não faz tanto esforço para manter a conversa. Me joga olhares meigos e não parece um leão observando uma zebra manca, como alguns outros me fizeram sentir. Pedimos uma porção de qualquer coisa para beliscar e me pego reparando em seu cabelo com fios grisalhos. Me sinto atraída por ele. Torço apenas para que, numa exceção, a noite termine bem, como começou.


XII

Está procurando documentos importantes que costumava deixar guardados numa pasta transparente, na estante de livros. Quando puxa com força um amontoado de papéis, caem meia dúzia de livros, e entre eles, sua bíblia. A mãe lhe dera há muitos anos, e ainda a lia de tempos em tempos, buscando histórias para passar noites difíceis ou para caçar respostas ácidas para crentes fervorosos que condenam a homossexualidade em nome do Senhor. Para sua surpresa, de dentro do livro grosso, cai uma fotografia. É seu ex namorado. Não se falam há anos. Por que isso está aqui? "Eu orava por ele", lembra-se, com um pesaroso suspiro. Orava, rezava, pedia à Deus que o direcionasse, afastasse das drogas, das más pessoas. Sabia que a má pessoa muitas vezes era ele mesmo, mas quem pode julgar uma adolescente apaixonada? Buscava todo tipo de desculpa para livrar-lhe o pescoço. Nunca fechou os olhos para seus defeitos, mas tentava fazer deles apenas isso, defeitos, e não toda a definição de sua personalidade. Aos quarenta e cinco do segundo tempo, quando o garoto se mudara para a cidade onde ela morava, desistiu. Não tinha mais energia para carregar um relacionamento sozinha. A bebida o havia tornado rude e mais folgado do que o de costume. E ela não era mulher de arrastar homem algum. O relacionamento viu seu fim precoce numa noite de luar claro, quando ela precisou carregá-lo para casa. Amor, sozinho, não sustenta esse tipo de coisa. Lembra-se claramente da decisão de livrar-se. Mas guarda as fotografias com carinho. Não pode dizer que tudo foi sombrio. O amor era bom.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Dear future me (2),

dessa vez o texto é em português. Já provamos nossa aptidão em inglês várias vezes, tá tudo bem. Aliás, temos estudado um pouco de japonês, que é um idioma lindíssimo, mas muito difícil. Espero que ainda possamos falar um "ohayou" vendo o sol nascer lá no Nihon.
Muito bem. Estamos com 22 anos. Idade que mamãe tinha quando nascemos. Aliás, mamãe está presa. Ainda. Pois é. Mas esperamos que ela saia no próximo mês, definitivamente.
Na faculdade a coisa toda tá muito estranha. Estamos firmes e fortes na arquitetura (ainda? sim, ainda). Temos feito bons projetos e tentado nos destacar positivamente, não em relação aos outros estudantes, mas em relação à nós. Nós podemos mais. É verdade que é difícil, arquitetura é difícil, faculdade é difícil, é um momento político difícil (o coiso foi eleito, Babi. você tá triste, mas tá firme), sua situação familiar é uma tragédia... mas vai ficar tudo bem.
Emocionalmente, você tá um caco. A depressão dá umas olhadelas de vez em quando, lá debaixo da cama; temos dormido muito... passamos muito tempo na cama. Os dias se arrastam. A gente tenta estar sempre de bom humor, rindo, falando com todo mundo, ouvindo quem precisa... às vezes é difícil. Pesado. Dá vontade de chorar. Dá vontade de mandar todo mundo embora. Mas você não manda. Você tá ali.
Amorosamente, eu nem sei explicar. Nunca estivemos tão em paz na nossa vida. Não precisamos de ninguém, entende? Pois é. Complexo esse sentimento. Talvez estejamos passando por um momento de tanta raiva de homens em geral que acabamos nos afastando deles todos. Beijamos um ou outro numa festa, mas é quase por obrigação. Queremos um sexo bom de vez em quando, e até arranjamos, mas será que vale a pena? Queremos alguém, queremos ficar sozinhas. É... seguimos tentando.

Aliás, perdemos um pouco da nossa estabilidade. Nos afastamos de alguns amigos, nos aproximamos de outros. O Gui hoje é seu melhor amigo; ele e o Beni. A banda tá numa fase de retorno, os amigos da faculdade hoje são seus laços mais fortes. Vamos mantê-los.

