segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Outra noite para nós dois

          De repente, abri os olhos. Estava deitada de lado na minha cama, coberta até a cintura pelo meu edredom de sempre, um braço debaixo do travesseiro fofo, e o outro apoiado no meu próprio corpo. Há uma mão junto à minha, nossos dedos entrelaçados com força. Olho pela janela meio aberta, e reparo que as estrelas estão muito brilhantes. Isso me diz duas coisas: é madrugada, e eu dormi de lentes de contato. De novo.
          Respiro fundo, e o ar gélido que entra pela janela invade meus pulmões; me arrepio. É aí que você repara que estou desperta... e me puxa para mais perto. Minhas costas nuas encostam no seu peito, e reparo que você está quente. Como consegue? Sinto minha pele gelada contra a sua e rio baixo. "Que foi?", você sussurra, e eu me viro para você. Meu cabelo está em todo lugar, e você o afasta do meu rosto; em seguida, faz um carinho nas minhas bochechas rosadas de frio, e me beija. O gosto é de sono. Eu sorrio e você sorri de volta, sem muitas palavras, sem muito movimento. Sua mão escorrega para o meu pescoço e recebo mais alguns beijos. É um "bom-dia" com pelo menos quatro horas de antecedência. Você já deveria ter ido embora, mas não consegui deixar. Mais um deslize, e você me puxa pela cintura para mais perto. Mais perto. Mais perto ainda. Minhas pernas entrelaçadas com as suas, nossas mãos agarradas, meu corpo frio ("Parece uma vampira") tocando cada parte do seu corpo aquecido ("Você é quente [risadas]").
          Começa então aquela implicância que você tem com esse meu hábito de rir de tudo, e de coisa alguma, sem motivo aparente. Aquela velha pergunta, "Do que você tá rindo?", e eu sempre dizendo que não é nada, não, ou que não sei. E é verdade, eu nem sempre sei qual é o motivo do meu riso. Talvez seja só uma fresta que deixa escapar o quanto me sinto feliz. Um filete de alegria sem sentido, que abre a oportunidade para começarmos conversas sem fim. Te digo as minhas bobagens, mesmo morrendo de vergonha de todas elas. E você acha lindo quando eu venço essa minha timidez só para te dizer coisas que você já sabe.
          Visto meu roupão e me levanto, deixando você em alerta. No entanto, você relaxa quando eu sorrio e me dirijo ao banheiro, sem acender qualquer luz. Lá, apenas a lâmpada do espelho é acesa, e eu molho meu rosto; as marcas da maquiagem que não tirei, o restinho de um batom que você mesmo consumiu. Meu cabelo, bagunçado, é um furacão cor de fogo, e eu nem me atrevo a arrumá-lo - sei que você não liga, ouso até dizer que me prefere descabelada. Mordo os lábios, ajeito os cílios, sorrio para mim mesma (felicidade, estúpida felicidade...) e depois de balançar um pouco meu cabelo comprido, apago a luz. Volto para meu lugar na cama de casal que geralmente ocupo sozinha, com oceanos de espaço para todos os lados. No entanto, com você ali, deitado do meu lado, as mãos passeando pela minha barriga descoberta, sorrindo para mim no escuro, sinto como se tudo tivesse sido feito sob medida: os lençóis, o edredom, a cama, o tamanho dos nossos corpos, nossos beijos, os travesseiros, seus dedos, as cortinas e tudo mais.
          Seus dedos continuam passeando por mim, e eu rio, um pouco desesperada, quando você ameaça me fazer cócegas. Eu digo "Não" inúmeras vezes, mas você ignora meus pedidos e começa a beliscar minha pele branca demais; me remexo e de repente estamos travando uma pequena luta; eu tentando me defender de você e seus dedos maldosos, você tentando me fazer chorar. Não posso gritar, não podemos acordar o resto da casa silenciosa, e meu único golpe certeiro é aproveitar um milésimo de segundo em que você falha e não protege o rosto; me jogo sobre seu pescoço e calo seu riso com um beijo. No mesmo instante, o clima leve pesa, nos achatando na cama, os lábios inseparáveis, as respirações se acelerando depressa, mãos procurando não se sabe bem o quê. Me deito e te puxo para um abraço, nossos corpos colados, eu desesperada pelo seu beijo, as mãos dançando pelas suas costas. Você enrosca os dedos no meu cabelo enquanto a outra mão cava espaço no colchão para laçar minha cintura. Me puxa para mais perto. Mais perto. Mais. Mais. Desafiamos as leis da física, uma proximidade inimaginável, insuficiente. Ainda estou te beijando, e não vou parar. Os olhos fechados com força, gemidos entrecortados, risos quando minha pele gelada encontra a sua, tão quente, e um lugar novo. Como conseguimos rir tanto? Não sei, e não faço questão de entender. 
          Me vejo de olhos abertos, encarando seus olhos castanhos com uma intensidade que às vezes me assusta. Quero entrar em você, mergulhar em você. E sinto você fazendo o mesmo comigo. Não se explica esse tipo de coisa, não há palavras para descrever. É forte, e basta.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Descrição

Deitou-se no lado da cama
que tecnicamente era dele.
Mordeu os dedos, nervosa,
porque conhecia sua fama.

