terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

[textão sobre violência] / 04 fev. 2020

Sentindo a ânsia me alcançando o esôfago, preciso falar.

Da minha janela vejo uma das ruas mais movimentadas do centro de Curitiba. Nessa rua existem duas estações tubo igualmente movimentadas, sempre transbordando gente; gente cansada que espera na fila que vira a esquina, gente de guarda-chuva, gente com criança de colo ou com o peso dos anos nas costas. Passo muito tempo observando esses pequenos aglomerados, ouvindo o burburinho das conversas, admirando o viver a cidade que se faz sem perceber. Portanto, não é novidade que eu acompanhe uma ou outra confusão que acontece por aqui.

Hoje, já tarde da noite, ouço gritos — altos o suficiente para que se sobreponham à minha música, alta por si só. Vozes masculinas, agressivas, estridentes. Minha janela, sempre aberta, enquadra a cena de violência: um homem, ainda dentro do ônibus, parece ter sido jogado ao chão, pouco atrás do motorista. Dois rapazes vestindo preto dos pés à cabeça — deles são os gritos — espancam o homem no chão; chutes e socos são o que consigo identificar. Paro tudo que estou fazendo e me coloco para fora da janela, pronta para chamar a polícia caso acredite que a briga tenha passado de qualquer um desses falsos limites que impomos à violência intrínseca ao nosso dia-a-dia. Os três descem no tubo; os rapazes, ainda revoltados, saem pela catraca em direção à esquina, a passos largos e ameaçadores e, encobertos por seus próprios gritos e xingamentos, lentamente desaparecem. Já o violentado parece conversar com quem ocupa o assento do cobrador do tubo nessa noite fria. Vejo pouco; além da minha miopia, que vence meus óculos com grau obsoleto, os vidros da estação têm uma camada de insulfilm em toda a parte que protege o cobrador, e é nessa direção que está parado o homem. Tudo parece calmo, resolvido; volto ao que quer que fosse que demandava minha atenção até o momento dos gritos.

Arrisco dizer que foi coisa de dez minutos (um pouco mais, um pouco menos) desde o fim da briga até a chegada da ambulância da SIATE, acompanhada de uma viatura da mesma categoria. Quando ouvi as sirenes e flagrei as luzes altas com o canto dos olhos, novamente me empoleirei na janela — curiosa, devo admitir. Graças à mesma miopia que me atrapalhara, mas também ao posicionamento da ambulância, não via nada. Percebi que socorriam alguém que estava nas escadas da estação tubo vizinha à primeira, onde se desenrolara a briga há pouco observada. Não conecto os fatos. Observo o desenrolar da cena durante alguns minutos; enquanto isso, estacionam atrás dos carros da SIATE viaturas da Guarda Municipal, de onde descem vários homens fardados. Logo, mais uma viatura; dessa vez da Polícia Militar. Enquanto mais carros chegam, vejo os bombeiros da SIATE erguendo um homem que parece, a essa distância, inconsciente, ou perto de estar. Alguma movimentação acontece na calçada, atrás da bendita ambulância, impedindo que eu acompanhe os fatos com mais detalhes, até que a maca é erguida e vejo o homem: magro, de pele parda, sem camiseta ou calça — suspeito que suas roupas tenham sido removidas durante a ação dos socorristas, por motivos que estão além do que meu raso conhecimento permite compreender. A maca é colocada dentro da ambulância, e vários policiais cercam a porta; parecem esperar que algo aconteça. Durante longos minutos não há novidades ali, apenas mais policiais e um homem carregando uma câmera que identifico como sendo uma dessas de reportagem. O assunto — e o ferimento — deve ser mais sério do que assumi. Mais alguns minutos se passam até que finalmente a ambulância é fechada e vai embora, sirene soando, luzes fortes anunciando sua pressa.

Com menos velocidade do que chegaram, as viaturas partem, mas ainda há um aglomerado de homens fardados que parecem conversar amenidades com um outro homem, alto, vestindo camisa social e um blazer que, eu diria, é um pouco pequeno para seu porte. Repentinamente surge um microfone em suas mãos, e a câmera é acionada; uma luz forte e branca ilumina quase toda a calçada, apontada para o homem corpulento, que começa a descrever quaisquer que sejam os fatos. Quando percebo que a história será explicada, desligo minha música (que já passara a ser apenas um som ambiente há muito tempo) e estico o pescoço para fora, atenta. "…Podem ter sido até três facadas", ele diz, e eu me encolho. Facadas. Ele caminha pela rua, pela calçada, entra no tubo — o primeiro, onde vi a briga. Então, com palavras que agora me fogem a memória, ele começa a descrever o sangue; há sangue dentro do tubo, na escada, em peças de roupa na rua. Se não for alucinação minha, ele chega a tocar numa peça e dizer "Uma jaqueta, cheia de sangue", ou coisa que o valha. Para meu choque (ingênuo da minha parte, sim), o repórter, seguido sempre de perto pela câmera, caminha por trás do tubo, narrando o que deve ter sido o caminho feito pelo homem ferido, que parece ter ido buscar socorro na segunda estação (é o que ele diz ao microfone), e lá ficou, caído nas escadas. Meu estômago parece dar três piruetas e então, um nó. Graças à luz branca, cujo papel é permitir que toda tragédia seja vista com clareza pelos telespectadores sedentos, sou capaz de enxergar mais roupas ensanguentadas jogadas no chão. O homem continua descrevendo com detalhes as marcas da tragédia recém acontecida, mas não ouço mais. Percebo que assisti toda a história; os agressores, a vítima, o motorista do ônibus que simplesmente foi embora (diante de uma situação dessas, há algo a se fazer?).

Enquanto assimilo a terrível realidade do crime que ingenuamente observei acontecer, duas pessoas se aproximam do primeiro tubo, onde acabo de enxergar uma poça de sangue. Mesmo que de longe, com pouca visão e muitos obstáculos, é uma cena chocante de se observar. Entendo que as duas pessoas são responsáveis pela limpeza, acionadas para garantir que, pela manhã, quando a vida voltar a acontecer em seu ritmo alucinado e contínuo, não haja sinal algum da tragédia ocorrida. Com um jato d'água e algumas esfregadas vigorosas, o sangue — a prova, a evidência, a marca — se vai; pronto para a próxima.

A efemeridade da vida acaba de passar bem diante dos meus olhos. A naturalidade com que tratamos a violência me enoja, bem como me aterroriza; o que precisa acontecer para que nos choquemos? Um homem é esfaqueado dentro de uma estação tubo; uma criança é baleada no quintal de casa; um marido mata esposa e filhos durante uma crise de ciúmes; um presidente assassina um general de outro país. Por que, quando penso numa maneira de descrever cada um desses casos, me vem à mente "pequenos absurdos"? Não são pequenos. São tragédias. São vidas; e não valem nada. Não valem? Quando foi que passamos a vender morte como uma boa manchete e nada mais?

Hoje, estudo para ser urbanista. Gosto de política; política urbana, segurança pública. Espaço coletivo, público, que deveria ser seguro para todas e todos. Não é. Não tenho estômago para propor a discussão, hoje estou apenas apresentando uma história. Mas nós precisamos falar sobre isso. Sobre tudo isso. Sobre segurança, sobre saúde pública, sobre a cidade e o por quê de nossas ruas se tornarem, dia após dia, um espaço de opressão, e não de liberdade.