Mas e você?
Finalmente conseguimos um emprego? Tá bem difícil a nossa situação. Aliás, a palavra "difícil" tem aparecido aqui mais do que eu gostaria.
Não faço ideia se aí no futuro teremos um namorado, um emprego... que estabilidade é essa que buscamos, no fim das contas? Emocional e financeira? Seria o sonho do jovem?
Espero que você esteja bem. Torço demais mesmo. Ao contrário das cobranças que eu recebi aqui, a única coisa que espero de você é paz. Esteja em paz. O resto dá um jeito.

Fique bem, Babi. Você merece.


quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Felipe,

(28 de junho de 2018, 18h38min)

você nunca vai saber todas as coisas lindas que eu tinha pra te dizer. O quanto eu fui apaixonada por cada detalhe do seu rosto, das suas mãos, do seu abraço. Você nunca vai ouvir as minhas juras de amor; juras que eu guardei só pra você. Escondi aquele amor de todas as outras pessoas, e você não faz ideia do quanto isso me custou. Eu nunca prometi amor eterno para ninguém, mas teria prometido pra você. Desde o primeiro segundo em que nossos olhares se cruzaram naquela minúscula sala de aula e eu senti que algo em mim tinha alcançado você. É claro que, como descobri depois, você não teve uma boa primeira impressão, mas ninguém tem. O importante foi quando você também percebeu que eu existia, que estava ali, e que alguma coisa tinha estalado dentro dessa sua cabeça dura.

Por algum motivo, eu acabei de me lembrar de todo o tempo que passamos juntos. Cada tarde que passei na sua casa, fazendo nada, deitada na sua cama ouvindo você falar sobre um bilhão de assuntos diferentes, qualquer baboseira tecnológica, um idioma que você queria aprender, as faculdades que você não queria fazer, o futuro que você não queria viver, as cidades onde você pretendia morar, seu pai, sua mãe, seu irmão mais velho (você não falava muito dele), as aulas ridículas na escola. Eu nunca consegui entender como um cara tão inteligente poderia ter repetido um ano... até agora. Agora eu entendo como aquilo era insuportável pra você. O cara mais inteligente que eu já conheci até hoje. Tão cheio de assuntos, pensamentos, opiniões. A gente discordava tanto que eu nem sei como conseguíamos conviver... mas não só conseguíamos como éramos muito bons nisso. 

Eu tô escrevendo isso sentindo a garganta embargada e os olhos doloridos de segurar o choro. Não acredito que estou chorando por alguém que me machucou tanto quanto você. Alguém me fez sentir burra, que me chamou de mentirosa, que me fez sentir mal por ser quem eu sou. Alguém que me menosprezou e desprezou de todas as formas possíveis, mas principalmente, sabendo quais mais me magoariam.

E pensar que eu me preocupo com você até hoje, seu bosta. Me pego pensando em como você está, onde está morando, se foi fazer uma faculdade, se conheceu alguém. Você me disse que nunca conheceria alguém como eu. Eu também achava que não conheceria alguém como você, mas era fácil demais naquela época. Nós éramos dois extraterrestres em nossa própria espaçonave sobrevoando a cidade e afastando todo mundo que tentava se aproximar, ou adentrar o nosso pequeno mundo particular. Éramos únicos demais. Você, por todas as suas peculiaridades, suas políticas pessoais de Dalton Trevisan, completamente alheio à qualquer forma de interação social que não fosse virtual, lá do alto dos seus quase 1,90m, alto e desengonçado como um bom adolescente, tropeçando nos próprios pés. E sorrindo. 
Você tinha um sorriso lindo.  

Mas nossa, acabei de lembrar daquela festa, aquela em que você quase entrou em coma alcoólico porque tomou álcool de cozinha. Foi a primeira vez que eu te odiei. E esse seria o motivo de eu te odiar várias outras vezes. Eu odiei quem você se tornou, agressivo, debochado, grosseiro, maldoso. Eu não conhecia aquele cara, e não queria conhecer. O primeiro cara bêbado de quem eu cuidei porque me importava, por quem eu me sentia responsável de alguma forma. Eu não era. Nunca fui. Mas eu me sentia, porque apesar de ser apenas sete meses mais velha, eu sentia como se fossem sete anos. Você podia ser uma criança, se quisesse, porque eu sentia que era minha obrigação garantir a sua segurança. 