Aquietou-se e, manhosa,
chegou-se perto do rapaz.
Ele abriu os braços para ela
e a acolheu, medrosa.

Passou então os braços
ao redor do corpo dele.
Encarou-o sem desviar os olhos,
analisando todos os seus traços.

Ele, envergonhado, tímido,
viu-se perdido em seus cabelos.
Ela sorria sem parar, tão linda
e fazia aquecer sua libido.

Beijou-a então, docemente,
apenas lábios castos, devagar.
A fez gemer baixinho, contida,
e por fim a apertou, delicadamente.

Mãos perderam-se nos caminhos
que também chamamos de corpos.
Tudo leve, dedos deslizando,
entre toques, afagos e carinhos.

Pelo vidro muito embaçado
viram a noite tornar-se manhã.
Entre abraços, riam,
sem que nada fosse engraçado.

E mesmo quando foi dia
não puderam dizer adeus.
Ela não o deixava ir embora
pois de dentro para fora, a aquecia.

No pôr-do-sol, ainda deitados,
continuavam ali, inseparáveis.
Às vezes é o que se precisa:
uma tarde de amantes, namorados.

E se perguntarem se é "só" físico,
responderão que não.
Que sexo também é conversa,
que amor também é tesão.

sábado, 17 de maio de 2014

São certezas

Talvez tenha chegado a hora de eu admitir que existe uma porção de coisa boa entre nós dois. 
Que os nossos beijos talvez sejam a coisa mais linda que eu já encontrei em outro alguém, e que esse outro alguém divida tão bem comigo. Talvez, e só talvez, eu esteja chegando naquele ponto em que não te ver se torna um problema, e te ver nunca é demais. Talvez eu esteja deixando minhas paredes altas serem demolidas pouco a pouco, abrindo espaço para a construção das nossas cercas baixas, que servem agora não para proteger, mas para dizer onde acaba a importância dos outros e onde começa um lugar só nosso. Talvez, amor, eu esteja aprendendo o que você está tentando me ensinar há tanto tempo... sobre nós, sobre mim. Sobre amar e sobre permitir que você me ame. Talvez exista até um tantinho de "para sempre" nesse nosso comecinho. Talvez isso que liga a gente seja realmente algo vivo, algo pulsante, e talvez isso nunca saia de nós dois. Talvez eu esteja apaixonada como você diz que estou. Talvez até seja recíproco. Talvez eu tenha aprendido a ser sua, de uma vez por todas, sem olhar para os lados, sem piscar, sem desviar meus olhos verde-escuros dos seus olhos castanhos, que nunca me canso de observar. Talvez, depois de todos esses meses, eu finalmente tenha entendido que te amar é bem mais fácil que te odiar, e que brigar com você me machuca mais do que as dores que tenho no joelho. Talvez nós dois sejamos, no fim das contas, os opostos que se atraem. Talvez o fato de quase brigarmos assistindo futebol porque torcemos para times diferentes seja, sim, uma coisa boa. É quando percebemos que, ora, somos totalmente diferentes, e mesmo assim as coisas estão caminhando. Talvez eu seja realmente chata e complicada, te forçando a me entender de um jeito ou de outro, a aguentar minhas crises e minhas rabugices, meu espírito de velha e minhas reclamações da mesma forma que suporto seu mau humor e seu estresse. Talvez eu goste de quando você fica fazendo caretas pra mim, me fazendo rir, embora eu deteste quando me faz cócegas e eu imploro que pare, perdida nas minhas próprias gargalhadas. Talvez eu aprenda a perder de você no truco sem fechar a cara. Talvez eu compreenda, algum dia, porque você me serve menos vodca e mais energético, ou porque prefere passar frio a me ver tremer. Talvez um dia eu consiga entender porque você me ama.