Se lembra da minha formatura? Você estava lá. Você foi meu convidado de honra. Eu lembro perfeitamente de você vestindo uma camisa social rosa clara, fazendo todo esforço do mundo para me agradar. Naquela época eu já sofria com outros amores, já tinha ódio de outras pessoas, já tinha um ex namorado, mas até então, você nunca tinha deixado de existir dentro de mim. Naquela noite você também bebeu bem mais do que deveria, e eu te levei pra casa. Você me beijou de um jeito horrível e eu quase senti nojo de quem quer que fosse naquele momento, porque não era você. Era um cara imenso, sem noção e bêbado, me segurando mais forte do que o necessário, de quem eu tive que praticamente fugir. Me despedi de você dezenas de vezes naquela noite, da forma mais educada e incisiva que podia, até que finalmente eu tive que me desvencilhar de você aos trancos e barrancos e começar a subir a rua em direção à minha casa, sapatos nas mãos, aquele frio das seis da manhã, o coração apertado e totalmente esgotado. 


(09 de julho de 2018, 11h34min)

Eu tentei falar com você. Alguns dias atrás te mandei uma mensagem na mesma conversa em que você me chama de dissimulada. Aquilo ainda me rasga por dentro. Te enviei meu número de telefone e a ideia de um pedido de desculpas, ou talvez, a sugestão de erguermos bandeira branca e resolvermos essa picuinha adolescente de uma vez por todas. Você não só visualizou como decidiu não me responder. Eu deveria saber, é claro. Conhecendo a peça, não esperava menos. Talvez você tenha alimentado um ódio absurdo pela minha existência e se recuse sequer a pensar numa amizade entre nós. Ou talvez - e na minha opinião, mesmo que eu negue, esse é o pior do quadros - você não se importe comigo o suficiente para se dar ao trabalho de me responder. Talvez toda aquela baboseira apaixonada que você me disse (repentinamente) anos trás fosse exatamente isso: baboseira. Você encontrou outra pessoa, afinal. Talvez ela não preencha esse buraco imenso que existe aí dentro, que você tenta esconder sob essa cara de bravo, seus sarcasmos e sua grosseria, e que finge que pode encher com jogos, álcool, drogas, ou qualquer outra merda. Ou talvez ela preencha. Eu que nunca vou saber.


(21 de agosto de 2018, 18h02)

Encontrei esse texto esperando para ser terminado. Acabo de perceber, sem relê-lo uma outra vez, que jamais será. Não existe final para as coisas que eu quero te dizer. Agora elas já não são mais as palavras de amor que uma Bárbara pretendia lhe dizer, no final de junho. Mutante que sou, já odeio você de novo. Se amei você um dia, e acredito que sim, já passou. O tempo cura qualquer coisa, inclusive a loucura. Eu quero ser cruel com você um dia, como você foi comigo, mas sei que isso é algo que eu nunca vou ser capaz de fazer. Não é porque você me fez sofrer que eu devo fazer o mesmo, não é? Maturidade emocional. É meu novo objetivo de vida. E você se tornou uma lição.

sábado, 8 de setembro de 2018

629 dias

Eu sei
a sua música favorita
e uma lista com as outras noventa e nove
que você gosta de escutar;
os problemas que a tua mãe tem
e que não te deixam em paz;
que você tem medo de perder
pra qualquer pessoa no Fifa;
que você amou ver neve
na Alemanha, uns dois anos atrás;
que você quer jogar tudo pro alto
e fugir pra Europa, mesmo sem dinheiro
e sem companhia;
que você gosta do cheiro de cacau que
tinha uma certa sala silenciosa
na empresa onde você trabalhava;
o motivo desse seu jeito de quem
quer sexo sem sentido,
quando na verdade precisa preencher
um enorme vazio.

Eu só não sei
por que você nunca me deixou
chegar perto o suficiente
para te ajudar
a fechar esse buraco imenso
no seu peito.

segunda-feira, 19 de março de 2018

acústico

E está acontecendo outra vez. Estou, neste momento, deixando passar a oportunidade ainda inexistente de te dizer coisas boas de ouvir. A ocasião não precisa ser criada; por algum motivo, vejo que fazer vibrar seu celular a qualquer hora com qualquer assunto não é incômodo. E que alívio sentir essa pequena liberdade. É bom para o espírito saber que alguém vai te ouvir, sem drama, sem grandes lacunas de tempo socialmente estabelecidas e forçadas, longas o suficiente para deixar claro para ambos os envolvidos que não há nada com o que se envolver. Mas se aqui houvesse, tudo continuaria bem, porque não há problema em se envolver. Foi uma das nossas primeiras conversas, lembra? Quando digo "lembra?" é puramente simbólico, apenas figura de linguagem - você se lembra de mais coisa que eu. Sempre. Seja porque na maioria das vezes em que nos encontramos eu estava completamente alcoolizada, seja porque minha memória é completamente danificada graças ao meu medicamento cortado, seja porque você tem, simplesmente, a cabeça melhor que a minha.
De qualquer forma, eu tinha algumas coisas pra dizer. A maioria é específica demais e colocá-las aqui denunciaria sua identidade, não para qualquer inexistente leitor deste blog público-privado, mas para mim mesma, daqui há alguns meses, quando vier ler os textos já antigos. Além disso, a maioria das coisas eu te disse pessoalmente, deitada na sua cama, fazendo carinho no seu rosto, não muito antes de você cair no sono. Como o dia e que vi você fazendo aquilo em cima daquele lugar e pensei "Puta que pariu" pela primeira vez. E como aconteceu em todas as outras vezes depois disso, especialmente na última. Você estava acompanhado e eu estava de mau humor, ocupada em ser rejeitada por outro homem, mas isso não significa que meus olhos não brilharam um pouco mais quando te olhava. Talvez, colocado assim, pareça uma paixonite. E talvez a pior parte seja a falta de segundas intenções em todos esses olhares. Eu só consigo admirar você. E em todas as pequenas oportunidades que tive de falar contigo, eu falei. E ri das suas histórias. E prestei muita atenção em todos os nomes e datas que você sabe de cabeça; e as referências de filmes completamente desconhecidos; e seus contos de adolescente (talvez os meus favoritos).
Mas o que eu realmente queria te dizer é: obrigada. Por não querer nada de mim, e ao mesmo tempo não me descartar, como sempre acontece. Por me fazer sentir bem, e até acreditar que você gosta da minha companhia. Um pouco. Obrigada por ter sido carinhoso, por ter sido engraçado, por ter me feito rir sem tentar. Obrigada por dividir comigo uma cerveja, um cigarro, e alguns momentos de intimidade que, sinceramente, eu não esperava ter tão cedo. Tenho certeza que pra você não significa todo o turbilhão que significou pra mim. Mas, como eu te contei (nenhum orgulho nisso), estive com todo tipo de imbecil nos últimos tempos. Dadas essas circunstâncias, qualquer demonstração de afeto me acanha.

Sabe, a maioria das pessoa te acha estranho. É óbvio que você sabe disso, mas me faz pensar em como algumas pessoas são completamente imprevisíveis. Você se dá esse título, e eu rio, mas talvez esteja começando a te entender. Talvez esse seu jeito meigo escondido debaixo do boné e dessa cabeleira cacheada seja exatamente isso: um segredo. Um segredo bem guardado, que a maioria das pessoas não merece descobrir, porque são podres e más. E você não é. Você é, estranhamente, uma pessoa muito pura. Boa. Seus sentimentos são abertos e suas intenções são cristalinas. Você não engana, não faz jogos, não trapaceia pra conseguir o prêmio. Quando quer, você simplesmente diz, e talvez por isso, consiga. Uau. Nem eu tinha pensado nisso, analisado você assim. Meus dedos foram mais rápidos.

Essa enxurrada de pequenas confissões começou porque eu queria te dizer quão incrível você foi comigo. E, como já deixei clara toda a parte onde você me fez sentir bem, quero muito te contar sobre a outra parte. Aquela que eu me sinto muito contida pra te falar, mas curiosamente, não pra fazer. Queria poder te dizer como você me fez sentir quando passou as mãos pelo meu corpo e me fez suspirar com calma, com tesão, sem medo. Que sentir a sua boca em mim é uma sensação única, porque tem algo na forma como você me deseja que eu sinto na sua respiração. E que passar os dedos pelo seu cabelo enquanto seu rosto está tão longe do meu é um pedido de socorro que eu não quero que você atenda. Como foi bom sentir você, e como eu queria que você tivesse usado mais força. Mas como eu te disse, não dava pra ter tudo, não é? Fiz você rir com essa. Queria te dizer como é bom beijar você e sentir o seu gosto, e que ver você dizendo "não" me deixou esperando pela próxima... que talvez não aconteça. Mas não importa, porque foi bom.