Talvez, e aqui tenho muitas dúvidas, eu até seja capaz de deixar você pagar a conta.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Sobre todas as formas de violência

Se eu disser que sinto falta do tempo em que caminhava com segurança pelas ruas de qualquer cidade, é mentira. É mentira, porque nunca vivi tempos assim. Sempre vivi com medo. Moro numa cidade pequena, interiorana, onde vejo apenas pela televisão crimes que me tiram o sono à noite. Não moro em São Paulo nem no Rio de Janeiro, mas tenho medo das favelas. Por quê? Porque foi isso que me ensinaram. Também me ensinaram a temer quem caminha muito próximo a mim nas calçadas largas dos grandes centros, a desviar de um grupo de homens, a olhar torto para qualquer um que me encarar por algum tempo e nunca tirar o celular do bolso enquanto ando à noite. O quanto disso é certo ou errado é irrelevante. Note qual é a lição implícita nos comportamentos que me foram ensinados: tenha medo do próximo.

Segurança pública, no Brasil, é lenda. Não importa que te digam “Pode ir tranquilo”, você não vai. Ou não deveria. Ser assaltado, ter seu celular (que você parcelou em 12 vezes no cartão, porque é absurdamente caro) roubado, ou perder o troco do ônibus, essas coisas têm conserto.
Mas e se o cara que te parou para roubar seu celular resolver que não é só isso que ele vai levar de você?
Seja você um homem ou uma mulher, o medo existe. Você teme pela sua integridade física; você pode ser violentado, você pode ser violentada. Você pode ser espancado ou espancada. Você pode ser assaltado ou assaltada, roubado ou roubada, estuprado ou estuprada, assassinado ou assassinada. Estamos sujeitos a essas situações por que...? Não sei o porquê, não sei o motivo. Nem sei como foi que chegamos nesse estágio de insegurança. Não sei quando foi que se tornou mais comum se tornar um bandido que arranjar um emprego. Sempre foi assim? Também não sei. A única coisa que eu sei é que é difícil demais viver assim. Estamos chegando a um nível insuportável. E o que mais me assusta não é levarem o meu dinheiro... é levarem a minha integridade física. Não tenho medo de entregar meu celular, tenho medo de entregar a minha dignidade, a minha posição de cidadã. Tenho medo da agressão. De todas as agressões.

Nenhuma forma de violência é justificável.
Não bata com uma lâmpada num gay pela orientação sexual dele.
Não espanque um negro porque ele cometeu um crime.
Não estupre uma mulher porque ela está mostrando o corpo.

Não é concebível uma conversa em que alguém diga “Aquela mulher mereceu ser estuprada, você viu como ela se insinuou, com aquelas roupas?”, assim como não existe “Aquele menino mereceu ser preso ao poste e espancado, ele roubou!”, ou “Aquele gay mereceu ser surrado até morrer, ele namora outro homem!”.
Não cabe a você julgar o próximo, muito menos puni-lo. Não cabe a você decidir o que será feito com a vida de outra pessoa.

Sinto que estamos numa bomba-relógio, crescente e pulsante. Governantes relapsos, polícia submissa e impotente, um povo enfurecido... e os olhos do mundo virados para nós. Alguma coisa vai acontecer. Não se sabe ao certo o que, nem quando. Mas vai.


A hora de gritar é agora.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Um pedido de desculpas

Quem sou eu pra merecer o seu amor?
Um poço de defeitos, tanta coisa errada junta.
Quem sou eu pra você me amar assim?
Tão louca e inconstante que me assusta.

Sabe como é, eu desconfio de tudo.
Te entrego meu coração, meu eu completo,
mas não sei receber o que você quer me dar;
duvido mesmo daquilo que eu sei ser certo.

Juro que é uma luta eterna o que eu vivo,
tentando te salvar das complicações que sou.
Te poupar do que pode acontecer
enquanto me decido: pra que lado eu vou?

Mas mesmo louca, mesmo meio sem rumo,
no final de tudo, tenho só uma certeza:
eu só quero te levar comigo, te ter do meu lado,
não importa o que aconteça.


terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Mein Kampf

Hoje não sei em quê eu tropecei. Uma velha memória espiando por debaixo da cama, talvez. Botou o nariz pra fora e aspirou fundo, tomando meu ar, me fazendo perder a linha. Esse é, afinal, o maior problema de ter lembranças: quando elas resolvem bater a poeira, dando o ar da graça no nosso presente, nós nos perdemos; eu chamo de suicídio o mergulho que dou no meu oceano infinito de memórias doces, dolorosas só agora. Quase sinto os cheiros, os arrepios, os espasmos.

Na verdade, é uma luta.