[Tem muito mais coisa, coisas que não se escreve por aí. Coisas que eu queria sussurrar pra você, deitada na sua cama às 3 da manhã. Coisas que eu te pedi, e não pensei, e entendi. Coisas que eu queria muito, mas sabia que eram para um outro momento. Há mais coisas, que talvez nunca aconteçam, porque talvez eu tenha deixado passar a oportunidade, e vou carregar essa pequena culpa por um tempo. Eu deveria ter te mandado aquela mensagem, te chamando pra tomar mais um cerveja. Deveria ter dito pra gente se encontrar antes de eu ir embora. Poucas coisas, coisas tão simples, tão fáceis, e eu não fiz. E agora, só posso ficar chateada. Mas tudo bem, porque foi minha culpa, não sua. Você nunca me chatearia. Certo?]*

Não foi planejado, mas aconteceu. Do jeito que não poderia, com certa ansiedade, depois de me fazer contorcer na sua cama, implorando por alguma coisa que nem eu saberia dizer o que era. Só de pensar agora já é suficiente pra causar algumas reações, as lembranças mais vívidas do que deveriam, o corpo perguntando quando será a próxima vez. A memória é realista e me pego sentindo um pouco de saudade desses momentos, difíceis de descrever sem ser absolutamente vulgar ou escapar para um romantismo incabível. Não era romântico. Era carinho, era respeito; era tesão? Absolutamente. Foi o tipo de momento que não se vive duas vezes, mesmo quando procuramos incansavelmente, mesmo quando nos abrimos para experiências, buscando abrigo em desconhecidos; o tipo de momento que marca. 


Não tenho final para esse relato. Coisas distintas em tempos diferentes, dias e dias passados, pensamentos que foram e voltaram e ficaram, e eu até agora nem sei dizer o que foi que aconteceu. O que vai acontecer. Mas quero deixar aqui minhas sinceras desculpas por ter essa mania de dar significado mesmo às menores coisas. Isso torna tudo mais difícil. Sei que de alguma forma você entende. Desabafar sobre as formas como algo me faz ou fez sentir ainda é um escape certo para momentos em que eu não tenho mais para onde correr. Desculpe se o escape foi você. Mas obrigada, também. 

quarta-feira, 7 de março de 2018

sinto

existe uma corrente ao redor do meu pescoço
me puxando para baixo.
o peso dos meus músculos
pode ser medido em toneladas
ou em pensamentos.
devem ter aproximadamente
a mesma medida.

sou como uma bola de chumbo
no meio do espaço.

           espaço.                  espaço.                                espaço.

nada além de mim
num raio de um milhão de quilômetros.
sozinha. flutuando.
e sem gravidade pra me manter no chão.

quando estico a mão tentando alcançar
qualquer forma de vida que possa me ajudar
só encontro o vácuo. eterno. completo.
os rostos estão ao meu redor, mas não posso
alcançar nenhum deles. todos distantes
como planetas.
estão em outra órbita.

mesmo quando ouço minha risada aguda
fico confusa, pois como posso ouvir meu riso
se não sinto vida dentro de mim?
como pode uma caixa vazia
estar cheia de confete?

"não seja tão triste". "por que tanta negatividade?"
se soubessem que quando olho pela janela
vejo os escombros do mundo,
as paredes caindo, o céu em chamas,
as nuvens negras e o chão se abrindo.
então saberiam como é viver
pensando apenas
no fim.

o burburinho de uma árvore
é como o presságio de uma catástrofe;
todo e qualquer barulho
é um assalto à mão armada,
e meu chá de camomila
poderia estar envenenado.

é muito difícil ser eu
dentro da minha cabeça.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

souls

I loved you.
Deep as I could, I loved you.
First as a friend, I loved you,
and then, as a lover, I loved you.
It sound silly, of course,
it's not easy to put that into words
because even I couldn't say that I fully understand
whatever the fuck was going on
inside my chest. Or in my head.
But I loved you,
and when I said it, it was truth.
Believe every breath I took to
hold my tears
and be all ears
for you.
At hard times.
At confused nights.
When no one else could be there,
only me. Only us.
In the dark. Behind those
blurry glasses,
hidden in sight,
completely alone,
with only the silver light
from the sky
shining on our eyes.


That time passed
and I can say, right now,
that I'm less confused
about you.
Or, maybe, about me.
I'm still love you,
but I guess I'm no longer
in love with you.
I can let you go
 - not too far, please -,
and still be all I was.
My heart is still warm
when you pull me to your arms
and smile, trying to
calm me down.
I love you.
The right way, now.


I'm sorry for not being
enough.
When I apologize for that,
I'm not saying to you, ok?
I'm telling myself that I'm sorry;
sorry that I'm broke,
and that you are too,

and that too different pieces
doesn't match on this puzzle.