Te vejo sorrindo para mim, deitado na minha cama, sem qualquer motivo para querer sair dali. Os braços atravessam os poucos centímetros que nos separam e me puxam, unindo nossos corpos, enquanto um sorriso gêmeo do seu é costurado pelos seus olhos nos meus lábios cansados.
Um gancho de direita incha meu olho.
A garoa forte, que já destruiu meu cabelo, acelera naturalmente nossos passos em direção à minha casa. Nem preciso mais implorar para que você ultrapasse os limites dos portões ridiculamente altos e negros, como guardiões. Fazemos do sofá uma cama, da sala uma casa, da noite uma semana, dos beijos um acordo, das roupas uma bobagem.
Uma joelhada na caixa torácica me quebra uma costela.
Seu cheiro, impregnado na minha colcha, não me deixa dormir. Você está há meia cidade de casa, sozinho, às cinco da manhã, meio bêbado, mas satisfeito, de alguma forma. Disso eu tenho certeza. Levando de volta um pedaço seu que eu adotei por um ou dois dias e fiz questão de inundar com o meu próprio aroma. Uma lembrança minha, goste você ou não. Me acomodo onde seu corpo amarrotou os lençóis e cubro o rosto, embora a adrenalina esteja pulsando atrás dos meus olhos. Ainda sinto sua barba fazendo cócegas no meu pescoço.
Sequência de três jabes entorta meu maxilar.
Ameaço ir embora, e você não toma nenhuma atitude. Dou um passo para trás, lágrimas um tanto forçadas estão acumuladas; me recuso a derrubá-las. Mais um passo para trás... e você estende o braço. Me segura pela cintura. Mal respiramos. Você não diz uma única palavra e eu não tenho estômago para fazer o jogo por muito mais tempo. Tudo já foi dito, agora é só o drama. O adeus que você não deixa acontecer. Me aproximo um único milímetro, um suspiro, e você me puxa, me beija, e de repente estamos tão próximos que nossos corpos desafiam as leis da física, um entrando no outro, a proximidade doendo, mas ainda insuficiente. Nossos lábios não se separam nem por um segundo. Não há mais lágrimas.
Nocaute.

Já estou destruída há vários rounds. Entreguei a luta, afinal, o que posso fazer? Compraram o resultado. Você sai vencedor, eu saio lesionada - o corpo um mar de remorso, o coração uma colcha de retalhos, a cabeça uma caixa de Pandora. É lindo, lindo demais, tudo isso. Para você, que vê de fora, é quase poético. Espero que você não reconheça nem de perto esse meu sentimento sem nome; não o desejo à ninguém.

Vou para o canto do ringue, lambendo minhas feridas. Meu treinador, sem se abalar, me olha quase com orgulho por ter durado tanto tempo. Ele me dá um tapa amigo no ombro, e sua frase final você certamente conhece: "Eu avisei".

Prazo

Eu queria que você me quisesse.
Era um sonho modesto,
um pedido moribundo,
fraco, asmático, tristonho,
sem forças nos ombros.

Um beijo que eu não oferecesse.
Um carinho espontâneo,
que fosse duradouro, pleno,
fora dos meus planos,
todo calmo e sereno.

Te queria sem máscaras.
Viesse como você mesmo
e me buscasse, sem sono
me levasse para cama e
num abraço, me embalasse.

Mas não me enganei.
Você tentava não mentir,
eu tentava não acreditar,
numa hora lago espelhado,
noutra, atormentado mar.

Contei os dias e os meses
até que me perdi.
Deixei a areia escorrer e
a ampulheta tornar real
o tempo que continuava a correr.

Um, dois, cinco, nove,
nasce um filho bastardo de nós.
Você não o quis, eu o neguei.
Chamei-o Paixão, mas pensei
em trocar para Prazo.

Vencemos em julho.
Acabamo-nos havia tempos,
eu negando, você correndo,
as correntes firmes que não quebramos
e a ampulheta a escorrer o tempo.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Se eu tô bem?

Tô mal.
Tô com um aperto no peito, alguma coisa tá fora do lugar.
Tô com a sensação de que perdi a briga, de que talvez eu tenha tomado a decisão errada, mesmo depois de pensar tanto sobre isso, pensar só nisso.
Tô com a impressão de que pisei num degrau que não existe; aquele segundo em que você simplesmente não tem controle sobre o que aconteceu, porque só aconteceu, você nem viu. Tô com aquela mágoa entalada na garganta, aquele medo de alguma coisa que não dá pra saber o que é.
Tô perdida.
Tô abandonada.
Tô largada.
Ouvindo as mesmas músicas, porque elas ainda não carregam lembrança alguma.

O meu problema é você.

Lembra aquele dia que você disse que sentiu minha falta? A gente não se via havia tanto tempo... sentir seu corpo perto do meu foi um choque, um baque.
Lembra aquela conversa? Você disse que não ia me deixar. E deixou. Foi. E foi embora pra longe.
Lembra aquele último beijo? Pois é, eu lembro. Era madrugada. Você já tinha me dito tudo que queria, feito de mim o que quis, usando e abusando, mas sempre tão carinhoso que minha mente entrou em curto. Você me beijou, e de repente, já estávamos separados outra vez.
Lembra daquele abraço? Tão casto, tão puro, porque a gente não era mais "a gente", eu era eu e você era você, cada um no seu canto, cada um no seu lugar. E todas aquelas garotas te rodeando... e eu, assistindo... não sabia que era capaz de suportar aquela babaquice.
Lembra do tchau?
Eu lembro.
Nunca vou esquecer.