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

livre

rasgue seu peito
e deixe vazar de si
todo o peso
que te puxa
pro fundo
do poço.

abra sua boca
e deixe escorrer
como veneno
o rio que transborda
e te afoga
por dentro.

com suas próprias mãos
descabele-se
como se cada fio de cabelo
fosse um pensamento
ruim
que te entristece.

deite de bruços
e revire-se até soltar
as quatro pontas do lençol
ou as correntes pesadas
e invisíveis
que machucam seus pulsos
te prendendo
onde você
não
quer
estar.

beba cerveja
ou vodca ou vinho
ou conhaque
até sentir-se alcoólico o suficiente
para pegar fogo
ao menor sinal
de um coração aquecido.

sente-se no azulejo branco
do seu chuveiro
e permita-se ser o clichê
onde suas lágrimas
misturam-se às gotas d'água
e você escorre de si
como uma cachoeira.

abrace seu travesseiro,
enfie o rosto no tecido macio
e grite até seus pulmões
pedirem pra parar.
até sua garganta queimar.
até a dor ser menos
e você ser mais
leve.


domingo, 1 de outubro de 2017

385 dias

São sete da manhã de domingo.
Faz pouco tempo que estamos dormindo. Minha cabeça descansa tranquila no seu peito, seus braços estão ao meu redor, exatamente como os românticos descrevem essa cena nos livros. Você tem a boca semi aberta, respira tranquilo e faz um burburinho baixo. Meu rosto está encostado na sua pele, porque gosto de dormir com o seu cheiro. Nossas pernas são um entrelaçado sem sentido, quente e confortável. Nós sempre dormimos assim depois do sexo. 
Meus olhos abrem de repente, atiçados pela luz do sol que atravessa a janela alta acima de nós. Não ouso me mover. Sua respiração tranquila é um ritmo doce, e não quero cortá-la. Fico ali, imóvel, esperando por algo. 
Lentamente, passo a mão pela sua barriga, suave, sentindo sua temperatura. Você é sempre quente. Brinco nos pelos do seu peito e vou subindo até a sua barba. Acaricio seu rosto e passeio meus dedos nos seus lábios separados. Amo sua boca, sempre amei. Volto a te abraçar, e num impulso, te puxo mais pra perto. O amor que sinto por você me preenche, e qualquer distância é sempre demais. 
Claro, você acorda. Olha para baixo e nossos olhos se encontram. "Bom dia", você sussurra, se virando e me abraçando forte. Viramos nossos corpos e minhas costas encostam no seu peito quente. Quente. Mesmo no inverno usamos poucos cobertores, porque dormir com você é como ter um aquecedor. Parece exagerado, mas sabemos que não é.
Quando nos acomodamos, com as pernas entrelaçadas e seus braços ao meu redor, puxo meu cabelo para longe do seu rosto. Você aproxima a boca do meu pescoço e me salpica beijos suaves, com gosto de ontem; aproxima o nariz da minha nuca e inspira com força, como se meu cheiro fosse físico. 

Meu Deus. Se eu fechar os olhos agora, posso sentir sua respiração no meu ombro.

Essas são as minhas lembranças mais fortes e claras. Sei seu cheiro de cor, lembro dos seus trejeitos, seus gostos, as manias, o jeito como você não gostava de por o lençol por baixo do edredom, e seu hábito de beber água quando acorda. O jeito como você me chamava de 'amor'. Os pelos do seu peito. Sua barba comprida que eu amava. Seu beijo. O jeito como você puxava meu lábio inferior pra chamar minha atenção. 

Caralho, era muito amor.
Ou tesão. Ou conexão.
Fosse o que fosse, era forte. Era muito.
Era intenso e era real.

Sinto falta da forma como você me amava.

domingo, 13 de agosto de 2017

Manual do relaxamento para momentos de crise existencial ou de ansiedade e talvez até de pânico