Talvez seja essa despedida inacabada que me pesa o peito.
A gente nunca disse adeus.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Não pude apagar

Não apaguei nossas fotos. As apaguei do público, mas não do privado. Estão salvas aqui em algum lugar, perdidas entre tantas outras memórias de tantos outros lugares. Eu sinto que você tinha vergonha de mim, sabe? Que você não queria que as pessoas soubessem sobre nós. Primeiro, pensei que fosse um cuidado seu, mas depois percebi que talvez você não quisesse se prejudicar. Ter uma namorada te afastava de outras biscatezinhas, não é? Te prendia. E você não queria se prender. Nem a mim.
Eu cuidei de você com todo o meu amor. Cuidei da sua saúde, do seu corpo, do seu espírito e da sua mente. Da sua imagem, do seu ego, dos seus problemas. Da sua família, das suas dores e das suas bebedeiras. Eu cuidei de você, e queria que você cuidasse de mim, mas você não foi capaz. Sabe por quê? Porque você nunca sequer gostou de mim. Não me amou, eu sabia; mas não fui capaz de te conquistar? Você não se apaixonou por mim? Não houve sequer uma gota de paixão? Que vergonha. De mim, é claro, por não conseguir te prender a mim.
Sou fraca. A carne é fraca. Eu fiquei distante, mas fraquejei quando nossos corpos tiveram contato. Fui fraca. Mas espero que ninguém me culpe por isso, afinal, eu só tenho 17 anos. Posso me apaixonar, posso sofrer, posso amar e desamar quantas vezes achar necessário.
E é só isso. Eu, fraca, e você, otário. Às vezes temos aquilo que merecemos.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Prêmio

Eu li sim o que você me escreveu. E só Deus sabe o quanto eu quis te responder. Mas você já me deu tanto desprezo, já me ignorou com tanta força, já me fez desejar não ter te conhecido tantas e tantas vezes que, olha, eu nem sei mais contar. É como uma grande coleção de sentimentos que eu tenho; e os piores eu guardei para você. Não finja que não sabe o que aconteceu. Não finja que não foi nada demais. Não finja que tudo pode voltar ao normal. Não se engane e não me engane. Não mais.
Agora o que eu sinto é realmente só desprezo; talvez um pouco de rancor. Por que estragar tudo desse jeito?! E não me diga que não foi nada porque você me conhece! Sabe que eu sofro, sabe que eu sou dramática, que comigo é tudo maior, melhor e pior, é tudo com um zoom, uma expansão. Comigo é tudo muito "mais" que com os outros. Você me conhecia, me entendia. Eu, otária, é que não te conhecia. Não sabia que você era tão mentiroso e mau caráter. Agora, eu só quero te ver sofrer. Não, eu sei que a minha ausência não faz porra de diferença nenhuma para você. Mas você vai sofrer nas mãos de alguém, e eu espero que quando esse alguém te fizer quebrar por dentro, você saiba que estará sentindo como me fez sentir. Morta. E depois, viva como um vulcão. Mas aí nem é mais com você.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Deixa eu contar

Foi absurda a rapidez
com que sensatamente
me livrei de você.
Apaguei as memórias,
esqueci as histórias;
o seu gosto eu nem lembro mais.
Achei que sentiria por tempos
a falta que você faz.
Mas não faz mais diferença
e eu estou em paz.
Uso sua roupa e vejo suas fotos,
e é engraçado como,
ao meu próprio modo,
fui superando, e deixando,
e esquecendo de como foi.
Hoje eu nem imagino o que mudou.
Talvez se eu me esforçar
consiga lembrar
como era o ritmo da nossa dança,
o volume da nossa alegria.
Hoje, só vejo uma mistura
quase melancólica, crua
de desapego induzido.
E quando perguntei se
você queria ficar comigo,
a resposta foi indiferente.
Bem, agora é a minha vez
de te abandonar no passado
e seguir em frente.

domingo, 21 de julho de 2013

vício

E eu estava lá, numa pequena multidão, e adivinha quem estava faltando? Pois é. Senti falta do toque da sua mão na minha, dos seus beijos repentinos, da sua necessidade de não me dividir. Senti falta do seu cheiro, de brigar com você por bobagem, de nem olhar pros lados pra não te deixar enciumado. Senti falta da sua voz, e do jeito como você nunca fala o meu nome; já reparou? Senti falta de como você pedia pra ir embora, mas ficava por... por mim. Senti falta até de saber que tinha você me segurando, mesmo longe. Senti falta da sensação de dever satisfações, de ter alguém me esperando lá longe, de não poder beijar mais ninguém. Mas sabe qual foi a melhor parte? Eu não quis beijar mais ninguém. Eu não queria, eu não quero. E se eu tento, não consigo. Parece errado, os beijos não estão certos, as mãos estão nos lugares errados; eu te ensinei tanto sobre mim que agora não quero ensinar mais ninguém. Eles não sabem fazer como você faz. E isso me deprime.
E enquanto eu tinha você, tinha também uma sensação de segurança que eu nunca tinha experimentado, sabe? Aquele gostinho de ser de alguém... é bom. Eu gostei bastante, e sabe do que mais eu gostei? De ter você pra mim. Gostei de não dividir e de não ser dividida. É assim que funciona?  Fico imaginando se pra você era tão ruim assim. Foi por isso que você se afastou? Eu fiquei triste, fiquei sim, mas não quero que você saiba. Quero que você pense que está tudo bem; ou talvez eu não queira, não. Talvez eu queira que você saiba que eu tô um caco, triste, quase deprimida. Morta de saudade, e de arrependimento. Se eu pudesse voltar uns dias no tempo e só te dizer que estava com saudade, ao invés de começar toda essa merda de terminar algo que acabou de começar...

E só pra você saber, ainda mordo os lábios. Vivem cortados, cobertos de batom pra disfarçar, mas lembra que você sempre via? E me xingava. E depois me beijava. E eu reclamava, e você me xingava outra vez. É um vício que me machuca. Como você.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Range

Esqueci de bater a porta e agora, por um vento qualquer, ela está rangindo. Nhééééc. Esse som me irrita, arrepia e amedronta, mas sabe do que eu lembrei agora? De quando você fechou a porta com cuidado, e ela fez o mesmo barulho. Nhééééc. Então você veio e pulou na minha cama, me abraçou e me apertou, me beijou e me fez rir quando passou a barba no meu pescoço. Aí a porta rangeu de novo, nós olhamos, mas era só o vento testando a nossa adrenalina, nhééééc. Você continuou com os beijos e a barba e eu tremia; tremia de frio e das outras coisas que você me fazia sentir. O vento voltou pela porta entreaberta, agora, enquanto me lembro dessa noite em particular. Nhééééc. Tenho que me levantar e ir até lá, fechá-la de uma vez, como fiz naquela noite... só que agora você não está aqui pra me segurar pela cintura e me puxar de volta, então vou até a porta sem brigar, sem lutar, e a fecho. O silêncio irrompe e eu me vejo sozinha, mergulhada em lembranças sofríveis. Por diversão, o vento abre a porta outra vez, agora que já me deitei. Nhééééc. Você sabe que não consigo dormir de porta aberta, não sabe? Sabe, e me chamava de fresca não só por isso, mas por todas as outras coisas bobas das quais tenho medo ou implicância. Fecha pra mim, murmuro, e me lembro de que você não está aqui, hoje. E nem estará tão cedo. Estou sozinha, outra vez, ouvindo o vento assobiar pela janela e fazendo ranger a porta: nhééééc. O barulho faz meus pelos do braço eriçarem e escapa um riso abafado. Que merda. Se eu me concentrar, dá pra sentir suas mordidas. E se eu fechar os olhos, ouço até a sua voz. Para de ser fresca, puta que pariu. Você está aqui? Está, de alguma forma. Está em mim.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