Primeiro, vá tomar um banho quente. Aqueça todos os seus membros pesados com a água corrente e se permita relaxar. Nem me diga, é quase impossível entrar num estado que não seja o de alerta total, mas você consegue. Respire fundo. Fundo mesmo. Sinta seu estômago inflar de ar, seus pulmões expandirem, sinta seu corpo recebendo oxigênio, sinta seu diafragma crescendo e diminuindo devagar. Sinta seu corpo... e não o odeie.
O segundo passo é lembrar que você é quem você é e não há nada nem ninguém que possa mudar isso. Você é a sua própria consciência, habitando esse corpo, pelo resto da sua vida. Respire fundo, sinta-se de novo. Mexa os dedos dos pés um por um, se puder.
Feche os olhos. Mergulhe nessa escuridão confortável, ouça apenas o som repetitivo da água batendo no azulejo. Abra a boca e puxe o ar. Sinta a umidade do chuveiro invadindo sua garganta e aquecendo você por dentro. Sinta seus ouvidos zumbindo e seu cabelo coçando. Sinta as juntas dos dedos das mãos comprimindo e tracionando quando você os mexe debaixo d´água. Passe as pontas dos dedos pelas suas unhas, depois passe as unhas pelos braços. Sinta suas mãos, molhadas e quentes, com calma. Isso tudo é você. Cada detalhe é você.
Depois, abra os olhos. Olhe para a sua barriga protuberante que te incomoda há anos, mas que você prefere manter, como uma velha amiga inconveniente, mas ainda sim, uma velha amiga (porque botá-la para fora e mantê-la lá daria muito trabalho). Olha para os pelos que você já não tira há algum tempo, e que cresceram bastante, e tudo bem. Olhe para as suas unhas dos pés, que estão precisando de um corte, e lembre-se de fazer isso mais tarde. Olhe para cada pedacinho de pele da sua cintura pra baixo, a vermelhidão que a água quente pode causar, as dobras dos seus joelhos. Concentre-se em você por um instante, e respire bem fundo outra vez.
Pegue seu sabonete e use-o para sentir seu corpo mais do que limpá-lo. Comece pelos seus pés, seus dedos, os vãos deles. Seus tornozelos, sua canela, sua panturrilha. Faça círculos nos seus joelhos com os dedos. Ensaboe suas coxas, uma de cada vez, na frente e depois atrás, com muita atenção. Passe a espuma pelas suas partes mais íntimas, e também nessa bela bunda que você tem. Antes de ensaboar sua amiga barriga, passe o sabonete pela sua lombar e perceba como massageá-la levemente te ajuda a relaxar. Sinta seus músculos.
Mova suas costas sob a água quente. Sinta suas omoplatas e movimente-as como puder, talvez fazendo movimentos circulares com os ombros. Faça uma boa quantidade de espuma e massageie esses ombros cansados, que carregam toneladas invisíveis. Desça até suas costas, o quanto alcançar. Passe as mãos pela nuca, massageie sua coluna. Tudo devagar. E lembre-se de respirar.
Esfregue seus braços, os cotovelos, todo seu antebraço, seus pulsos, seus dedos das mãos, um por um. Abra e feche as mãos algumas vezes, sinta todas as suas juntas. E não esqueça dos sovacos. 
A essa altura, você já deve estar se sentindo um pouco melhor. 
Lave seu peito, com carinho. Se forem seios, mais carinho ainda. Com quaisquer defeitos que você possa atribuir à eles - pequenos demais, grandes demais, com estrias demais, sensíveis demais -, são seus. Cuide deles. E depois, esfregue seu pescoço. É ele quem sustenta essa cabeça cheia de problemas e pensamentos, imagina só o trabalho que isso dá. Esfregue com delicadeza suas orelhas, sejam elas grandes, pequenas, de abano, com muitos piercings ou sem furo algum. 
Agora, ensaboe seu rosto. Seja gentil. É você, sempre será você, então é melhor cuidar do cartão de visita. Massageie as bolsas que você carrega debaixo desses olhos cansados. Sinta suas bochechas, sua testa, sinta suas têmporas. Massageie. Devagar e com muito cuidado. Esse é o seu rosto. Passe pelo queixo, pelo nariz, e por essa parte onde crescem os bigodes. Alise suas sobrancelhas, feche os olhos e deixe a água correr pela sua pele. Respire fundo.
Continue respirando fundo. 
O vapor está inflando seus pulmões.
Você está vivo.