não é uma despedida de verdade

Talvez essa seja minha melhor oportunidade para te dizer algumas coisas que, se eu me conheço bem, eu jamais diria cara a cara. Coisas simples, pequenas, bobas, inúteis e até irrelevantes, mas que eu sinto uma necessidade imensa de expressar. 
Adoro a cor dos seus olhos e o modo como você os deixa semi-cerrados antes do beijo. Adoro a cor do seu moletom favorito, aquele vinho que eu quero pra mim. Adoro seu cheiro de perfume e menta. Adoro quando você não fuma perto de mim, e adoro quando você para de beber antes de ficar bêbado porque tem que me levar embora. Adoro os poucos centímetros que te deixam mais alto que eu, e adoro sua cara de descaso quando fico mais alta que você. Adoro o jeito como suas mãos estão sempre quentes (até você tentar me fazer cócegas por baixo da camiseta e eu quase choro de raiva quando na verdade sua mão está gelada como um defunto). Adoro o gosto do seu beijo. Adoro quando você chega na minha casa com uma bala - e o mundo fica cheirando canela. Adoro o jeito como a gente nunca tem o que conversar até você ter que ir embora. Adoro quando estou brava e você vem, me abraça e me beija, e eu esqueço todas as frescuras do mundo. Adoro quando você oferece a blusa porque estou tremendo de frio. Adoro o seu perfume na minha roupa. Adoro quando você me conta que sua família quer me conhecer. Adoro quando te digo "fica", e você fica. Adoro quando começamos a discutir o começo de tudo e você tenta me convencer de que foi minha culpa. Adoro até suas birras.
Eu nunca fui boa em dizer para alguém, pessoalmente, o quanto gostava dela. Nunca. E acho que é algo que eu nunca saberei fazer direito. Portanto, talvez esse seja o melhor jeito de te dizer as coisas que eu mais gosto em você. Não espero nada mais que um sorriso enquanto você lê isso e, como eu prevejo agora, tem uma lembrança para cada cena. 
Então é isso. Se você realmente for embora, eu vou sentir sua falta,  e adoraria se você sentisse a minha. Quero que a gente continue conversando esse mesmo monte de bobagem. Quero saber da sua nova vida. Embora eu não faça parte dela. 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Dez coisas que eu não consigo te dizer

Dez coisas que eu tenho que te dizer:
A primeira é que não quero te forçar
a fazer nada que faça você se arrepender.
A segunda é que eu estou preparada
pra te ter e pra te não ter,
independentemente do que acontecer.
Continuar te vendo sempre é a terceira
coisa que tenho que te falar.
A quarta é pedir pra você ir mais devagar.
A quinta coisa é outro pedido: tente não enjoar
de me ver todo dia, de falar comigo
de tarde e madrugada adentro.
A sexta é que você não é meu inimigo
e pode confiar em mim sempre.
A sétima é que não me importo contigo
só quando você está contente.
A oitava é um aviso: querido,
não me afaste quando precisar de mim.
A nona é que eu te quero, sim,
quero muito, e quero agora.
Mas a décima é um conforto:
se não for agora, não era a hora.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

#4

Fraca. De mente. De corpo. De vontade. Fraca de querer.
Preciso de ajuda. Um empurrão. Uma palavra amiga.
Estou cansada de toda a grosseria que vocês usam como um tiro de ânimo. E reclamam que a grossa sou eu. Sou um espelho, sou como a lua, sou um reflexo inanimado do que recebo. Cansada.
Fui atrás de um amor, ele me recusou.
E chegou para mim um amor que eu não quero.
Não aguento mais pedir desculpas.
Não aguento mais fingir estar bem. "Está tudo bem está tudo bem está tudo bem está tudo bem". Não me venha com louça pra lavar, eu já lavo roupa suja toda hora, não suporto mais tirar os restos da mesa, os restos do que eu não consigo jogar fora. É assim tão anormal estar triste?!
A tristeza por si só me consome, e a metade da energia que me resta eu gasto sendo uma palhaça atônita e hipócrita. Chega dessa merda.
Não fale comigo se eu estiver de cabeça baixa, e não atrapalhe o meu sono.
Não me obrigue a dizer que eu te avisei sobre o meu humor.
E principalmente, em qualquer oportunidade, me abrace. Calor humano e demonstrações de afeto se tornaram fundamentais pra mim. Qualquer sorriso é um pouco de oxigênio, um abraço é sangue correndo nas veias.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Eu preciso

Preciso de um amigo.
Alguém com quem conversar por horas sem cansar.
Alguém pra me dizer que estou feia.
Alguém pra rir comigo das piadas velhas.
Ou me dizer que a piada é velha e ruim.
Alguém pra pegar na minha mão sem ter medo.
Alguém pra dizer que não me aguenta mais.
E sem me magoar.
Alguém pra deitar comigo a tarde e dormir, assim, dormindo.
Alguém que me mande mensagem quando estiver sem sono.
E que tente me acordar pra não ficar sozinho.
Alguém com quem eu fale sobre sexo sem ter vergonha.
E que me conte detalhes que eu nunca imaginei.
Alguém que eu saiba que não quer mais nada além do que eu posso oferecer.
Quero um amigo, não uma amiga.
Porque amigas eu tenho, e levam anos pra confiar.
Agora homens, não.
É alguém mais rápido, prático, direto.
Alguém honesto, mas que não quer te irritar.
Alguém que não quer te jogar contra ninguém.
É alguém que eu preciso.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