As coisas não vão melhorar magicamente depois desse banho. Seus problemas não vão desaparecer. As soluções não estarão esperando por você em cima da mesa, e não chegou nenhum cheque milionário no seu nome pelo correio. A única coisa que pode acontecer é você se permitir tomar uma distância para observar o que quer que esteja acontecendo. Respire. 
Oxigênio nos pulmões, espaço na cabeça. 
E segue o baile. 

quinta-feira, 20 de julho de 2017

game over

Te mandei mensagem na madrugada. Talvez já seja hora de eu entender que isso tem significados muito diferentes para você e para mim. Geralmente estou procurando uma foda de fim de noite; não quero bater papo, quero um sexo conhecido e carinhoso, que não me dê dor de cabeça no dia seguinte. Você... você quer tudo isso, mas também quer a mensagem de manhã, saber do meu dia, puxar assunto. Você quer me contar como estão as coisas, quer que eu veja o quanto você mudou, como está melhor; como está feliz, se dando bem no emprego novo, todo empolgado com mais um curso que começou nessas férias. E sinceramente, eu entendo. Às vezes (muitas vezes, admito) quero te ligar e te contar como estão as coisas, meus problemas, a forma como comecei a procurar saídas inexistentes em drogas e sexo, e como tudo que eu amava deixou de existir. Não tenho coisas boas pra te contar. Nenhuma. Talvez tenha um desenho novo que fiz e gostei e queria te mostrar.

Então, quando eu te mando aquela mensagem às três da manhã, já completamente bêbada e carente, você deveria me ignorar. Isso seria a coisa mais sensata a se fazer, te juro, porque não sou eu. A pessoa que você amava, não sou mais eu. A garota por quem você se apaixonou, de quem você cuidava, que te apoiava e te dava força, ela não existe mais. Eu a afoguei em conhaque e cerveja, a sufoquei com cigarros roubados, queimei seus restos numa fogueira alta junto com todas as nossas boas memórias. E se isso te deixa triste, há pouquíssimo para se fazer a respeito. Quando decidi acabar com ela, eu já sabia que nossas lembranças queimariam também. Nossos bons momentos, o carinho que supria por você. Tudo isso acabou.

É claro que ainda te quero bem. Quando você me conta da sua vida, eu só sei sorrir. Fico genuinamente feliz por tudo que você está conquistando, mas... já não sei mais o que dizer. É difícil ver meu mundo desabando enquanto você constrói castelos com seus entulhos. Tudo isso é difícil demais pra mim.

Quando eu te ligar às três da manhã de uma quinta-feira, não me atenda. Por favor, me ignore. Não me responda tão caloroso e rápido, tão disposto como você faz. Não me convide pro seu quarto, onde entramos na ponta dos pés para não acordar ninguém, e então fazemos um delicioso sexo silencioso, cheio de significados, cheio de palavras abafadas, sempre com aquele tom de amor que existe em nós desde a primeira vez. Por favor, não me cubra e me abrace forte do jeito que eu mais gosto, me aconchegando no conforto dos seus braços e me ninando. E quando meu despertador tocar, avisando que já está quase amanhecendo, não insista para que eu fique, porque está frio e você ama dormir sentindo meu cheiro. E depois, não me acorde com beijos quando o sol já raiou, só para me lembrar que embora você não queira, preciso ir embora. 

Sinceramente, já fui uma pessoa maravilhosa, por quem você poderia ter se apaixonado perdidamente - e de fato, se apaixonou. Mas hoje... hoje sou as cinzas dessa pessoa especial que fez tanto por você. Hoje só carrego marcas e mais marcas de dores que nunca prometi aguentar. Não tenho mais nada para oferecer à ninguém, especialmente à você. Tudo que eu fiz por você, você já fez por mim. Nesse jogo estamos quites. Talvez seja hora  de reiniciar.

sábado, 24 de junho de 2017

Inteira

Só me sinto metade.
E por isso essa busca incessante
por alguém que sem motivo
complete o que falta
e faça de mim o restante
de algo.

Não sou só metade.
Sou inteira, um completo,
ambas as partes de um inteiro.
É um crime se sentir incerto
num mundo de certezas
tão amplas.

Preciso me encontrar
como Cartola precisou,
como buscam todas as pessoas
embora nem todas admitam.
Encontrar em mim mesma
o pedaço que falta.

Chega dessa procura
que não é mais que uma mentira.
Chega de meias verdades,
meios amores cheios de maldade.
Se a alma se cansa
estou onde ela busca repouso.

[Tão jovens, tão lúcidos,
tão cientes de tudo que é pútrido
nesse mundo absurdo.
Precisamos fugir de nós
e talvez por isso
sejamos tão sós.]

Porque apesar de sermos inteiros
buscamos a fuga no outro,
a solução que está aqui dentro
a gente procura do lado errado,
a gente procura lá fora,
entre outras cascas mortas.

Que eu seja feliz,
que eu seja plena,
e que não demore a ver
que não preciso de ninguém
para me fazer sentir
inteira.