8/5/2013

Não sei porque continuo fazendo as mesmas idiotices dia após dia. As mesmas coisas pequenas. Tirar o adaptador do secador de cabelo é motivo pra causar uma terceira Grande Guerra nessa casa, que já cai aos pedaços, num ritmo assustadoramente harmônico ao meu desespero.
Já não sinto mais ódio, ou medo, ou cansaço. Apenas uma forte crise de pânico e falta de ar.
Preciso começar a respirar melhor depois de ouvir a pessoa que eu mais amo no mundo gritar comigo, pela milionésima vez, pelo mesmo motivo. Me pergunto o que há de errado comigo. Porque não sou capaz de aprender. Coloque o adaptador de volta, ou ela te surra com o cabo. Coloque o adaptador de volta, ou ela se divorcia outra vez.
'Respire', é a única ordem que meu cérebro é capaz de dar. 'Respire'.
As lágrimas virão assim que eu deitar minha cabeça ruiva no travesseiro. É quase diário.
Assustadoramente previsível, me ponho a digitar até a ponta dos dedos doerem.
Preciso de ajuda, um pouco de pressão no meu abdômen, até conseguir respirar de novo. Meu estômago dói, minhas entranhas se fizeram num nó, meu cabelo continua bagunçado e meus olhos ardem, secos, com as lentes de contato.
Desliguei os fones de ouvido, arrumei o uniforme e repensei.  De novo. Vivo repensando e fazendo as mesmas coisas. Como meu choro, é um hábito quase diário.
Religiosamente peço à Deus que dê à ela paciência e à mim, responsabilidade. 
Os gritos dela ainda ecoam na minha cabeça vazia.
Não quero chorar. 'Você já tem 17 anos'. Continuo sendo criança. Não quero crescer, ou envelhecer, prefiro pular essa parte e chegar à velhice, talvez ao meu último dia de vida, e quando o último suspiro se formar em meus pulmões caquéticos, ter certeza de que esse oito de maio foi o dia em que deixei o adaptador no lugar errado pela última vez.
Erros e mais erros que me fazem crer na dimensão da minha estupidez. É vergonhoso e incurável.
Ela ainda vai ter que gastar muita saliva comigo. Muito ar, muitos gritos. Eu não quero que seja assim. UTI para falta de atenção, é isso que estou procurando. Alguém me ajude.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Cicatriz

Prefiro descascar minhas unhas vermelhas,
sair sábado à noite sem maquiagem,
esquecer de fazer as sobrancelhas,
cantar em frente ao público sem coragem,
subir na casa e trocar todas as telhas,
esquecer de fechar o portão da garagem;

dançar sozinha no meio de todo mundo,
esperar no frio por uma carona que não vem,
ser confundida com um mendigo vagabundo,
perder a minha única passagem de trem,
ver um amigo doente e moribundo,
ou ficar moribunda também;

tem milhares de tragédias, sejam ou não relevantes,
que prefiro ver acontecer na minha vida;
tristezas que prefiro que aconteçam antes
de deixar cicatrizar minha ferida.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Na beleza do novo

A beleza de se apaixonar por um desconhecido é a descoberta.

Já me apaixonei incontáveis vezes, e imagine só, nunca amei ninguém. A paixão é muito mais bonita e invariavelmente mais indolor que qualquer forma de amor, porque o amor exige demais, e a paixão exige apenas um pouco de tempo. Pouco tempo, é sim. Aquele tempo que você passa sem pensar em nada, é quando você pensa na sua nova paixonite. É bonito, prático, rápido, e geralmente indolor. Indolor. Acredite, essa é a melhor parte.

Não é a primeira vez que sinto falta de uma paixão. As antigas já não suprem minhas necessidades e não há um conhecido que se faça notar. Não sei se é muito piegas dizer isso, mas vou dizer de qualquer forma: "estou cansada dos homens desta cidade; quero novos amores." Piegas. Brega. Previsível, clichê; escrever isso é um absurdo literário. Mas não deixa, em momento algum, de ser uma verdade irrefutável.

Então, peço uma última (ou talvez não) vez que algo aconteça e eu finalmente te encontre. Vagando por essas ruelas maltrapilhas, vestidas com trapos de concreto, relva saltando por suas veias. Me encontra, ou deixa eu te encontrar. Não é um pedido grande o suficiente para ser ignorado, ou é? Assim, difícil, impossível, por acaso? Eu não acho que seja.
Aliás, é bastante simples:
me dá uma direção que eu sigo.
Me dá um nome que eu acho.
Me dá um cheiro que eu lembro.
Me dá um sorriso que eu não solto.

Mas quem tornaria simples uma busca necessária como essa, quando a beleza da descoberta fica ainda mais explícita quando recoberta com lamentações?
"Levei tanto tempo pra te encontrar".
É mentira quando já se sabe onde está, mas a mentira não faz deixar de ser lindas as declarações, por mais falsas, fajutas, por mais desmoronadas, soltas, aleatórias. Não deixam de ser declarações de amor. De mim para você.